Cavalos Famosos: Phar Lap — A Morte Misteriosa do Maior Cavalo da Grande Depressão

Phar Lap venceu a Melbourne Cup de 1930 e morreu no auge em 1932, na Califórnia. O corpo foi repartido entre três museus e a causa da morte segue disputada.

Cavalos Famosos: Phar Lap — A Morte Misteriosa do Maior Cavalo da Grande Depressão
Foto: Benjamin Healley / Museums Victoria / CC BY 4.0 / via Wikimedia Commons
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Na madrugada de 5 de abril de 1932, num haras perto de Menlo Park, na Califórnia, o tratador Tommy Woodcock encontrou o cavalo em agonia, com febre alta e dores no ventre. Em poucas horas, Phar Lap sangrou até morrer, aos cinco anos, longe da Austrália que o tinha transformado em herói nacional. Tinha vencido, duas semanas antes, a corrida mais rica das Américas. O que o matou segue em disputa quase um século depois, e o próprio corpo do cavalo acabou repartido entre três museus de dois países.
37 vitóriasem 51 largadas
6,2 kgo peso do coração
3 museusguardam o corpo hoje
Phar Lap foi um Puro-Sangue Inglês castrado, nascido na Nova Zelândia e transformado em campeão na Austrália. Nasceu em 4 de outubro de 1926 no Seadown Stud, perto de Timaru, na Ilha Sul neozelandesa, filho do garanhão inglês Night Raid e da égua Entreaty. Correu com as cores do treinador Harry Telford e do empresário americano David J. Davis, e hoje é reconhecido como um dos maiores cavalos de corrida de todos os tempos, membro fundador dos halls da fama do turfe australiano e neozelandês. Depois de morto, o corpo foi dividido entre o Melbourne Museum, o Museum of New Zealand Te Papa Tongarewa e o National Museum of Australia.¹ ⁸ ¹⁰

1926: o "Lote 41" de Timaru

No catálogo do leilão anual de potros da Nova Zelândia, marcado para 24 de janeiro de 1928, o animal aparecia apenas como Lote 41. Era um potro castanho grande e desengonçado, de cara coberta de verrugas e andamento estranho, chamado pelos observadores de girafa e de patinho feio da raia. O pedigree, no entanto, trazia nomes de peso, entre eles Carbine, vencedor da Melbourne Cup de 1890. Foi esse detalhe que convenceu o treinador Harry Telford, um profissional sem grandes resultados e quase sem clientes, a insistir no cavalo.¹ ¹⁰

Sem dinheiro para comprá-lo, Telford persuadiu o empresário David J. Davis a arrematar o potro sem vê-lo, por 160 guinéus, cerca de 168 libras. Quando o animal chegou à Austrália, Davis ficou tão decepcionado que se recusou a pagar o treinamento. Para não perder um dos poucos clientes que lhe restavam, Telford propôs um acordo: treinaria o cavalo de graça, por conta própria, em troca de dois terços de qualquer prêmio, sob um arrendamento de três anos.¹ ¹⁰

O cavalo foi registrado em 3 de dezembro de 1928 com o nome Phar Lap. A ideia veio de Aubrey Ping, estudante de medicina de origem chinesa na Universidade de Sydney, que costumava assistir aos treinos em Randwick. Phar lap significa relâmpago, ou clarão do céu, em zhuang e em tailandês. Telford gostou do som, trocou o F por PH para formar uma palavra de sete letras e a dividiu em duas, seguindo o padrão dos nomes de vencedores da Melbourne Cup. Para concentrar o animal na corrida, o treinador optou por castrá-lo.¹ ¹⁰

1929: a primeira vitória e a Cup perdida por azar

Como potro de dois anos, Phar Lap correu cinco vezes e venceu apenas uma prova pequena. Chegou a se cogitar que daria um saltador melhor que um velocista. A virada veio em 27 de abril de 1929, na primeira vitória de verdade, em Rosehill, com o aprendiz de 17 anos Jack Baker na sela. Na primavera daquele ano, o cavalo emendou uma série de vitórias que incluiu os dois grandes Derbies australianos, o de Sydney e o de Melbourne.¹ ¹⁰

A Melbourne Cup de 1929 devia ser a consagração, mas Phar Lap terminou em terceiro, atrás de Nightmarch, outro filho de Night Raid. A derrota foi atribuída à inexperiência do cavalo e à troca de jóquei em cima da hora: o parceiro habitual, Jim Pike, ficou de fora. Foi uma das poucas vezes em que o azar, e não a falta de qualidade, decidiu uma prova contra ele.¹ ¹⁰

