Cavalos e Suas Origens: Campeiro — Duzentos Anos Sozinho nos Pinheirais

Duzentos anos nos pinheirais do Sul sem haras nem fundador. A marcha que o terreno ensinou e o homem que foi a Bauru e voltou com uma certeza.

Cavalos e Suas Origens: Campeiro — Duzentos Anos Sozinho nos Pinheirais
Campeiro em marcha nos campos de Curitibanos. O quero-quero no mourão viu isso antes de qualquer stud book existir.
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Em outubro de 1541, o explorador espanhol Álvar Núñez Cabeza de Vaca partiu da Ilha de Santa Catarina com 250 soldados e 26 cavalos, seguindo a pé e a cavalo pelo interior do continente até Assunção, no Paraguai. Alguns cavalos se perderam pelo caminho. Ninguém foi buscá-los. Por quase 200 anos, seus descendentes viveram livres nos planaltos frios cobertos de araucárias, moldados pelo terreno acidentado, pelo frio serrano e pela sobrevivência sem homem. O que sobrou disso foi o Campeiro.
1541Expedição que originou a raça
~200 anosDe seleção natural selvagem
1976Fundação da ABRACCC em Curitibanos
~2.000Animais registrados no Brasil

Cabeza de Vaca e os cavalos que ficaram para trás

Para entender o Campeiro, é preciso entender quem era Álvar Núñez Cabeza de Vaca e o que ele estava fazendo em Santa Catarina em 1541. Cabeza de Vaca era um explorador espanhol nomeado governador do Paraguai pela Coroa. Para chegar ao seu posto em Assunção, embarcou de Cádiz com cinco navios, quatrocentos soldados e quarenta e seis cavalos. Chegou à Ilha de Santa Catarina em março de 1541 com quarenta e seis animais vivos.¹

Os cavalos tinham passado meses dentro dos navios, na umidade constante do Atlântico. Os cascos, estruturas de queratina que precisam de alternância entre umidade e secura para se manterem firmes, chegaram ao Brasil amolecidos e fragilizados. Parte do plantel morreu ou ficou incapacitada na ilha antes da partida por terra. Seguir imediatamente era arriscar os animais. Mas Cabeza de Vaca tinha prazo e missão.¹

Em outubro de 1541, partiu da Ilha de Santa Catarina com 250 homens e 26 cavalos, seguindo o Caminho de Peabiru, uma rede de trilhas indígenas que atravessava o continente de leste a oeste. A rota cortava a Serra do Mar, os planaltos de Santa Catarina e do Paraná, o vale do Rio Iguaçu. Era um terreno de araucárias, pedras e frio. Alguns cavalos se perderam ao longo da jornada de cinco meses. Cabeza de Vaca chegou a Assunção em março de 1542. Os cavalos extraviados ficaram.¹

Existe debate histórico sobre exatamente quantos cavalos ficaram e se vieram todos da expedição de Cabeza de Vaca ou também de outras que percorreram a mesma rota. A própria obra "Naufrágios e Comentários", escrita por Pedro Hernández como relator da expedição e publicada em Sevilha em 1555, é a fonte primária sobre a jornada. Seu texto narra os percalços do caminho mas não registra com precisão quantos animais ficaram nos planaltos.⁸

O que as fontes registram com clareza é que, em 1728, quase 200 anos depois, Francisco de Souza e Farias abriu o Caminho dos Conventos e encontrou manadas de cavalos selvagens nos planaltos catarinenses. Três anos depois, Cristóvão Pereira de Abreu passou pelo mesmo caminho e agregou centenas de animais à sua tropa.²

Dois séculos de seleção natural nos pinheirais

O que aconteceu nos dois séculos entre a expedição de 1541 e o primeiro registro formal de 1728 é o que define o Campeiro como raça. Sem homem, sem seleção dirigida, sem cruzamentos controlados, os descendentes dos cavalos ibéricos foram moldados exclusivamente pelo ambiente.

