Cavalos e Suas Origens: Lusitano — Da Arena Portuguesa aos Pódios Mundiais de Equitação

O Lusitano foi separado do Andaluz pela tourada a cavalo. Em 1976, um avião cargueiro fretado no Brasil salvou as melhores linhagens de Portugal.

Cavalos e Suas Origens: Lusitano — Da Arena Portuguesa aos Pódios Mundiais de Equitação
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Em Portugal, a revolução de 1974 havia derrubado o governo, desestabilizado o campo e os cavalos das grandes coudelarias estavam sendo sacrificados. Em 1976, seis criadores brasileiros fretaram um avião cargueiro, foram a Lisboa e voltaram com os melhores garanhões que a Coudelaria Nacional portuguesa tinha.
25.000Anos de cavalos ibéricos nas cavernas de Escoural
1967Separação formal do stud book português e espanhol
11,34%Coeficiente médio de endogamia (Vicente et al., 2012)

25.000 anos na mesma península

As cavernas de Escoural, no Alentejo, têm pinturas de cavalos datadas de 17.000 a.C. Os animais representados se parecem com o Lusitano moderno. A razão é geográfica: a Península Ibérica foi o único ponto da Europa ocidental onde a última glaciação não exterminou os cavalos selvagens. Enquanto o resto do continente perdia seus equídeos ao gelo, a Ibéria os mantinha.¹

Isso significou algo concreto para a história da raça: os cavalos ibéricos se desenvolveram por milênios sem influência externa, formando um tipo distinto de todos os outros. Quando os mouros invadiram a Península em 711, trouxeram cavalos berberes do norte da África. O cruzamento entre o cavalo ibérico e o berbere produziu o que os documentos medievais chamam de "cavalo de guerra ibérico", superior a qualquer outro da época.¹

Esse animal foi o ancestral direto tanto do Lusitano quanto do Andaluz. Durante séculos, não havia distinção formal entre os dois. Cavalos criados em Portugal e cavalos criados na Espanha eram chamados indistintamente de "cavalos ibéricos" ou "cavalos espanhóis". A separação viria no século XVIII, e a razão seria uma lei sobre touradas.

A tourada que separou duas raças

No início do século XVIII, o rei Filipe V da Espanha proibiu a tourada a cavalo no território espanhol. A decisão foi política e estética — as touradas de a pé, com toureiros a pé enfrentando o touro, estavam em ascensão e o rei as preferia. A tourada a cavalo, que exigia cavalos treinados para trabalhar a curta distância de um touro enfurecido, foi gradualmente abandonada.²

Em Portugal, a tourada a cavalo não foi proibida. Continua até hoje. Três séculos de seleção para critérios diferentes produziram dois cavalos visivelmente distintos.²

Com a tourada proibida, os criadores espanhóis passaram a selecionar seus cavalos para outros critérios: paradas nas feiras, carruagens de corte, apresentações de alta escola com passadas elevadas e exuberantes. A beleza substituiu a função. O árabe foi introduzido extensivamente nos plantéis espanhóis no século XIX para refinar o tipo.²

Os criadores portugueses continuaram selecionando para a arena. Um cavalo de tourada precisa de coisas específicas: galope equilibrado com mudanças de direção bruscas, capacidade de parar em frações de segundo, coragem para trabalhar próximo ao touro, e um galope de três tempos cadenciado que permita ao cavaleiro se posicionar com precisão. Beleza é consequência, não critério.²

O resultado, três séculos depois, são dois cavalos visivelmente distintos. O PRE espanhol tem trote mais elevado e exuberante, perfil menos convexo, garupa mais horizontal. O Lusitano tem galope mais potente e coletado, perfil mais convexo, garupa mais inclinada e cauda inserida mais baixa, fruto da seleção para a arena.¹ ²

1967: o momento em que Portugal disse "não somos espanhóis"

Por séculos, a Espanha tratou os cavalos ibéricos como "cavalos espanhóis", independentemente de serem criados em Portugal. Quando a Espanha formalizou o nome Pura Raza Española para seu registro, os criadores portugueses recusaram a denominação. Eles criavam cavalos portugueses, com critérios portugueses, para usos portugueses.²

Em 1967, a Associação Portuguesa de Criadores de Raças Selectas criou um stud book exclusivo para o cavalo português. O nome escolhido foi Lusitano, derivado de Lusitânia, a província romana que correspondia ao território do atual Portugal. Era uma afirmação de identidade tanto quanto uma decisão zootécnica.³

