Cavalos e Suas Origens: Garrano — O Cavalo que o Lobo Caça
O garrano, pônei das montanhas do norte de Portugal, virou a principal presa do lobo-ibérico e tema de estudo de cientistas japoneses na Serra d'Arga.
André Ferreira
17 min de leitura
Garrano solto entre a vegetação rasteira em São Bento do Canto, Viana do Castelo, no norte de Portugal. Foto: ZéMarks / CC BY-NC-SA 2.0 / Flickr.
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Em 2016, Monamie Ringhofer e Sota Inoue subiram a Serra d'Arga, no extremo norte de Portugal, e montaram ali um sítio de pesquisa. Tinham vindo do Japão, do instituto de Tetsuro Matsuzawa, não atrás de primatas, mas de cavalos pequenos e escuros que vivem soltos na montanha. O que puxava cientistas do outro lado do mundo até aquela manada era o vizinho dela: o lobo-ibérico, que ali caça cavalo como presa principal.
Tronco celtaUma das raças ibéricas mais antigas
1993Registro e padrão oficiais da raça
Principal presaDo lobo-ibérico no noroeste
O garrano é o cavalo das montanhas do norte de Portugal. Vive nas serras do Minho e de Trás-os-Montes, as duas regiões mais ao norte do país, de relevo alto e frio, encostas de granito e invernos rigorosos, bem diferentes do litoral ameno que o turista conhece. Pequeno, escuro, de pelo grosso, foi ali que o garrano puxou arado, carregou carga e desceu a minas por séculos. O nome vem de uma palavra celta antiga que quer dizer, mais ou menos, cavalo pequeno. A palavra já entrega o animal.³
Garrano em liberdade na Serra Amarela, dentro do Parque Nacional da Peneda-Gerês, onde a raça divide a montanha com o lobo. Foto: Pvfsm1 / CC BY-SA 4.0 / Wikimedia Commons.
Quem zela pela raça hoje é a Associação de Criadores de Equinos da Raça Garrana, a ACERG, com sede em Vieira do Minho, uma vila no meio dessa região serrana. Logo do outro lado da fronteira, na Galiza, região do noroeste da Espanha que faz divisa com Portugal, o mesmo cavalo atende por outro nome, Faco ou Cabalo Galego. O garrano é uma das raças nativas de Portugal, ao lado do Sorraia e do Lusitano.³
Os romanos contavam as batidas do seu passo
O passo do garrano é só dele: mais curto e rápido que o trote, com as patas batendo o chão em quatro tempos cerrados, quase como um tambor. Os romanos já montavam cavalos assim e deram nome ao andamento, numeratim, "números contados", pelo som das batidas em sequência. É cômodo, e poupa o cavaleiro nas subidas longas de serra.²
No começo do século XX, um naturalista escocês classificou esse tipo de cavalo como "cavalo celta", e um veterinário português já o havia retratado antes assim: cabeça curta, perfil reto, orelhas pequenas e direitas, temperamento duro e sóbrio. A descrição de mais de cem anos atrás ainda serve para o garrano de hoje.²
O garrano não saiu das pinturas rupestres
Quase tudo que se escreve sobre o garrano repete a mesma ideia: a de que ele seria descendente direto dos cavalos que aparecem desenhados nas rochas, há milhares de anos. Os desenhos mais famosos estão no Vale do Côa, no interior de Portugal, e na caverna de Altamira, na Espanha, dois dos maiores conjuntos de arte pré-histórica da Europa, cheios de cavalos gravados na pedra.³
Cavalo pintado no teto da caverna de Altamira, na Espanha, com mais de 13 mil anos. Pinturas como esta, num dos sítios que o texto cita, alimentaram a ideia de que o garrano desceria dos cavalos das grutas, que os estudos de DNA não confirmam. Foto: Daniel VILLAFRUELA / CC BY-SA 3.0 / Wikimedia Commons.