O planalto catarinense, entre 800 e 1.200 metros de altitude, não perdoa. As araucárias crescem em pedra calcária. O inverno congela os campos. No verão, a pastagem some nas pedras. O cavalo que não se adaptava morria. Não havia veterinário, não havia suplemento, não havia fazendeiro escolhendo o melhor garanhão. Havia o terreno, e o terreno escolhia.

O único cavalo que sobrevivia e se reproduzia era o que tinha cascos resistentes para o terreno pedregoso, metabolismo eficiente para a pastagem pobre, pelagem espessa para o frio e andamento funcional para as ladeiras.²

O andamento que emergiu desse ambiente foi a marcha em quatro tempos. Num terreno acidentado, o trote projeta o cavaleiro para cima e para baixo a cada passada, exaustivo em horas de percurso. A marcha mantém pelo menos três patas no chão ao mesmo tempo, reduzindo a oscilação vertical. Não foi ensinada ao Campeiro por nenhum criador. Foi selecionada pelo terreno.³

Quando os primeiros fazendeiros chegaram a Curitibanos, no século XIX, encontraram esses animais e os chamaram de "Pelo Duro", "Peludo" ou "Marchadores". O Coronel Henrique Paes de Almeida foi um dos primeiros a selecioná-los sistematicamente. Seus filhos continuaram a criação. O neto Major Simpliciano ampliou o plantel. O bisneto Graciliano formalizou a criação a partir de 1920. E o trineto Ivadi Coninck de Almeida fundou a ABRACCC em 1976.²

Ivadi e a descoberta de que o animal não era Mangalarga

Ivadi Coninck de Almeida nasceu em 1922 em Curitibanos, Santa Catarina, e cresceu montando os cavalos marchadores que sua família criava havia gerações. Para ele e para os criadores da região, aqueles animais eram simplesmente "cavalos de marcha", sem raça definida. Ninguém havia questionado se eram ou não a mesma coisa que outras raças brasileiras.

A virada aconteceu quando Ivadi foi a uma exposição em Bauru, São Paulo, com intenção de comprar um Mangalarga. Viu os animais e percebeu que não se pareciam com os que criava em Curitibanos: porte diferente, marcha diferente, conformação diferente. Voltou para casa sem comprar nenhum animal e com uma certeza: o que ele criava era outra raça.²

Ivadi reuniu criadores amigos, entre eles Lauro Costa, Ivens Ortigari, Acir de Almeida Gaudêncio e Osny Coninck Machado. Com recursos próprios e sem apoio governamental, fundaram em 1976 a Associação Brasileira dos Criadores de Cavalo Campeiro, a ABRACCC, com sede em Curitibanos. O nome Campeiro foi escolhido por unanimidade: "um cavalo do campo para o campo", nas palavras do próprio Ivadi.²

O reconhecimento oficial pelo Ministério da Agricultura veio em 1985, após vistoria detalhada. O Herd Book foi credenciado e o Serviço de Registro Genealógico instituído. A raça existia oficialmente.⁹

Ivadi recebeu o título de Cidadão Curitibanense pelos serviços prestados à equinocultura local. Faleceu em 28 de agosto de 2019, aos 96 anos. Sua neta Gianice de Almeida Solano mantém a tradição na Fazenda Nossa Senhora do Carmo do Guarda Mor.²

O andamento que o terreno inventou

A marcha é o que mais distingue o Campeiro de outras raças. Para quem não é do mundo equestre, é preciso entender que cavalos têm andamentos diferentes. O passo é lento, em quatro tempos, com cada pata tocando o chão separadamente. O trote é médio, em dois tempos: o cavalo salta de um par diagonal de patas para o outro, e o cavaleiro sente esse impacto.