1º de novembro de 1930: os tiros e a Melbourne Cup

A partir de março de 1930, Phar Lap voltou à melhor forma e venceu todas as provas seguintes, com uma única exceção, ao longo de dois anos. A fama incomodava. Na manhã de sábado, 1º de novembro de 1930, logo depois do trabalho de pista, homens dispararam contra o cavalo de dentro de um carro. Erraram. Naquela mesma tarde, Phar Lap venceu o Melbourne Stakes.¹ ¹⁰ ¹¹

Três dias depois, em 4 de novembro, largou na Melbourne Cup como o favorito de menor cotação da história da prova, pagando cerca de oito para onze. Jim Pike voltou à sela e o cavalo carregou 63 kg. Venceu sem sustos, diante de uma nação que parava para a corrida mais tradicional do país. O animal que ninguém quisera comprar dois anos antes tinha se tornado o nome mais conhecido da Austrália.¹ ¹¹

O rádio, os SP bookies e o herói da Depressão

A ascensão de Phar Lap coincidiu com a chegada do rádio ao esporte. A partir de 1927, as corridas passaram a ser transmitidas ao vivo na Austrália, as primeiras do país a receber esse tratamento. De repente, qualquer pessoa podia acompanhar uma vitória do cavalo sem pôr os pés no hipódromo, em bares, clubes e salas de estar espalhados pelo território.¹

Em cada boteco e cada fábrica havia um SP bookie, o agenciador clandestino de apostas que pagava pela cotação de largada. Apostar dava ao público a sensação de participar. O momento não podia ser mais simbólico. O colapso da bolsa em outubro de 1929 tinha aberto a Grande Depressão, com desemprego e miséria em massa. Enquanto a crise arruinava vidas, Phar Lap batia recordes, e cada vitória virava um alívio coletivo.¹

A parceria com o jóquei Jim Pike alimentava o mito. Pike venceu 27 das 30 provas que disputou sobre o cavalo, número que fixou no jargão australiano a expressão montar como J. Pike, usada até hoje como elogio a um jóquei.¹

1931: o peso que o derrubou

Phar Lap venceu tanto que os organizadores mudaram a tabela de weight-for-age, o peso por idade, na tentativa de dar chance aos outros cavalos. Não adiantou. A única arma que sobrou contra ele foi o handicap, o sistema que impõe mais peso ao animal mais forte. Na Melbourne Cup de 1931, carregando 68 kg, o maior peso já lançado sobre ele, o cavalo terminou em oitavo, atrás do vencedor White Nose.¹ ¹⁰

Há um detalhe pouco lembrado nas duas últimas derrotas australianas. Nas duas ocasiões, Phar Lap estava doente, e Telford tinha ignorado os pedidos do tratador Tommy Woodcock para não fazê-lo correr. Woodcock era a única presença constante na vida do cavalo, e conhecia o animal melhor do que qualquer um.¹

Março de 1932: Agua Caliente, a corrida mais rica das Américas

Encerrado o arrendamento de três anos, Telford juntou dinheiro suficiente para se tornar coproprietário do cavalo. Davis decidiu levá-lo para correr na América do Norte, atrás das bolsas altas. Telford discordou e se recusou a viajar. Coube a Tommy Woodcock, o tratador, assumir a função de treinador na viagem.¹ ¹⁰

O destino era a Agua Caliente Handicap, perto de Tijuana, no México, então a corrida de maior premiação das Américas. Em 20 de março de 1932, montado pelo jóquei australiano Billy Elliot, Phar Lap venceu em tempo recorde da pista, carregando 58,5 kg. Fez isso depois de largar mal e ficar corpos atrás dos líderes, e ainda tendo aberto um casco durante a prova. Foi a sua sétima vitória em sete montarias de Elliot, e a última corrida da vida.¹ ¹⁰

5 de abril de 1932: a morte em Menlo Park

Depois de Agua Caliente, o cavalo foi levado a um haras particular perto de Menlo Park, na Califórnia, enquanto Davis negociava exibições em outras pistas. Na madrugada de 5 de abril, Woodcock encontrou o animal com dores intensas e febre alta. Em poucas horas, Phar Lap sofreu uma hemorragia e morreu nos braços do tratador.¹ ¹⁰