A separação formal foi completada em 1989, quando a APSL, a Associação Portuguesa de Criadores do Cavalo Puro Sangue Lusitano, foi fundada com autorização do Ministério da Agricultura português. O stud book foi fechado: a partir de então, apenas potros com pai e mãe registrados e aprovados poderiam ser inscritos como Puro Sangue Lusitano, o PSL.³

O stud book português é único e global. Isso significa que qualquer Lusitano nascido em qualquer país do mundo tem seu registro gerido pela APSL em Portugal, a "terra natal da raça". Um Lusitano nascido no Brasil, nos Estados Unidos ou na Austrália é registrado pelas associações locais, mas segundo as normas e com supervisão da APSL.³

As quatro famílias que definem a raça

O stud book do Lusitano reconhece seis cavalos fundadores, cinco garanhões e uma égua, que formam a base das três linhagens principais: Andrade, Veiga e Coudelaria Nacional. Uma quarta família, o Alter Real, é uma sublinhagem criada exclusivamente no Coudelaria de Alter do Chão.¹

Cada linhagem tem características próprias dentro do padrão da raça.

AndradeA linhagem fundada por Dr. Ruy d'Andrade em 1894. A família Andrade ganhou mais campeonatos de criação desde o fim do século passado do que qualquer outro haras. Cavalos mais homogêneos e com conformação particularmente equilibrada.
VeigaA linhagem que resistiu por quatro gerações a modas e influências externas. Os Veiga são conhecidos por bravura, sensibilidade e agilidade, qualidades selecionadas especificamente para a tourada. A família Veiga foi fundamental para a preservação do tipo mais puro durante os períodos de maior pressão para cruzar com outras raças.
Coudelaria NacionalO haras estatal português, em Alter do Chão. Mantém as linhagens mais documentadas e foi a fonte dos garanhões que vieram para o Brasil em 1976. Iprés, Fenício e Hiparco saíram daqui no avião cargueiro.
Alter RealSublinhagem criada pelo rei D. João V em 1748, com éguas trazidas diretamente da Espanha. Cavalos sempre baios escuros, com perfil mais reto que o Lusitano típico. Passaram por crises severas — invasão napoleônica, cruzamentos com Árabes no século XIX — e foram recuperados no século XX. Todos os Alter Real são Lusitanos, mas a sublinhagem tem características visuais próprias.¹

Um estudo de pedigree com 53.411 animais nascidos entre 1824 e 2009 calculou o coeficiente médio de endogamia do Lusitano em 11,34% e o tamanho efetivo da população em apenas 28 indivíduos, valor muito baixo para uma raça com esse número de animais registrados. A concentração em poucas linhagens históricas é o principal fator.

A Revolução dos Cravos e o avião cargueiro

Em 25 de abril de 1974, um golpe militar derrubou a ditadura portuguesa. A Revolução dos Cravos iniciou um período de convulsão política que durou meses. Quintas e coudelarias foram ocupadas. Cavalos foram vendidos como animais de trabalho, sacrificados ou simplesmente abandonados.

Dentro de Portugal, um grupo de criadores reagiu com urgência. Fernando d'Andrade, presidente do stud book na época, reuniu Manuel Veiga, Fernando Palha, António José Teixeira, António Alcobia, Manuel Coimbra e Telles de Carvalho. O grupo levou éguas para a Ilha de Monte Farinha, uma ilha no meio do Rio Tejo antes de entrar no Atlântico, para salvá-las das ocupações. A ilha funcionava como refúgio temporário enquanto a situação política se resolvia.²

Simultaneamente, José Monteiro, diretor da Coudelaria Nacional, tomou uma decisão que mudaria a história da raça no hemisfério sul. Em vez de assistir ao plantel se dispersar, ofereceu aos criadores brasileiros a oportunidade de adquirir o que havia de melhor em Portugal para que a seleção tivesse continuidade fora do país em colapso.⁵

Em 1976, Toni Pereira, Enio Monte, Asdrúbal do Nascimento Queiroz, Abel Pinho Maia Sobrinho, João Alfredo de Castilho e José Pinho Maia fretaram um avião cargueiro da empresa Entre Rios e trouxeram ao Brasil tudo o que cabia. A bordo: os garanhões Iprés, Fenício e Hiparco da Coudelaria Nacional, Herói da coudelaria Ortigão Costa, e as éguas Havana, Ira, Navarra e Garbosa da coudelaria Ervideira, além de Kalifa e Marinheira da coudelaria Infante da Câmara.⁵