Os estudos de DNA já feitos com a raça mostram algo mais modesto. O garrano é uma linhagem antiga e bem distinta dos outros cavalos, parente próximo de dois pequenos cavalos de montanha do norte da Espanha: o Pottok, do País Basco, e o Asturcón, das Astúrias, ambas regiões logo acima da fronteira com Portugal. Traz a marca de quem se reproduziu sempre dentro do mesmo grupo pequeno, isolado nas montanhas. Mas nenhum desses estudos conseguiu ligar, de fato, o garrano de hoje aos cavalos das grutas.⁴
O que a fonte sustenta e o que é tradiçãoOs cavalos da arte rupestre e o garrano dividem o mesmo território, e foi isso que criou a ideia de um parentesco em linha reta. A genética não confirma essa linha de sangue. O que ela confirma é que o garrano pertence ao grupo celta dos cavalos ibéricos, irmão do Pottok e do Asturcón. A descendência das grutas é tradição, não conclusão de laboratório.
Esse parentesco atravessa fronteiras. Com o pônei Exmoor, na Inglaterra, e o Connemara, na Irlanda, o garrano forma a mesma família de pôneis de montanha do oeste europeu: pequenos, de cabeça forte, feitos mais pelo lugar onde vivem do que por qualquer criador. O garrano é o português da família.³
Por que o lobo passou a caçar o garrano
No norte de Portugal e na Galiza ao lado, o garrano vive solto o ano inteiro, em manadas que se viram sozinhas na serra. É esse jeito de viver que o colocou no centro de uma relação rara na Europa: hoje, em boa parte da região, o garrano é a presa principal do lobo-ibérico.⁸
O lobo-ibérico, a subespécie que só existe na Península Ibérica e pesa de 25 a 40 quilos, pequeno para um lobo. É esse predador que, no norte de Portugal, tem o garrano como presa principal. Foto: Carlos Delgado / CC BY-SA 4.0 / Wikimedia Commons.
A explicação está na falta do resto. Os veados e corços que o lobo caçaria em outro lugar quase não existem por ali. As ovelhas e cabras, que por séculos deram comida ao lobo e renda ao pastor, foram sumindo à medida que o campo se esvaziava. O que sobrou solto na montanha, disponível em qualquer estação, foi o cavalo.⁹
Em algumas zonas do Minho, o cavalo chega a ser a maior parte de tudo que o lobo come. Os pesquisadores que juntaram dezenas de estudos sobre o assunto confirmaram o que os pastores já sabiam: poucos lugares no mundo têm cavalo virando comida de lobo nessa escala.⁸
Manada de garranos pastando solta em campo aberto no norte de Portugal. Vivem o ano inteiro sem cerca nem abrigo, e é essa vida ao léu que os deixa expostos ao lobo. Foto: Heigeheige / CC BY-SA 4.0 / Wikimedia Commons.
O tamanho dos dois torna a cena mais estranha ainda. O lobo-ibérico, a subespécie de lobo que só existe na Península Ibérica, é pequeno para um lobo: pesa de 25 a 40 quilos, menos que muitos cães de guarda. E mesmo assim derruba garranos adultos, caçando em alcateia e mirando os potros e as éguas.⁹
Em Portugal, a lei paga ao criador por cada animal que o lobo mata, para que ninguém saia atrás do lobo de espingarda. O sistema funciona mal, e a conta nunca fecha entre proteger o predador e manter a raça viva.⁹
Há um detalhe que resume tudo. Dentro do Parque Nacional da Peneda-Gerês, o lobo e o garrano estão protegidos pela mesma lei. O lobo, por ser bicho ameaçado. O cavalo, por ser raça em risco.⁸
Os cientistas japoneses que subiram a montanha
Foi essa vida selvagem, com lobo à espreita, que trouxe os cientistas a Portugal. Ringhofer e Inoue queriam entender uma coisa grande a partir de uma pequena: o que a vida de um cavalo livre, que precisa se defender de um predador, pode ensinar sobre como nascem as sociedades dos animais, a humana incluída. Para isso, precisavam de um lugar onde o cavalo vivesse à solta, formando manadas por conta própria, e não sob o manejo de um criador. A Serra d'Arga oferecia exatamente isso.⁶
Logo no começo, contaram 208 cavalos repartidos em 26 grupos. Esperavam encontrar ali algo parecido com a sociedade dos macacos que conheciam de perto. Não encontraram.⁶
Na serra, tudo se misturava. Alguns bandos tinham um único garanhão com suas éguas, outros tinham vários machos juntos, e os dois tipos viviam lado a lado. As éguas passavam de um bando a outro quando queriam, e cruzavam com machos de grupos diferentes. O garrano organizava a vida por uma lógica que os macacos não seguiam.⁶
Égua garrana e seu potro na Serra d'Arga, no norte de Portugal, com o resto do bando ao redor. Foi observando manadas livres como esta, dia após dia, que os pesquisadores japoneses mapearam a sociedade da raça. Foto: Equinologue / CC BY-SA 4.0 / Wikimedia Commons.