A autópsia feita por veterinários americanos registrou inflamação grave do estômago e dos intestinos, apontou como causa provável uma cólica ou uma infecção bacteriana e encontrou traços de arsênico no organismo. Nada disso era conclusivo. A notícia chegou à Austrália pelo rádio por volta das dez e meia da manhã de 6 de abril, e mergulhou o país em luto. Especialistas americanos culparam os tratadores australianos, sugerindo alimentação estragada ou contato com folhagem pulverizada com inseticida. Woodcock, que tinha visto de perto os métodos duvidosos do turfe americano, ficou convencido de que o cavalo fora envenenado de propósito.¹ ¹⁰

O que matou Phar Lap

Quase um século de investigação não fechou a questão. Em 2000, especialistas em medicina equina reanalisaram os dois laudos de necropsia e concluíram que a morte tinha origem provável em uma duodenitis-proximal jejunitis, uma enterite proximal aguda de fundo bacteriano. Nessa leitura, Phar Lap teria morrido de uma inflamação intestinal fulminante que, nos anos 1930, ainda não era diagnosticável.⁹ ¹⁰

Entre 2005 e 2007, uma linha de pesquisa diferente ganhou força. O pesquisador Ivan Kempson, da Universidade da Austrália do Sul, e Dermot Henry, gerente de Coleções de Ciências Naturais do Museum Victoria, analisaram seis fios da crina do cavalo em um síncrotron, em Chicago. O método permite ler no fio da crina uma linha do tempo química da exposição a toxinas, porque o pelo incorpora o que circula no sangue à medida que cresce.² ⁵

O desafio era distinguir o arsênico ingerido em vida do arsênico usado na taxidermia. Os pesquisadores compararam pelos de espécimes de museu preservados com arsênico e pelos de um porco que ingerira uma dose fatal, num projeto separado. Divulgado em 2008 e publicado em revista revisada por pares em 2010, o resultado apontou que Phar Lap ingeriu uma dose maciça de arsênico nas 30 a 40 horas finais de vida.² ⁵

O que embaralha o quadro é o contexto da época. O arsênico era ingrediente comum de tônicos para cavalos. O caderno de receitas de Harry Telford, comprado pelo Melbourne Museum em 2008, traz uma fórmula de tônico geral cujo ingrediente principal é justamente o arsênico. O veterinário Percy Sykes estimava que a substância aparecia no organismo de cerca de 90 por cento dos cavalos da época. Em 2011, uma reportagem sustentou, com apoio de um físico neozelandês e do próprio testemunho de Woodcock, que o cavalo nunca recebeu tônico com arsênico e morreu de infecção.¹ ¹⁰
O que matou Phar Lap: as duas hipóteses em abertoDe um lado, o envenenamento por arsênico, sustentado pelo exame forense de 2008 do Melbourne Museum, feito com síncrotron e publicado em revista científica em 2010, que identificou uma dose maciça nas horas finais. De outro, a infecção bacteriana aguda do intestino, apontada pela reanálise das necropsias em 2000. As duas versões vêm de fontes credíveis, e o próprio museu que preserva o cavalo defende a hipótese do arsênico, enquanto parte das fontes especializadas defende a infecção. A autópsia original de 1932 não decidiu a questão, e ela permanece sem resposta definitiva.²

A vida depois da morte: coração, esqueleto e pelica

Assim que Phar Lap morreu, houve uma disputa entre instituições pelos seus restos. A parte mais cobiçada, a pelica, coube ao National Museum of Victoria, em Melbourne. Davis contratou os irmãos Jonas, taxidermistas de Nova York, que levaram quatro meses e meio no trabalho. A pele foi montada sobre uma casca oca de estopa, papelão e gesso, apoiada numa estrutura de aço forte o bastante para suportar o peso de um adulto. O cavalo entrou em exposição em janeiro de 1933 e ali ficou por quase 70 anos, até ser transferido para o novo Melbourne Museum em 2000.¹ ³ ⁴

O esqueleto seguiu para o Dominion Museum, em Wellington, hoje Te Papa Tongarewa. Passou cerca de cinco anos guardado em caixas, sem verba para ser montado, até que uma campanha de arrecadação levantou o dinheiro. Articulado e exposto em 1938 pelo taxidermista E. H. Gibson, o esqueleto foi remontado em 2012 para imitar a pose da pelica. A prática não era inédita em Melbourne: o esqueleto de Carbine, outro campeão, já estava em exibição por lá.⁶ ⁷ ⁸