Esse plantel formou a base do que o Brasil se tornaria: um dos maiores e melhores plantéis de Lusitano do mundo fora de Portugal.
O Brasil como reserva genética da raça

Um estudo de pedigree publicado no Journal of Equine Veterinary Science por Faria et al. em 2018, com 18.922 animais registrados no Brasil, concluiu que o plantel brasileiro apresenta baixo nível de endogamia em relação ao plantel português — resultado direto da importação de 1976 e dos cruzamentos realizados desde então com diversidade de linhagens.

A situação se inverteu em 50 anos. O Brasil, que recebeu cavalos de Portugal para salvar a raça, hoje exporta material genético de volta para a Europa. O Lusitano que saiu do avião cargueiro em 1976 voltou ao Velho Mundo como sêmen congelado de garanhões brasileiros de excelência.

O Lusitano e o Brasil: de Sublime ao avião de 1976

A relação entre o Lusitano e o Brasil começa antes da revolução. Os primeiros cavalos ibéricos chegaram ao Brasil com os colonizadores em 1541. Em 1808, a Família Real portuguesa fugiu de Napoleão e se instalou no Rio de Janeiro, trazendo seus cavalos de corte.

Em 1821, um evento específico conectou o sangue ibérico às raças mais populares do Brasil hoje. O garanhão Sublime, pertencente à Casa Real e descrito nas fontes como cavalo de linhagem ibérica com sangue Lusitano e Alter Real, foi cedido ao fazendeiro mineiro Gabriel Francisco Junqueira, o Barão de Alfenas. Os descendentes de Sublime cruzados com éguas locais formaram a base do que viria a ser o Mangalarga e, posteriormente, o Campolina.⁵

O Mangalarga Marchador e o Campolina, dois dos cavalos mais populares do Brasil, têm sangue ibérico português na origem, via garanhão Sublime.

A ABPSL, a Associação Brasileira de Criadores do Cavalo Puro Sangue Lusitano, foi fundada em 1º de dezembro de 1975, antes mesmo do avião de 1976, com o objetivo de manter o stud book e fomentar a criação. O Brasil é hoje o maior plantel de Lusitano fora de Portugal, com aproximadamente 12.000 animais, concentrados principalmente em São Paulo.⁵

Conformação e o que distingue o Lusitano

O Lusitano é um cavalo compacto e musculoso, com conformação que reflete séculos de seleção para trabalho funcional. O trote é menos expansivo que o dos warmbloods europeus e o conjunto é mais denso que o do Árabe. Os criadores portugueses descrevem essa combinação de proporções e movimentos com a palavra "presença".

Altura1,55 a 1,65 m na cernelha. Garanhões tendem a ser maiores. O padrão da APSL não fixa altura mínima, avalia a harmonia do conjunto.¹
Peso450 a 550 kg. Garanhões no topo do intervalo, éguas na base. Metabolismo eficiente, com tendência a manter peso com boa alimentação.
CabeçaPerfil convexo, mais pronunciado que no Andaluz. Chanfro arqueado, narinas grandes e expressivas, olhos vivos. A convexidade é a marca mais imediata que separa o Lusitano do PRE ao olhar de um especialista.¹
Pescoço e corpoPescoço arqueado e bem inserido, peito amplo, dorso curto e forte. A cernelha é menos pronunciada que nos warmbloods europeus. Garupa musculosa e inclinada, cauda inserida baixa — resultado direto da seleção para tourada.¹
MembrosSecos e fortes, cascos bem formados e resistentes. Crina e cauda espessas e longas, sem excesso de pelos nas patas.¹
PelagemTodas as cores sólidas são aceitas. Tordilho, baio e castanho são as mais comuns. Preto existe mas é raro. Branco puro não é aceito. Os Alter Real são sempre baios escuros.¹
TemperamentoInteligente, corajoso e cooperativo. Responde mal a manejo por força. Forma vínculos fortes com o cavaleiro e tem memória longa. Adequado para cavaleiros experientes e intermediários.