A marcha é um quarto andamento, diferente do trote, também de quatro tempos, mas com uma característica fundamental: nunca há suspensão completa no ar. Ela existe em certas raças brasileiras e em algumas raças estrangeiras de sela, e o Campeiro é um de seus representantes mais puros no Brasil.³

Na marcha, os quatro membros se movem de forma dissociada, com pelo menos três patas no chão ao mesmo tempo, o que se chama de tríplice apoio. O centro de gravidade oscila muito menos verticalmente. Para percursos longos em terreno acidentado, a diferença é enorme: horas de trote causam fadiga na coluna do cavaleiro, horas de marcha são apenas longas.³
Marcha batidaOs membros avançam predominantemente em diagonal: anterior direito com posterior esquerdo, e vice-versa. O som dos cascos no chão se aproxima em pares. É a marcha mais comum no Campeiro e cria um andamento harmonioso e seguro.³
Marcha picadaOs membros avançam predominantemente em lateral: anterior direito com posterior direito. Considerada por muitos criadores a mais cômoda para percursos muito longos.³
Marcha de centroIntermediária entre batida e picada, sem predomínio de diagonal ou lateral. Os quatro tempos têm espaçamentos aproximadamente iguais. Considerada a mais harmônica e cômoda de todas, com tríplice apoio bem definido.³

Um estudo publicado nos Arquivos Brasileiros de Medicina Veterinária avaliou 113 Campeiros: 74 apresentavam marcha completa, 36 marcha incompleta e 3 guinilha, andamento lateral extremo. Entre os de marcha completa, 40 apresentaram marcha picada, 20 batida e 14 de centro. O estudo concluiu que a conformação sozinha não determina o tipo de marcha, sugerindo componente genético e de treinamento igualmente relevantes.

Campeiro e Crioulo: raças irmãs com destinos opostos

O Campeiro e o Crioulo compartilham a mesma origem: os cavalos Andaluzes e ibéricos trazidos pelos colonizadores espanhóis no século XVI. São raças irmãs pelo sangue. Mas os 500 anos que se seguiram os levaram a destinos completamente diferentes, moldados pelos ambientes onde cada grupo de animais ficou.

O Crioulo foi para os pampas: terreno plano, pastagem abundante, trabalho intenso com gado em galope e trote. O pampa seleciona força, explosão e resistência. O Freio de Ouro, a prova de resistência mais exigente do hipismo brasileiro, exige 75 km em dois dias com cavaleiro no lombo, uma distância que poucos cavalos no mundo completam com dignidade.⁵

O Campeiro foi para os pinheirais: terreno acidentado, pedregoso, declividades abruptas, araucárias, frio seco de altitude. Esse terreno não seleciona velocidade nem explosão. Seleciona equilíbrio, cascos resistentes e andamento que não faça o cavaleiro cair da sela depois de oito horas de percurso em ladeiras. O resultado foi o Marchador das Araucárias: menor, mais leve, com marcha em vez de trote, e temperamento mais calmo que o Crioulo.²

Para quem está escolhendo entre os dois: Crioulo para provas de desempenho, trabalho intenso com gado e resistência competitiva. Campeiro para cavalgadas longas em terreno acidentado, uso familiar e cavaleiros que preferem conforto à velocidade.

Conformação e características da raça

O Campeiro é um cavalo de porte médio a pequeno, mais compacto que o Crioulo e significativamente menor que os warmbloods europeus. A conformação foi moldada pela seleção natural para funcionalidade em terreno difícil, não para estética de exposição.

AlturaMédia de 1,48 m na cernelha para machos, com variação de 1,42 a 1,54 m. Fêmeas entre 1,40 e 1,50 m. Menor que o Crioulo e muito menor que os warmbloods europeus.
PesoAproximadamente 400 kg. Animal leve para o porte, com ossos secos e musculatura eficiente. O metabolismo rústico, herdado da seleção em pastagem pobre, facilita o manejo.²
CabeçaFronte retilínea a levemente convexa, chanfro de retilíneo a levemente côncavo. Orelhas medianas e ativas. Olhos vivos. Não tem o perfil convexo pronunciado do Crioulo nem o perfil côncavo do Árabe.
PescoçoDelicado, mais comprido que a cabeça, com implantação ao tronco bem definida. Proporciona facilidade nos giros e leveza de frente, qualidade importante em terreno com curvas fechadas.
Tronco e garupaTronco forte com costelas arqueadas, garantindo estabilidade ao cavaleiro. Garupa ampla e suavemente inclinada, permitindo arranque imediato do passo para o galope quando necessário.
Membros e cascosMembros fortes e delgados, bem aprumados. Cascos com qualidade acima da média para uma raça brasileira, herdada de dois séculos de seleção em terreno pedregoso. São uma das características mais valorizadas pelos criadores.
PelagemCastanho, baio e tordilho em todas as suas variações. Pelos fino e sedoso. Pelagens pintadas e albinóides não são aceitas no stud book.
TemperamentoDócil, inteligente e cooperativo. Criadores relatam consistentemente facilidade de manejo sem exigências excessivas de cuidado. Adequado para toda a família.²