O coração foi para o Instituto de Anatomia, em Camberra, hoje incorporado ao National Museum of Australia. Pesava 6,2 kg, quase o dobro dos 3,2 kg de um coração equino comum, e é o objeto que os visitantes mais pedem para ver. O tamanho deu origem à expressão um coração do tamanho do de Phar Lap, usada na Austrália para descrever alguém corajoso ou generoso. Uma controvérsia levantada em 1979 afirma que a peça em exposição seria o coração de um cavalo de tração, já que o órgão original teria sido cortado durante a autópsia. A dúvida nunca foi encerrada.⁸ ¹⁰

As três peças estiveram juntas uma única vez. Em setembro de 2010, o Te Papa emprestou o esqueleto ao Melbourne Museum por quatro meses e meio, para marcar os 80 anos da vitória na Melbourne Cup de 1930. Pela primeira e última vez, pelica e esqueleto ficaram lado a lado.¹ ⁸

Um ícone em dois países

Phar Lap virou símbolo nacional na Austrália e na Nova Zelândia ao mesmo tempo. Aparece no teste de cidadania australiano, foi estampado num selo dos correios em 1978 e ocupa a 22ª posição na lista da revista Blood-Horse dos cem melhores cavalos de corrida do século 20 nos Estados Unidos. Ganhou estátuas de bronze em tamanho real em dois lugares: perto do local de nascimento, em Timaru, na Nova Zelândia, inaugurada em novembro de 2009, e no hipódromo de Flemington, em Melbourne.¹⁰

Um de seus apelidos era Big Red, o mesmo dado depois a dois gigantes americanos do turfe, Man o' War e Secretariat. A comparação não é gratuita: os três compartilham o lugar de cavalos que ultrapassaram o esporte e viraram fenômeno cultural em seus países, cada um em sua época.¹⁰

Linha do Tempo

1926Nasce em 4 de outubro no Seadown Stud, perto de Timaru, Nova Zelândia, filho de Night Raid e Entreaty.
1928Comprado como Lote 41 por 160 guinéus e registrado com o nome Phar Lap em 3 de dezembro.
1929Primeira vitória em abril, em Rosehill. Termina em terceiro na Melbourne Cup, atrás de Nightmarch.
1930Sobrevive a tiros dias antes e vence a Melbourne Cup como favorito de menor cotação da história da prova.
1931Termina em oitavo na Melbourne Cup carregando 68 kg, o maior peso já imposto a ele.
1932Vence a Agua Caliente Handicap, no México, em 20 de março, em tempo recorde. Morre em Menlo Park em 5 de abril.
1933A pelica taxidermizada entra em exposição no National Museum of Victoria, em Melbourne.
1938O esqueleto é articulado e exposto em Wellington, na Nova Zelândia, após campanha de arrecadação.
2008Exame com síncrotron divulgado pelo Melbourne Museum aponta dose maciça de arsênico nas horas finais.
2010Pelica e esqueleto são reunidos em Melbourne pelos 80 anos da vitória na Melbourne Cup de 1930.

Curiosidades

O nome que veio do relâmpagoO nome Phar Lap nasceu de uma conversa de bastidor de hipódromo. Aubrey Ping, estudante de medicina de origem chinesa em Sydney, sugeriu a palavra que ouvira do pai: phar lap, relâmpago ou clarão do céu em zhuang e em tailandês. Harry Telford trocou o F por PH para chegar a sete letras e dividiu o nome em duas partes, imitando o padrão dos vencedores da Melbourne Cup. Um nome de campeão foi desenhado antes de o cavalo vencer qualquer coisa.¹ ¹⁰
O caderno de tônicosEm 2008, o Melbourne Museum arrematou por 37 mil dólares australianos um caderno manuscrito de Harry Telford com receitas de tônicos dados a Phar Lap. As fórmulas incluíam arsênico, estricnina, cocaína e cafeína, substâncias correntes no turfe da época. Uma das receitas de tônico geral traz o arsênico como ingrediente principal, com a anotação de que servia para todos os cavalos. O caderno é hoje uma das peças centrais no debate sobre a morte do animal.¹⁰
O coração de dobroO coração de 6,2 kg de Phar Lap, quase o dobro do normal, virou objeto de culto no National Museum of Australia e origem de uma expressão popular sobre coragem. Mas também alimenta uma suspeita antiga. Em 1979, o cineasta Peter Luck defendeu que a peça exposta seria o coração de um cavalo de tração, já que o órgão de Phar Lap teria sido retalhado durante a necropsia. Museu e crítico nunca chegaram a um veredicto comum. ¹⁰
Um cavalo-marinho com o nome deleEm 1931, o ictiólogo Gilbert Whitley, do Australian Museum, propôs um novo gênero de cavalo-marinho e o batizou de Farlapiscis, em homenagem ao cavalo. O nome não sobreviveu na ciência: foi mais tarde reclassificado como sinônimo do gênero Hippocampus. A homenagem, no entanto, mostra o tamanho da febre nacional em torno do animal ainda em vida.¹⁰