Saúde: a EDM e o que todo proprietário precisa saber

O Lusitano tem dois problemas de saúde que merecem atenção específica de criadores e compradores.
EDM: Degeneração Mieloencefálica Equina

A EDM é uma condição neurológica progressiva que afeta a medula espinhal e o tronco encefálico. Cavalos afetados apresentam ataxia, ou seja, incoordenação progressiva dos membros, que piora com o tempo. Não tem cura. O diagnóstico definitivo é post-mortem, por biopsia da medula. Em cavalos vivos, o diagnóstico é clínico, por exclusão de outras causas de ataxia.

Um estudo publicado no Journal of Veterinary Internal Medicine por Finno et al. identificou dois garanhões fundadores responsáveis pela disseminação da EDM na raça. A condição tem componente genético relevante no Lusitano. A suplementação com vitamina E pode retardar a progressão em casos leves, mas não reverte o dano neurológico. Antes de comprar um Lusitano, verificar o histórico da linhagem para EDM e pedir exame neurológico ao veterinário são precauções que nenhum criador responsável dispensa.

OCD: osteocondrose dissecanteA OCD é uma perturbação no desenvolvimento da cartilagem articular que pode causar fragmentos ósseos intra-articulares e claudicação. Estudos com Lusitanos identificaram prevalência relevante nas articulações do boleto e do jarrete. O Lusitano não é a raça mais afetada por OCD entre os cavalos de esporte, mas a condição existe e justifica exame radiográfico de quatro membros antes de qualquer compra de animal jovem.

O Lusitano no esporte moderno

O domínio do Lusitano está na equitação de trabalho, disciplina que é, essencialmente, a tourada a cavalo transformada em esporte de competição. Os movimentos exigidos, paradas abruptas, giros rápidos, galopes coletados com mudanças de direção precisas, são exatamente os que a tourada selecionou por trezentos anos.¹

Em 2022, João Victor Oliva e o garanhão Rubi AR conquistaram o título de Campeão Mundial de Equitação de Trabalho. O Brasil, com seu plantel construído a partir do avião de 1976, está hoje entre os países mais competitivos nessa disciplina.⁵

No adestramento FEI, o Lusitano compete mas não domina. A raça tem ação elevada natural e facilidade para os movimentos de alta escola, como piaffé e passagem, que são critérios importantes no Grand Prix de dressage. Mas o trote expansivo e cobrador que os warmbloods europeus como o Hanoveriano exibem é difícil de igualar sem comprometer a coleção que é o ponto forte do Lusitano.¹

Na condução esportiva, o Lusitano tem resultados históricos. Em 1995, Felix Brasseur venceu a Copa do Mundo FEI de atrelagem a quatro com uma equipe inteiramente composta por Lusitanos. Em 2006, voltou a ganhar o ouro nos Jogos Mundiais Equestres com a mesma composição.¹

O Lusitano é raça irmã do Andaluz e compartilha origens com o Árabe, que contribuiu com sangue berbere na formação do cavalo ibérico medieval. Seu contraponto no esporte moderno é o Lipizzaner: as duas raças preservaram a equitação clássica ibérica quando o resto da Europa corria atrás do PSI e dos warmbloods.

A linha do tempo

17000 a.C.Pinturas de cavalos nas cavernas de Escoural, no Alentejo. Os animais representados se parecem com o Lusitano moderno. A Ibéria foi o único ponto da Europa ocidental onde cavalos sobreviveram à última glaciação.
711Invasão mourisca da Península Ibérica. Cavalos berberes do norte da África são cruzados com os ibéricos nativos, produzindo o cavalo de guerra ibérico.
Séc. XVI-XVIIO cavalo ibérico é o mais valorizado da Europa. Carlos V, Filipe II e outros reis o usam como símbolo de poder e instrumento de diplomacia.
Início séc. XVIIIFilipe V proíbe a tourada a cavalo na Espanha. Portugal mantém a tradição. A seleção começa a divergir: Espanha seleciona para estética, Portugal seleciona para função.
1748D. João V funda o Coudelaria de Alter do Chão com éguas da Espanha. Nasce a sublinhagem Alter Real.
1808Família Real portuguesa foge de Napoleão e se instala no Rio de Janeiro. Cavalos ibéricos chegam ao Brasil com a corte.
1821Garanhão Sublime, de linhagem ibérica portuguesa, é cedido ao Barão de Alfenas em Minas Gerais. Seus descendentes formarão a base do Mangalarga e do Campolina.
1894Dr. Ruy d'Andrade funda a linhagem Andrade, com éguas de criadores espanhóis. A linhagem tornará-se a mais premiada em campeonatos de criação.
1967Criação do primeiro stud book exclusivo para o cavalo português. O nome Lusitano é adotado, derivado de Lusitânia, a província romana.
1974-1975Revolução dos Cravos em Portugal. Quintas ocupadas, cavalos sacrificados. Criadores levam éguas para a Ilha de Monte Farinha para salvá-las. ABPSL é fundada no Brasil em dezembro de 1975.
1976Avião cargueiro fretado pela empresa Entre Rios traz ao Brasil os garanhões Iprés, Fenício e Hiparco e éguas das melhores coudelarias portuguesas. O plantel brasileiro começa.
1989APSL fundada e stud book fechado oficialmente. A partir daí, apenas filhos de PSL registrados e aprovados podem ser inscritos como Lusitano.
1995-2006Felix Brasseur vence Copa do Mundo FEI de atrelagem a quatro em 1995 e ouro nos Jogos Mundiais Equestres em 2006, ambas as vezes com equipes inteiramente compostas por Lusitanos.
2022João Victor Oliva e Rubi AR conquistam o título de Campeão Mundial de Equitação de Trabalho. Brasil confirmado como referência mundial na disciplina em que o Lusitano domina.