Uma raça que o Sul do Brasil quase deixou ser esquecida

Com aproximadamente 2.000 animais registrados, o Campeiro tem um dos menores plantéis entre as raças equinas reconhecidas no Brasil. Para comparação, o Mangalarga Marchador tem mais de 300.000 registros, e o Crioulo, reconhecido como símbolo do Rio Grande do Sul, tem dezenas de milhares. O Campeiro é uma raça regional que ainda não cruzou a fronteira cultural do Sul do Brasil em escala.⁵

O reconhecimento formal existe em dois níveis. O Estado do Paraná declarou o Cavalo Campeiro como patrimônio cultural e histórico. No plano federal, o Campeiro está incluído no Programa Brasileiro de Conservação de Recursos Genéticos Animais, o PBCRGA, reconhecimento oficial de que a raça é um patrimônio genético ameaçado e merece esforços específicos de conservação.⁶

A ABRACCC, com sede em Curitibanos, mantém o registro genealógico e organiza exposições. Em 2011, foram criados núcleos em Concórdia e Lages, em Santa Catarina, e em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, para expandir geograficamente a criação. A raça expõe regularmente na Expointer, em Esteio, a maior feira agropecuária da América Latina, onde é possível ver animais e contatar criadores.¹⁰
Quando um garanhão morre sem descendência, parte da história genética morre com ele

Um plantel de 2.000 animais com base genética estreita é frágil. O Campeiro é um material genético único, moldado por dois séculos de seleção natural num ambiente que não existe em nenhuma outra raça. A conservação não é sentimentalismo. É biologia.

Uma revisão publicada na Revista Ciência Animal da PUC-PR em 2018, com coautoria do Serviço de Registro Genealógico da ABRACCC, concluiu que o Campeiro é "um grupamento genético de grande valor, mas pouco lapidado".¹¹ O Nokota passou pelo mesmo processo antes de ser reconhecido como raça.

Usos e aptidões

O Campeiro é um cavalo para quem precisa de funcionalidade em terreno difícil. Suas aptidões são moldadas diretamente pelas características que dois séculos de seleção natural produziram.

Lida com gadoOito horas de ladeira, neblina, frio, o boi na frente e o cavaleiro no lombo. Esse é o uso para o qual o Campeiro foi selecionado, mesmo sem que ninguém o tivesse planejado. A marcha elimina o impacto, o casco aguenta a pedra, o temperamento não entra em pânico. É o cavalo das fazendas serranas de Santa Catarina há pelo menos três séculos.²
Cavalgadas e tropeadasA vocação máxima da raça. O Campeiro não precisa de ração especial nem de ferrageamento frequente em campo. Come o que o campo oferece, dorme ao relento e chega no outro dia pronto para continuar. É o que dois séculos de seleção sem homem produzem.²
Uso familiarO temperamento dócil e a marcha suave tornam o Campeiro adequado para cavaleiros de todos os níveis, incluindo crianças e adultos iniciantes. É um dos cavalos mais seguros para uso familiar no sul do Brasil.²
Laço compridoA agilidade e o temperamento brioso do Campeiro têm sido aproveitados em provas de laço, onde a raça vem apresentando bom desempenho apesar do porte menor.²
Atrelagem leveUso secundário mas documentado. A conformação compacta e a resistência metabólica tornam o Campeiro adequado para tração leve em pequenas propriedades.²