Ficha Técnica

NomePhar Lap · apelidos Big Red, The Red Terror, Bobby
Raça e sexoPuro-Sangue Inglês, castrado (gelding)
Nascimento4 de outubro de 1926, Seadown Stud, perto de Timaru, Nova Zelândia
Morte5 de abril de 1932, Menlo Park, Califórnia, aos 5 anos
PelagemCastanho (chestnut)
Pai e mãeNight Raid (GB) e Entreaty (NZ)
CriadorAlick Roberts, Seadown Stud
TreinadorHarry Telford; Tommy Woodcock na temporada americana
ProprietáriosDavid J. Davis e Harry Telford
Jóquei principalJim Pike, 27 vitórias em 30 montarias
Cartel51 largadas, 37 vitórias, 3 segundos, 2 terceiros, 2 quartos, 7 sem colocação
Ganhos£A 66.738
Onde está hojePelica no Melbourne Museum, esqueleto no Te Papa (Wellington), coração no National Museum of Australia (Camberra)
Do que Phar Lap morreu?

A causa segue em disputa. Um exame forense divulgado em 2008 pelo Melbourne Museum, feito com síncrotron, concluiu que o cavalo ingeriu uma dose maciça de arsênico nas 30 a 40 horas finais de vida. Uma reanálise das duas necropsias, publicada em 2000, aponta para uma infecção bacteriana aguda do intestino. As duas hipóteses vêm de fontes credíveis e nunca foram conciliadas. A autópsia original, feita nos Estados Unidos em 1932, registrou apenas inflamação grave do estômago e dos intestinos e traços de arsênico, sem conclusão definitiva.² ⁹

Onde está o corpo de Phar Lap hoje?

Dividido entre três museus de dois países. A pelica taxidermizada fica no Melbourne Museum, na Austrália. O esqueleto articulado está no Museum of New Zealand Te Papa Tongarewa, em Wellington, Nova Zelândia. O coração é guardado pelo National Museum of Australia, em Camberra. Os três foram exibidos juntos uma única vez, em 2010, no aniversário de 80 anos da vitória de Phar Lap na Melbourne Cup de 1930.⁸

Por que Phar Lap era tão famoso?

Por três motivos combinados. Venceu 37 de 51 corridas em uma carreira curta, incluindo a Melbourne Cup de 1930 como favorito de menor cotação da história da prova. Fez isso no auge da Grande Depressão, quando cada vitória virava evento nacional acompanhado pelo rádio. E morreu de forma súbita e misteriosa no auge, aos cinco anos, poucos dias após vencer a corrida mais rica das Américas. A combinação de domínio esportivo, contexto histórico e morte trágica o transformou em ícone na Austrália e na Nova Zelândia.¹

Phar Lap era australiano ou neozelandês?

Nasceu na Nova Zelândia e correu na Austrália. Foi criado no Seadown Stud, perto de Timaru, na Ilha Sul neozelandesa, em 1926, e depois treinado e disputado na Austrália pelo treinador Harry Telford. Os dois países o reivindicam como ícone nacional, e a divisão dos seus restos entre museus australianos e neozelandeses reflete essa disputa afetiva. Foi um dos cinco nomes fundadores dos halls da fama do turfe da Austrália e da Nova Zelândia.¹⁰

Por que o coração de Phar Lap é famoso?

Pelo tamanho. Pesava 6,2 kg, quase o dobro do coração de um cavalo comum, que fica em torno de 3,2 kg. Guardado hoje pelo National Museum of Australia, é o objeto que os visitantes mais pedem para ver. O tamanho deu origem à expressão australiana um coração do tamanho do de Phar Lap, usada para descrever alguém corajoso ou generoso. Existe uma controvérsia antiga sobre a autenticidade da peça em exposição, levantada em 1979, que nunca foi resolvida em definitivo.⁸ ¹⁰

Phar Lap ganhou a Melbourne Cup?