Depois vieram os drones. A partir de 2021, Tamao Maeda e seu grupo passaram a sobrevoar as manadas e a marcar a posição de cada animal visto de cima.⁷
Foi assim que enxergaram uma coisa nunca antes provada nos cavalos. As manadas do garrano funcionam em dois níveis ao mesmo tempo. No primeiro, cada cavalo pertence a um bando pequeno e fixo, que anda sempre junto. No segundo, vários desses bandos se reúnem num grupo maior, sem se desfazerem, como famílias que formam um clã. Até então, esse tipo de sociedade em dois níveis só tinha sido bem descrito em alguns macacos e nos elefantes.⁷
Em quase toda a Europa, o cavalo solto na natureza e o lobo que o caça já não dividem o mesmo terreno. Na serra portuguesa ainda dividem, e foi isso que os pesquisadores foram ver de perto: manadas que se formam sozinhas, com o predador por perto.
Do trator ao incêndio, e de volta à serra
Durante séculos, o garrano teve um trabalho claro: puxava o arado e o carro, levava carga pelos caminhos de montanha, descia às minas e servia em deslocamentos militares no norte. Era o motor pequeno e barato de uma vida de serra. No século XX, o trator chegou e tomou esse lugar. Em poucas décadas, o garrano perdeu a função que tinha há gerações.³
Sem serventia como animal de trabalho, o garrano passou a valer pela carne. Muitos foram cruzados com raças maiores para render mais no abate, e o tipo puro foi se diluindo a cada geração. Ao mesmo tempo, com o campo se esvaziando, as manadas que ficaram livres na serra sobraram mais expostas ao lobo e ao abandono. A defesa da raça começou a se organizar nos anos 1970 e ganhou forma de vez nos anos 1990, quando a criação foi finalmente reconhecida e passou a ter registro próprio.¹
A queda tinha sido brutal. João Paulo Ribeiro, que preside a associação dos criadores, conta que o garrano passou de cerca de 70 mil animais para apenas 350 éguas nos anos 1990. Desde então, voltou a passar de mil, e essa recuperação veio de usos que não existiam quando ele era cavalo de arado. O mais inesperado é ecológico.¹⁴
Garranos pastando soltos numa mata do Parque Nacional da Peneda-Gerês, no norte de Portugal, comendo o mato entre as árvores. É esse apetite por vegetação rasteira que faz da raça uma aliada contra os incêndios. Foto: Cardílio / CC BY-SA 4.0 / Wikimedia Commons.
Em projetos de rewilding, a tentativa de devolver uma região à natureza selvagem, cerca de 45 garranos foram soltos desde 2006 numa reserva chamada Faia Brava, mil hectares de terreno bravo no Vale do Côa, no interior do país. Comendo o mato rasteiro, fazem o que os ecologistas chamam de pastoreio ecológico: tiram da paisagem o material seco que vira combustível de incêndio.¹⁰
Em 2017, quando o fogo varreu boa parte do noroeste português, a Faia Brava e os arredores escaparam, em boa medida graças a esses cavalos e à vigilância constante.¹⁰ O mesmo papel se repete mais ao norte, na Serra da Cabreira. António Cardoso, prefeito de Vieira do Minho, chama os garranos de cavalos sapadores. O sapador é o soldado que vai na frente da tropa abrir caminho e limpar o terreno, e é isso que os garranos fazem na mata: comendo o mato cerrado, abrem clareiras e cortam a vegetação que alimentaria o fogo.¹⁴
O garrano não está sozinho nesse ofício novo. O Konik polonês, outro pônei primitivo de criação meio selvagem, faz nas reservas europeias o mesmo serviço: comer o mato, abrir a paisagem e tirar do caminho o que vira fogo.¹⁰
O Konik polonês, num campo da Europa central. Não é um garrano, é outra raça primitiva, de pelagem cinza-rato, que faz o mesmo trabalho de limpar a vegetação nas reservas europeias. Foto: Hans Pama / CC BY 2.0 / Wikimedia Commons.