A linha do tempo

1541Álvar Núñez Cabeza de Vaca parte da Ilha de Santa Catarina com 250 homens e 26 cavalos em direção a Assunção. Perde 20 cavalos em Santa Catarina antes de partir. Alguns dos restantes se extraviaram pelo Caminho de Peabiru, nos planaltos de Santa Catarina e Paraná.
1541-1728Quase 200 anos de seleção natural. Os descendentes dos cavalos ibéricos extraviados vivem livres nos pinheirais do planalto catarinense, gaúcho e paranaense, sem intervenção humana documentada.
1728Francisco de Souza e Farias abre o Caminho dos Conventos e registra oficialmente a presença de manadas de cavalos selvagens nos planaltos catarinenses. Primeira documentação formal da existência da raça.
Séc. XIXSurgem as primeiras fazendas em Curitibanos. O Coronel Henrique Paes de Almeida é um dos primeiros a selecionar sistematicamente os marchadores selvagens. A tradição passa por gerações da família Almeida.
1920Graciliano Nonato de Almeida melhora e amplia formalmente a criação de cavalos marchadores da região.
1976Ivadi Coninck de Almeida funda a ABRACCC em Curitibanos com recursos próprios, após perceber que seus cavalos eram diferentes dos Mangalargas vistos em Bauru. Nome da raça escolhido por unanimidade: Campeiro.
1985Reconhecimento oficial pelo Ministério da Agricultura. Herd Book credenciado. Serviço de Registro Genealógico instituído. A raça existe formalmente.
2011Criação de núcleos regionais em Concórdia e Lages (SC) e Caxias do Sul (RS), expandindo geograficamente a associação além de Curitibanos.
2019Morte de Ivadi Coninck de Almeida, aos 96 anos. A tradição continua com a neta Gianice de Almeida Solano na Fazenda Nossa Senhora do Carmo do Guarda Mor, em Curitibanos.

Curiosidades

O nome que veio do campoOs apelidos que os primeiros fazendeiros davam aos animais selvagens eram descritivos: "Pelo Duro", "Peludo" ou "Marchadores". O nome que ficou é puramente funcional: cavalo do campo, para o campo. A ABRACCC escolheu Campeiro por unanimidade em 1976. Em tupi antigo, pikyra significa "pele tenra", que deu origem ao Piquira, a outra raça brasileira de pequeno porte, com um caminho histórico diferente.²
A araucária que deu o apelidoAraucaria angustifolia, o pinheiro-do-paraná, é a árvore símbolo de Santa Catarina e do Paraná. O apelido "Marchador das Araucárias" dado ao Campeiro identifica precisamente a região onde a raça se desenvolveu. As araucárias crescem no planalto sul-brasileiro entre 500 e 1.800 metros de altitude, o mesmo terreno que moldou o Campeiro. A árvore e o cavalo compartilham a mesma história de adaptação ao frio serrano.²
Cabeza de Vaca e as Cataratas do IguaçuA mesma expedição que deu origem indireta ao Campeiro foi a primeira a registrar as Cataratas do Iguaçu por um europeu. Cabeza de Vaca, ao percorrer o Caminho de Peabiru em direção a Assunção, cruzou o Rio Iguaçu e deixou o registro das "Cataratas de Santa Maria". Sua obra "Naufrágios e Comentários", publicada em 1555, relata a jornada entre a Ilha de Santa Catarina e o Paraguai.
O Campeiro no PampaO Cavalo Pampa, raça brasileira reconhecida pela pelagem malhada e não por uma conformação racial específica, aceita o Campeiro como uma de suas raças formadoras. Campeiros com pelagem malhada podem ser registrados como Pampa no stud book da ABCPAMPA. É um dos poucos pontos de sobreposição formal entre as raças equinas brasileiras.
Cinco gerações guardando a raçaA história de conservação do Campeiro em Curitibanos é uma história de família. O Coronel Henrique Paes de Almeida selecionou os primeiros animais no século XIX. Seu filho Major Simpliciano ampliou o plantel. O neto Graciliano formalizou a criação em 1920. O bisneto Ivadi fundou a associação em 1976. E a trineta Gianice mantém o haras até hoje. Cinco gerações da mesma família, mesma fazenda, mesmo objetivo.²