Curiosidades

A ilha no TejoDurante a Revolução dos Cravos, com quintas sendo ocupadas e cavalos sacrificados, Fernando d'Andrade, presidente do stud book, liderou um grupo de criadores que levou éguas para a Ilha de Monte Farinha, uma ilha no meio do Rio Tejo antes de entrar no Atlântico. Arsenio Raposo Cordeiro, Manuel Veiga, Fernando Palha e outros estiveram nessa operação, usando a ilha como refúgio temporário enquanto a situação política se resolvia.²
O tamanho efetivo de 28O estudo de Vicente et al. (2012) com 53.411 Lusitanos calculou o tamanho efetivo da população em apenas 28 indivíduos. Esse número, tecnicamente chamado de Ne, indica quantos indivíduos reprodutores independentes seriam necessários para produzir a mesma diversidade genética observada. Um Ne de 28 para uma raça com dezenas de milhares de animais indica concentração genética severa em poucas linhagens históricas. A FAO considera Ne abaixo de 50 como sinal de alerta para conservação.
Novilheiro: o garanhão que mudou o dressage ibéricoNovilheiro, nascido em 1969, foi o garanhão Lusitano mais influente do século XX no adestramento. Com o cavaleiro português Joaquim Gonçalves, estabeleceu que o Lusitano podia competir em alto nível internacional, não apenas nas arenas de tourada. Foi o primeiro Lusitano a vencer em competições internacionais de dressage fora de Portugal. Seu pedigree combina linhagens Andrade e Veiga. É citado nos stud books como um dos garanhões de maior influência na conformação moderna da raça.¹
O Lusitano que o Lipizzaner admiraA Escola Espanhola de Equitação de Viena, que treina Lipizzaners nos movimentos de alta escola, tem seus métodos baseados na equitação ibérica clássica. Os "airs above the ground", que o Lipizzaner ficou famoso por executar, foram desenvolvidos na tradição de equitação portuguesa e espanhola do século XVI. O Lusitano e o Lipizzaner compartilham um ancestral de método, embora não compartilhem sangue.¹
A tourada que não mataA tourada a cavalo portuguesa, o toureio à portuguesa, é diferente da tourada espanhola em um aspecto fundamental: o touro não é morto na arena. É considerado desonra para o cavaleiro se o cavalo for tocado pelo touro. O cavalo de tourada português precisa de equilíbrio, coragem e velocidade de reação em distâncias muito curtas do touro. Trezentos anos de seleção para essa função produziram um galope mais coletado e potente e um temperamento mais corajoso do que o PRE espanhol, selecionado para apresentações de alta escola e carruagem após a proibição de Filipe V.¹ ²