A isso se somam outros caminhos: o turismo a cavalo pelas serras, as provas locais naquele passo curto dos romanos, o uso em família, por ser bicho pequeno e seguro, e uma candidatura a patrimônio nacional que mantém o registro e o controle de parentesco da raça. O garrano que sobrevive trocou de ofício: já não puxa carga, agora limpa a montanha contra o fogo, leva o turista e serve de modelo para a ciência.¹²
Pequeno, escuro, feito para a montanha
O garrano é um cavalo pequeno e bem-construído, com a rusticidade que a serra lhe pediu. Cada traço responde à mesma necessidade, não à estética de pista: viver solto na encosta, com pouco pasto e o frio cortante do inverno na montanha.
Altura
Em média, 130,9 cm na cernelha nos machos e 128,5 cm nas fêmeas, segundo a medição oficial da raça. O padrão admite até 1,35 m. Por essa altura, abaixo do limite que separa pônei de cavalo, é tecnicamente um pônei.²
Peso
De 300 a 350 quilos, as fêmeas perto de 300 e os machos de 350. Pouco peso para a estrutura, osso seco e músculo econômico, o que ajuda a atravessar o inverno na serra sem ninguém o alimentar.²¹³
Cabeça
Curta, de perfil reto a levemente côncavo, fronte larga e olhos vivos. É o retrato do cavalo de tipo celta descrito há mais de um século.²³
Orelhas e crina
Orelhas pequenas e direitas. Crina e cauda fartas e escuras, quase pretas, com pouco contraste em relação ao corpo.³
Pescoço e tronco
Pescoço curto e robusto, tronco compacto e encorpado, peito fundo e dorso curto. A construção de um cavalo de carga e de montanha, não de pista.²
Membros e cascos
Pernas curtas e fortes, articulações secas, cascos pequenos e muito duros, próprios de quem anda a vida inteira em pedra e encosta.²
Pelagem
Predominantemente castanha, em tons escuros, quase sempre sem marcas brancas.³
Andamento
Além do passo, trote e galope comuns, mantém o passo curto de quatro tempos que os romanos chamaram de numeratim, cômodo e seguro em terreno acidentado.²³
Temperamento
Sóbrio, independente e resistente, de pisada firme na encosta. Criado solto, é arredio de início e fica dócil depois de domado.²
Os primos foram para a América, ele ficou na serra
Para o leitor brasileiro, o garrano fica do outro lado de uma história conhecida. Os cavalos ibéricos que os colonizadores levaram para a América no século XVI deram origem ao grande tronco crioulo, e dele descendem raças nacionais como o Crioulo e o Campeiro. O garrano não é avô direto desses cavalos, mas vem da mesma família ibérica que está na raiz deles.
Campeiro em marcha nos campos de Curitibanos. O quero-quero no mourão viu isso antes de qualquer stud book existir.
Mas o que aproxima os dois não é o parentesco, e sim o que fez cada um. O Campeiro se formou sozinho, em dois séculos solto nos pinheirais do Sul, sem criador escolhendo garanhão. O garrano se formou do mesmo jeito nas serras do Minho, moldado pelo terreno, pela falta de pasto e, nos últimos tempos, pelos dentes do lobo. Nenhum dos dois foi desenhado por um haras. Foram desenhados pelo lugar onde sobraram.