Ficha técnica

NomeCampeiro · Marchador das Araucárias
OrigemPlanaltos de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná. Descendente dos cavalos ibéricos deixados por expedições espanholas no século XVI
Stud bookABRACCC, Associação Brasileira dos Criadores de Cavalo Campeiro. Sede em Curitibanos (SC). Reconhecido pelo Ministério da Agricultura em 1985
AlturaMachos: 1,42 a 1,54 m na cernelha. Fêmeas: 1,40 a 1,50 m
PesoAproximadamente 400 kg
AndamentoMarcha em quatro tempos com tríplice apoio: batida, picada ou de centro. Sem suspensão completa no ar
PelagemCastanho, baio e tordilho em todas as variações. Pintadas e albinóides não são aceitas
TemperamentoDócil, inteligente, cooperativo. Fácil manejo. Adequado para toda a família
Usos principaisLida com gado, cavalgadas longas em terreno acidentado, uso familiar, laço comprido, atrelagem leve
Plantel registradoAproximadamente 2.000 animais. Um dos menores plantéis de raça equina reconhecida no Brasil
Status de conservaçãoIncluído no Programa Brasileiro de Conservação de Recursos Genéticos Animais (PBCRGA). Patrimônio cultural e histórico do Estado do Paraná
Raças de origemAndaluz e demais cavalos ibéricos trazidos nas expedições espanholas do século XVI
Qual a diferença entre o Campeiro e o Crioulo?

Ambos descendem dos cavalos ibéricos do século XVI, mas se desenvolveram em ambientes opostos. O Crioulo foi moldado pelos pampas planos, com foco em força e explosão no passo, trote e galope. O Campeiro foi moldado pelo planalto acidentado de Santa Catarina e desenvolveu a marcha em quatro tempos como andamento natural. Para provas de desempenho e trabalho intenso com gado: Crioulo. Para cavalgadas longas em terreno acidentado e uso familiar: Campeiro.⁵

O que é a marcha do Campeiro e por que ela é mais cômoda que o trote?

A marcha é um andamento em quatro tempos com tríplice apoio: o cavalo mantém sempre pelo menos três patas no chão, sem o salto presente no trote. No trote, o cavaleiro sente o impacto diagonal a cada passada. Na marcha, o centro de gravidade oscila pouco, e o cavaleiro viaja com estabilidade mesmo em horas de percurso. A marcha do Campeiro não foi ensinada: foi selecionada pelo terreno acidentado dos pinheirais ao longo de dois séculos.³

O Campeiro é uma raça em extinção?

Está em situação vulnerável. Com cerca de 2.000 animais registrados, tem um dos menores plantéis entre as raças equinas reconhecidas no Brasil. Está incluído no Programa Brasileiro de Conservação de Recursos Genéticos Animais, reconhecimento oficial de que a raça precisa de atenção. Não está em extinção imediata, mas a expansão do plantel é uma prioridade da ABRACCC.⁶

Por que o Campeiro se chama Marchador das Araucárias?

O apelido une as duas características mais marcantes da raça: o andamento marchado e a região de origem. As araucárias, o pinheiro símbolo de Santa Catarina e do Paraná, crescem exatamente nos planaltos onde os cavalos viveram selvagens por quase 200 anos. O apelido é geográfico e funcional ao mesmo tempo: identifica onde o cavalo nasceu e como ele anda.²

Qual a diferença entre marcha batida e marcha picada?

Na marcha batida, os membros avançam predominantemente em diagonal: anterior de um lado com posterior do lado oposto. Na marcha picada, avançam em lateral: anterior e posterior do mesmo lado. As duas mantêm o tríplice apoio e a suavidade característica. A marcha de centro é intermediária e considerada a mais harmônica. Nas exposições da ABRACCC, os animais são avaliados e classificados pelo tipo apresentado.³

O Campeiro serve para crianças e iniciantes?

Sim. O temperamento dócil e a marcha suave sem trote saltado tornam o Campeiro um dos cavalos mais adequados para cavaleiros iniciantes e para uso familiar. Criadores descrevem consistentemente a facilidade de manejo e a docilidade da raça. A altura média de 1,48 m também é menos intimidante para quem está começando do que raças maiores.²

Onde encontrar criadores e quanto custa um Campeiro?