Ficha técnica

NomeLusitano · Puro Sangue Lusitano (PSL) · Cavalo Lusitano
OrigemPortugal, regiões de Ribatejo e Alentejo. Descende do cavalo ibérico pré-histórico, cruzado com berberes mouros a partir do século VIII
Stud bookAPSL — Associação Portuguesa de Criadores do Cavalo Puro Sangue Lusitano. Fundada em 1989, autorizada pelo Ministério da Agricultura de Portugal. Stud book único e global
No BrasilABPSL — Associação Brasileira de Criadores do Cavalo Puro Sangue Lusitano. Fundada em 1975. ~12.000 animais, maior plantel fora de Portugal
Linhagens principaisAndrade, Veiga, Coudelaria Nacional e Alter Real. Seis cavalos fundadores reconhecidos pelo stud book
Altura1,55 a 1,65 m na cernelha
Peso450 a 550 kg
PelagemTodas as cores sólidas. Tordilho, baio e castanho mais comuns. Branco puro não aceito. Alter Real sempre baio escuro
Usos principaisEquitação de trabalho, adestramento, tourada a cavalo, alta escola clássica, condução esportiva
Saúde específicaEDM (Degeneração Mieloencefálica Equina): condição neurológica com componente genético identificado. OCD: presente na raça, exame radiográfico recomendado
EndogamiaCoeficiente médio de 11,34%. Tamanho efetivo da população (Ne) de 28, abaixo do limiar FAO de alerta (Vicente et al., 2012)
Raças derivadas no BrasilMangalarga e Campolina têm sangue ibérico português na base, via garanhão Sublime (1821)
Qual a diferença entre Lusitano e Andaluz?

São raças irmãs com origem comum no cavalo ibérico. A separação começou no início do século XVIII quando Filipe V proibiu a tourada a cavalo na Espanha — Portugal manteve a tradição e continuou selecionando para função. Morfologicamente, o Lusitano tem perfil mais convexo, garupa mais inclinada e cauda inserida mais baixa. Um cruzamento entre os dois não pode ser registrado como nenhuma das raças.¹ ²

O Lusitano é a mesma coisa que o Alter Real?

Não. O Alter Real é uma sublinhagem do Lusitano, criada no Coudelaria de Alter do Chão desde 1748. Todos os Alter Real são Lusitanos, mas nem todo Lusitano é Alter Real. Os Alter Real são sempre baios escuros e têm perfil mais reto que o Lusitano típico.¹

O Lusitano serve para adestramento olímpico?

Sim, com resultados documentados. Para o adestramento olímpico FEI de alto nível, compete mas não domina frente aos warmbloods europeus. Sua vantagem está nos movimentos de alta escola e na coleção. Na equitação de trabalho, a disciplina que emerge da tourada a cavalo, é a raça dominante: João Victor Oliva e Rubi AR conquistaram o título mundial em 2022.¹ ⁵

O Lusitano deu origem ao Mangalarga e ao Campolina?

Indiretamente, sim. Em 1821, o garanhão ibérico Sublime, de linhagem portuguesa, foi cedido a um fazendeiro mineiro. Seus descendentes cruzados com éguas locais formaram a base do que viria a ser o Mangalarga e, posteriormente, o Campolina. Dois dos cavalos mais populares do Brasil têm sangue ibérico português na origem.⁵

O que é a EDM e por que afeta o Lusitano?

A EDM é uma condição neurológica progressiva que afeta a medula espinhal. Cavalos afetados apresentam incoordenação crescente dos membros. Não tem cura e o diagnóstico definitivo é post-mortem. No Lusitano, dois garanhões fundadores foram responsáveis pela disseminação da condição na raça. Verificar o histórico da linhagem e pedir exame neurológico antes da compra é uma precaução indispensável.⁹

Qual o preço de um Lusitano no Brasil?

No leilão Genética de Campeões de agosto de 2024, a cotação média foi de R$ 54.470 por animal, com o garanhão Preferido JMR arrematado por R$ 219.600. Cavalos adultos montados de coudelarias estabelecidas partem de US$ 10.000. Animais exportados para os EUA saem a pelo menos US$ 20.000, segundo o presidente da ABPSL — entre 80 e 150 cavalos são exportados anualmente. Potros sem treinamento ficam abaixo desses valores; garanhões com linhagens históricas como Veiga ou Andrade ultrapassam R$ 200.000 com frequência.¹²

Por que o Brasil tem hoje um dos melhores plantéis de Lusitano do mundo?