Ganhou uma vez, em 1930, como o favorito de menor cotação na história da prova. Antes disso, tinha ficado em terceiro na edição de 1929, quando ainda corria com um jóquei substituto e pouca experiência. Em 1931, terminou em oitavo carregando 68 kg, o maior peso já imposto a ele pelo sistema de peso por idade. A Melbourne Cup é a corrida mais tradicional da Austrália e para o país no dia em que é disputada.¹ ¹⁰

Fontes

  1. Museums Victoria Collections. Reason, M. Phar Lap, Champion Race Horse (1926-1932). Narrativa institucional da vida do cavalo: leilão, arrendamento, nome, rádio e Depressão, Agua Caliente, morte e vida após a morte. Texto sob licença CC BY. Disponível em: collections.museumsvictoria.com.au/articles/1628.
  2. Museums Victoria Collections. Reason, M. Phar Lap Arsenic Mystery Solved. Anúncio institucional do resultado do exame forense com síncrotron, metodologia de distinção entre arsênico ingerido e de taxidermia. Texto sob licença CC BY. Disponível em: collections.museumsvictoria.com.au/articles/16421.
  3. Museums Victoria Collections. Taxidermy Mount - Phar Lap, 1932, Equus caballus. Registro do espécime da pelica taxidermizada, número C 10726. Disponível em: collections.museumsvictoria.com.au/specimens/139139.
  4. Museums Victoria Collections. The Mounting of Phar Lap's hide. Detalhes do processo de taxidermia pelos irmãos Jonas, materiais, estrutura de aço e prazo de quatro meses e meio. Disponível em: collections.museumsvictoria.com.au/articles/14229.
  5. Kempson, I. M.; Henry, D. Synchrotron Radiation Reveals Arsenic Poisoning and Metabolism in Hair: The Case of Phar Lap. Angewandte Chemie International Edition, v. 49, n. 25, p. 4237-4240, 2010. Estudo revisado por pares. DOI: 10.1002/anie.200906594. PMID: 20432493. Disponível em: doi.org/10.1002/anie.200906594.
  6. Museum of New Zealand Te Papa Tongarewa. Phar Lap (1926-1932). Registro institucional do esqueleto do cavalo, sua chegada ao Dominion Museum e articulação. Disponível em: collections.tepapa.govt.nz.
  7. White, Moira. E.H. Gibson, taxidermist, and the assembly of Phar Lap's skeleton. Tuhinga: Records of the Museum of New Zealand Te Papa Tongarewa, n. 28, p. 80-89, 2017. ISSN 1173-4337. Wikidata Q106839617. Disponível em: collections.tepapa.govt.nz/document/10573.
  8. National Museum of Australia / reCollections. Menzies, Isa. Phar Lap. Ensaio institucional sobre o coração de 6,2 kg, a divisão dos restos entre museus e o conceito de vida após a morte de espécimes. Disponível em: recollections.nma.gov.au.
  9. Armstrong, Geoff; Thompson, Peter. Phar Lap. Allen & Unwin, Melbourne, 2000. ISBN 978-1-74114-750-6. Reanálise das necropsias apontando enterite proximal aguda de fundo bacteriano como causa provável da morte.
  10. Wikipedia. Phar Lap. Síntese com cartel completo verificado (51 largadas, 37 vitórias), pedigree, cronologia das hipóteses de morte, testemunho de Percy Sykes, reportagem de 2011, estátuas, homenagens e o apelido Big Red. Consultado em julho de 2026. Disponível em: en.wikipedia.org/wiki/Phar_Lap.
  11. National Library of Australia / Trove. Shot fired at Phar Lap (3 nov. 1930) e Phar Lap wins the cup (5 nov. 1930). Registros primários de imprensa sobre o atentado e a vitória na Melbourne Cup de 1930. Disponível em: trove.nla.gov.au.
André Ferreira

André Ferreira

André Ferreira é o responsável pela direção editorial do Multicavalos. Sua área é a pesquisa: reunir a origem e a história de cada raça a partir de fontes primárias, confrontá-las quando discordam e separar o que é dado firme do que é estimativa. É um trabalho de documentação, e cada perfil do acervo passa por esse cuidado antes de ir ao ar.