Linha do tempo do garrano
Pré-históriaCavalos presentes no noroeste ibérico, no chão que abrigaria a raça. A ligação direta com a arte rupestre é tradição, não fato comprovado.³
AntiguidadeOs romanos registram o passo curto dos cavalos da região e o chamam de numeratim, "números contados".²
1911Um naturalista escocês classifica a raça como cavalo de tipo celta.²
Séc. XIX–XXO garrano sustenta a vida de montanha: arado, carga, minas e deslocamentos militares no norte de Portugal.³
Anos 1970Começa a organização da defesa da raça, em queda com a chegada do trator.¹³
1990Criadores formam um grupo dedicado à raça dentro da cooperativa agrícola de Vieira do Minho.¹
1993Aprovado o registro oficial e o padrão da raça pelo Serviço Nacional Coudélico.¹
1994Primeira identificação de animais na Serra da Cabreira: 105 cavalos dentro do padrão.¹
1995Constituída a ACERG, com sede em Vieira do Minho, e a raça é reconhecida oficialmente.¹
2006Garranos começam a ser usados na recuperação da natureza no Vale do Côa, para reduzir incêndios.¹⁰
2016Monamie Ringhofer e Sota Inoue, do instituto de Matsuzawa, montam um sítio de pesquisa na Serra d'Arga.⁶
2021Drones revelam que os garranos vivem numa sociedade em dois níveis, algo nunca antes provado em cavalos.⁷
2026Um amplo balanço de estudos confirma o cavalo de montanha solto como presa central do lobo-ibérico.⁸
Curiosidades
Garranos diante de uma telaNum cercado perto da serra, na região de Viana do Castelo, no norte de Portugal, pesquisadores treinaram garranos a usar uma tela sensível ao toque, dessas de celular, mas grande. O cavalo encostava o focinho na tela e aprendia a escolher uma forma certa entre várias, e chegou a distinguir entre si letras parecidas, como O, B, V, Z e X, ganhando comida a cada acerto. O objetivo era medir como o garrano enxerga e aprende. Escolheram a raça porque são cavalos que cresceram soltos, em manada e sob a ameaça do lobo, e não amansados desde potro como os que costumam chegar a um laboratório.¹¹
O mesmo cavalo, dois paísesA serra onde o garrano vive não para na fronteira: ela continua pela Galiza, no noroeste da Espanha, e o cavalo também. Do lado espanhol, o mesmo animal é criado com outro nome, Faco ou Cabalo Galego, e tem registro próprio, separado do português. São, na prática, dois nomes oficiais para um cavalo só, que existia ali muito antes de a fronteira ser traçada.³
Um nome que viajou com os celtasA palavra garrano vem de gearran, do mesmo fundo celta que batizou cavalos pequenos por toda a Europa atlântica. Na Escócia e na Irlanda, garron é até hoje o nome de um pônei robusto de montanha, parente distante do garrano português. O nome aparece nas duas pontas da Europa celta porque foi por ali que esses povos se espalharam, levando junto seus pôneis e as palavras para nomeá-los.³
Ficha técnica do garrano
OrigemNorte de Portugal, sobretudo Minho e Trás-os-Montes. Na Galiza, o mesmo cavalo é o Faco ou Cabalo Galego
GrupoCavalo ibérico, do grupo celta. Parente do Pottok, do Asturcón e do pônei Exmoor
AlturaEm média, 130,9 cm nos machos e 128,5 cm nas fêmeas na cernelha. Pelo tamanho é um pônei, mas em Portugal é tratado como cavalo
PesoDe 300 a 350 quilos
PeloPredominantemente escuro, em tons de castanho
AndamentoO passo curto e cômodo que os romanos chamavam de numeratim, bom em terreno acidentado
TemperamentoSóbrio, resistente, seguro de pé. Dócil depois de domado
Usos de hojePastoreio contra incêndio, turismo a cavalo, provas locais, uso em família
AssociaçãoACERG, em Vieira do Minho, que cuida do registro da raça desde os anos 1990
ConservaçãoRaça em risco, segundo a FAO. Protegida desde os anos 1970
O garrano é pônei ou cavalo?
Pelo tamanho, é um pônei: mede em média 130,9 cm na cernelha nos machos e 128,5 cm nas fêmeas, abaixo da linha que separa pônei de cavalo. Mas em Portugal ninguém o chama assim, e a palavra pônei não carrega ali o tom diminutivo que tem no Brasil. Para os portugueses, o garrano é o cavalo das montanhas dele, da família do cavalo ibérico.³
Qual a diferença entre o garrano e o Sorraia?