Por causa do avião cargueiro de 1976. No auge da Revolução dos Cravos, José Monteiro, diretor da Coudelaria Nacional, ofereceu aos criadores brasileiros o melhor do plantel português. Seis criadores fretaram um avião e trouxeram garanhões e éguas das melhores coudelarias. O plantel brasileiro, com baixo nível de endogamia, passou a exportar material genético de volta para a Europa 50 anos depois.⁵ ⁷

Fontes

  1. Wikipedia. Lusitano. História completa, seis garanhões fundadores, linhagens Andrade/Veiga/Coudelaria Nacional/Alter Real, usos, conformação, resultados esportivos, APSL. Consultado em abril de 2026. Disponível em: en.wikipedia.org/wiki/Lusitano.
  2. USLA — US Lusitano Association. History of the Lusitano. Proibição da tourada por Filipe V, divergência de seleção Portugal/Espanha, Ilha de Monte Farinha, Fernando d'Andrade e criadores que salvaram o plantel durante a Revolução dos Cravos. Disponível em: uslusitano.org.
  3. APSL — Associação Portuguesa de Criadores do Cavalo Puro Sangue Lusitano. About APSL. Fundação em 1989, stud book único e mundial, autorização do Ministério da Agricultura, plano de melhoramento da raça. Disponível em: cavalo-lusitano.com.
  4. Lusitano Horse Finder. Lusitano Bloodlines. Linhagem Veiga (fundada em 1894 por Dr. Ruy d'Andrade), características de cada linhagem, Alter Real State Stud fundado em 1748. Disponível em: lusitanohorsefinder.com.
  5. ABPSL — Associação Brasileira de Criadores do Cavalo Puro Sangue Lusitano. Histórico. Avião cargueiro de 1976, nomes dos garanhões e éguas importados, garanhão Sublime e origem do Mangalarga, fundação da ABPSL em 1975, ~12.000 animais no Brasil. Disponível em: associacaolusitano.com.br. Fonte complementar: Coudelaria Ilha Verde. O Lusitano no Brasil. Disponível em: cavalolusitano.com.br.
  6. Vicente, A.A. et al. Genetic diversity in the Lusitano horse breed assessed by pedigree analysis. Livestock Science, v.148, 2012. 53.411 animais, 1824-2009. Coeficiente de endogamia médio: 11,34%. Tamanho efetivo da população: 28. DOI: 10.1016/j.livsci.2012.05.002.
  7. Faria, R.A.S. et al. Genetic diversity of Lusitano Horse in Brazil using pedigree information. Journal of Equine Veterinary Science, v.69, 2018. 18.922 animais. Baixo nível de endogamia no Brasil. Brasil como mercado exportador de material genético. DOI: 10.1016/j.jevs.2018.07.009.
  8. Mad Barn. Lusitano Horse Breed Guide: Characteristics, Health & Nutrition. Conformação, peso, temperamento, OCD, metabolismo, longevidade. 11 referências científicas. Disponível em: madbarn.com.
  9. Finno, C.J. et al. Equine Degenerative Myeloencephalopathy in a Family of Lusitano Horses. Journal of Veterinary Internal Medicine, v.25, n.5, 2011. 15 cavalos afetados, 2 garanhões fundadores identificados, diagnóstico, progressão e manejo. PubMed: PMID 21848985.
  10. Cozzi, M.C. et al. Genetic variability of the Lusitano horse breed. Animals (MDPI), v.12, n.1, art.98, jan. 2022. 384 cavalos, 1975-2019. PMC: PMC8749805. DOI: 10.3390/ani12010098.
  11. Gonçalves, A.R. et al. Impact of inbreeding and genetic parameter estimates for seminal traits in Lusitano horses. Theriogenology, v.208, pp.43-51, set. 2023. DOI: 10.1016/j.theriogenology.2023.05.011. PubMed: PMID 37295289.
  12. CompreRural. Conheça o cavalo Lusitano arrematado por mais de R$ 200 mil. Leilão Genética de Campeões, agosto de 2024. Cotação média R$ 54.470, pico R$ 219.600 (garanhão Preferido JMR). Disponível em: comprerural.com. Fonte complementar: Interagro Lusitanos. Quanto custa um Lusitano? Cavalos montados a partir de US$ 10.000. Disponível em: interagro.com.br. Fonte complementar: EQUISPORT. Brasil exporta entre 80 a 150 cavalos Lusitanos por ano. Preço mínimo de exportação US$ 20.000, declaração do presidente da ABPSL. Disponível em: equisport.pt.
André Ferreira

André Ferreira

André é o responsável atual pela condução editorial e estratégica do Multicavalos, um portal voltado ao universo equestre. Entusiasta do ramo, André dedica-se ao estudo e à observação do setor, buscando compreender suas práticas, rotinas, desafios e evoluções.