A ABRACCC, com sede em Curitibanos (SC), é o ponto de contato principal para localizar criadores registrados. O site oficial da associação é cavalocampeiro.com. A raça expõe regularmente na Expointer, em Esteio (RS). Por se tratar de uma raça com plantel pequeno e base regional, os preços tendem a ser mais acessíveis que raças de maior circulação nacional. Não existem dados públicos consolidados de valor médio de venda.¹⁰

Fontes

  1. Wikipedia. Álvar Núñez Cabeza de Vaca. Expedição de 1541: partida de Santa Catarina com 250 homens e 26 cavalos, chegada a Assunção em março de 1542. Primeiro europeu a registrar as Cataratas do Iguaçu. Disponível em: en.wikipedia.org.
  2. CompreRural. De origem nas expedições espanholas, conheça o Cavalo Campeiro. Caminho dos Conventos em 1728, família Almeida de Curitibanos, fundação da ABRACCC em 1976, reconhecimento MAPA em 1985, depoimento de Gianice Almeida Solano. Disponível em: comprerural.com. Fonte complementar: Wikipedia Cavalo Campeiro. pt.wikipedia.org.
  3. SciELO / Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. Medidas lineares e angulares não influenciam o tipo de marcha em cavalos Campeiros. 113 Campeiros avaliados: 74 marcha completa, 36 incompleta, 3 guinilha. Marcha picada (40), batida (20), centro (14). Definição técnica da marcha, tríplice apoio e tipos. Disponível em: scielo.br.
  4. CompreRural. Campeiro ou Crioulo? Diferenças que todo amante de cavalos precisa conhecer. Comparativo completo entre as duas raças, origem ibérica compartilhada, ambientes distintos, andamentos opostos. Disponível em: comprerural.com.
  5. ABCCC. Características da Raça Crioula. Padrão racial, Freio de Ouro, plantel. Disponível em: cavalocrioulo.org.br.
  6. AICA / Universidad de Córdoba. Análise do discurso de criadores de Cavalo Campeiro no Sul do Brasil. ABRACCC criada em 1976, PBCRGA, núcleos de 2011 em Concórdia, Lages e Caxias do Sul. Disponível em: uco.es.
  7. ABCPAMPA. Padrão Racial da Raça Pampa. Campeiro listado como raça formadora aceita no stud book do Cavalo Pampa. Disponível em: abcpampa.org.br.
  8. Cabeza de Vaca, Álvar Núñez. Naufrágios e Comentários. Obra original publicada em Sevilha em 1555 por Pedro Hernández, relator da expedição. Narra a jornada de Santa Catarina ao Paraguai, incluindo as Cataratas do Iguaçu. Edição brasileira disponível pela L&PM Pocket. Disponível em: lpm.com.br.
  9. ABRACCC — Associação Brasileira dos Criadores de Cavalo Campeiro. Padrão racial e características da raça. Altura machos 1,42-1,54 m, fêmeas 1,40-1,50 m. Conformação, pelagem, andamento, aptidões. Reconhecimento pelo Ministério da Agricultura em 1985. Disponível em: cavalocampeiro.com.
  10. Revista Horse. Arquivo ABRACCC. Exposição Nacional na Expointer, 27ª Exposição em Curitibanos, núcleos regionais, depoimentos de criadores. Disponível em: revistahorse.com.br.
  11. Souza, A.F.; Fonteque, J.H.; Costa, D. Cavalo Campeiro: Passado, Presente e Futuro do Marchador das Araucárias. Revista Acadêmica Ciência Animal, PUC-PR, 2018. Revisão literária completa com aspectos históricos, formação, situação atual, perspectivas futuras e matriz SWOT da raça. Dirceu Costa é do Serviço de Registro Genealógico da ABRACCC. Disponível em: periodicos.pucpr.br. Disponível também em: researchgate.net.
André Ferreira

André Ferreira

André é o responsável atual pela condução editorial e estratégica do Multicavalos, um portal voltado ao universo equestre. Entusiasta do ramo, André dedica-se ao estudo e à observação do setor, buscando compreender suas práticas, rotinas, desafios e evoluções.