São raças diferentes, das duas pontas de Portugal. O garrano é um pônei do tronco celta das montanhas do norte, pequeno e de pelagem escura. O Sorraia é um cavalo primitivo das planícies do sul, mais alto, de pelagem baça com uma risca escura ao longo das costas, ligado ao tipo do tarpã ibérico. Os dois são nativos de Portugal, mas não compartilham origem nem aparência.³
Quantos garranos existem hoje?
Não há um número único fechado, mas os dados recentes mostram a raça em recuperação. Pelo livro genealógico oficial, em 2024 havia mais de 2.550 éguas registradas, cerca de 1.700 delas puras, nas mãos de aproximadamente 700 criadores. Em 2019 eram quase 2.000 éguas e 335 garanhões. É uma subida e tanto para um cavalo que nos anos 1990 tinha caído de cerca de 70 mil animais para 350 éguas.¹³ ¹⁴
Os garranos são mesmo selvagens ou têm dono?
As duas coisas convivem. A maior parte vive em liberdade na serra, em manadas que se viram sozinhas, mas tem dono: criadores que soltam os animais no monte comum e os recolhem em certas épocas, para marcar, tratar e separar. Só uma parte, em reservas naturais, é de fato selvagem, sem manejo nenhum.³
Onde dá para ver garranos selvagens em Portugal?
No norte do país. As manadas livres estão no Minho e em Trás-os-Montes, com pontos conhecidos na Serra da Cabreira, na Serra d'Arga e dentro do Parque Nacional da Peneda-Gerês. Do outro lado da fronteira, na Galiza, o mesmo cavalo aparece com o nome de Faco ou Cabalo Galego.³
O garrano serve para criança ou para quem está começando?
Depois de domado, costuma servir. É um cavalo pequeno, de pisada firme e temperamento calmo, o que o torna seguro para uso em família. Mas é um animal criado solto na montanha, não um pônei de escola: precisa ser bem manejado e domado antes, e cada um tem seu temperamento.²
Reportagem da série Faça Chuva Faça Sol sobre a raça garrana, gravada num criatório do norte de Portugal. O criador apresenta os garranos e o trabalho de campo da raça. Vídeo: Faça Chuva Faça Sol / YouTube, 2023.
Fontes
ACERG / Câmara Municipal de Vieira do Minho. Associação de Criadores de Equinos de Raça Garrana. Fundação como secção da cooperativa agrícola em 1990, regulamento do registo zootécnico aprovado em 1993 pelo Serviço Nacional Coudélico, primeira identificação na Serra da Cabreira em 1994 (105 animais), constituição da ACERG em 11 de outubro de 1995, sede em Vieira do Minho. Disponível em: cm-vminho.pt e acerg.pt.
DGAV, Direção-Geral de Alimentação e Veterinária. Garrano: Recursos Genéticos Animais / Raças Autóctones (documento GRGA). Padrão da raça, tipo celta ou galiziano segundo Bernardo Lima, passo travado designado pelos romanos como numeratim, altura abaixo de 1,35 m, dados morfológicos de reprodutores (média de 130,9 cm nos machos e 128,5 cm nas fêmeas). Disponível em: dgav.pt. PDF: Garrano_GRGA.pdf.
Wikipedia. Garrano. Síntese com referências: raça autóctone do norte de Portugal, equivalente ao Faco Galego da Galiza, etimologia gearran, classificação no tronco celta com Exmoor, Asturcón e Pottok, uso histórico. Disponível em: en.wikipedia.org/wiki/Garrano.
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Morais, J.; Oom, M.M.; Malta-Vacas, J.; Luís, C. (2005). Genetic structure of an endangered Portuguese semiferal pony breed, the Garrano. Biochemical Genetics 43: 347–364. Estrutura genética do garrano como população isolada e diferenciada.
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André Ferreira
André é o responsável atual pela condução editorial e estratégica do Multicavalos, um portal voltado ao universo equestre. Entusiasta do ramo, André dedica-se ao estudo e à observação do setor, buscando compreender suas práticas, rotinas, desafios e evoluções.