Cavalos e Suas Origens: Lipizzaner — A Raça que Saiu de um Haras Esloveno e Sobreviveu a Napoleão, às Duas Guerras e aos Nazistas

O Lipizzaner nasceu em 1580 e quase desapareceu quatro vezes. Operação Cowboy, seis garanhões fundadores e 445 anos de criação fechada.

Cavalos e Suas Origens: Lipizzaner — A Raça que Saiu de um Haras Esloveno e Sobreviveu a Napoleão, às Duas Guerras e aos Nazistas
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Em 28 de abril de 1945, a poucos dias do fim da Segunda Guerra Mundial, o Coronel Charles Reed do Exército americano soube que os cavalos mais raros da Europa estavam a 56 quilômetros de distância, do lado errado das linhas. O Exército soviético se aproximava. Reed tinha ordens para outra missão. Decidiu ignorar as ordens.
1580Fundação do haras de Lipica, Eslovênia
6Garanhões fundadores de todas as linhagens modernas
+11 milLipizzaners registrados em 19 países
2022Patrimônio imaterial da humanidade (UNESCO)

Um haras num planalto de pedra calcária

Em 1580, o Arquiduque Carlos II da Áustria Interior, irmão do imperador Maximiliano II que governava o Sacro Império Romano-Germânico, a confederação de estados que dominava a Europa central, precisava de cavalos para sua corte em Graz. Queria animais com o sangue espanhol que os Habsburgos já haviam introduzido em Kladrub anos antes. Em vez de continuar dependendo de importações da Espanha, fundou seu próprio haras.¹

O local escolhido foi perto da aldeia de Lipica, no planalto do Carso, região de calcário árido no extremo sudoeste do que hoje é a Eslovênia. O nome Lipica, em esloveno, significa "pequena tília". O terreno era difícil, a vegetação escassa, o clima severo. Exatamente por isso, os cavalos criados ali desenvolveram rusticidade e eficiência metabólica que se tornaram marcas da raça.²

O mesmo princípio formou o Haflinger, criado nos Alpes austríacos da mesma época: terreno adverso seleciona resistência.

No primeiro ano chegaram 9 garanhões e 24 éguas importados da Espanha. Nos anos seguintes, foram adicionados animais de Nápoles, no sul da Itália, e mais tarde sangue árabe. O resultado dessa mistura de sangue espanhol, napolitano e árabe, criado por gerações no isolamento do Carso, é o que hoje chamamos de Lipizzaner.

Os mesmos cavalos ibéricos que chegaram a Lipica em 1580 cruzaram o Atlântico com a colonização espanhola e portuguesa e estão na origem do Crioulo sul-americano. O mesmo tronco, destinos opostos: a alta escola de Viena e os pampas gaúchos.¹ ²

O haras de Lipica é o mais antigo do mundo em operação contínua. Funciona ininterruptamente desde 1580, sobreviveu a Napoleão, a duas guerras mundiais e à dissolução de três impérios. Hoje abriga cerca de 300 Lipizzaners em 300 hectares e é aberto ao público.³

Os seis garanhões que definiram a raça

Todo Lipizzaner moderno descende de seis garanhões fundadores, todos nascidos entre 1765 e 1810. Cada garanhão deu origem a uma linhagem distinta, e todo garanhão reprodutor Lipizzaner carrega em seu nome o nome do fundador de sua linhagem. Um garanhão chamado Maestoso Austria, por exemplo, é filho de Maestoso Trompeta e de uma égua chamada Austria.¹

1
PlutoNascido em 1765 · Haras de Frederiksborg, Dinamarca · Pelagem brancaDescendência espanhola pura. Linhagem com estrutura retangular, cabeça com perfil convexo pronunciado e pescoço de inserção alta. Considerada a linhagem mais próxima do tipo ibérico original.
2
ConversanoNascido em 1767 · Haras do Conde Kaunitz, Nápoles, Itália · Pelagem pretaNapolitano com sangue árabe. Descendentes têm cabeça forte com perfil convexo, dorso curto, movimentos dignos e naturalmente elevados. Uma das linhagens mais expressivas no trabalho de alta escola.
3
MaestosoNascido em 1773 · Haras de Kladrub, Boêmia · Pelagem cinzaCruzamento de garanhão napolitano com égua de sangue espanhol. Descendentes são cavalos poderosos, com dorso longo, garupa extremamente musculosa e cabeça pesada. A linhagem Maestoso X, que perpetua a linha, nasceu na Hungria em 1819.
4
FavoryNascido em 1779 · Haras de Kladrub, Boêmia · Pelagem baio-escuroOrigem boêmia com influência espanhola e napolitana. Descendentes têm construção mais leve com influência árabe visível, perfil nasal suavemente curvo. Linhagem com boa aptidão para condução e adestramento.
5
NeapolitanoNascido em 1790 · Polesina, Itália · Pelagem baioNapolitano puro. Descendentes tendem a ser mais altos e menos compactos que as outras linhagens, com movimentos graciosos e ação elevada. Boa resistência em percursos longos.
6
SiglavyNascido em 1810 · Origem síria, sangue árabe puro · Pelagem cinzaO único árabe puro entre os fundadores, introduzido pelo Príncipe Schwarzenberg. Descendentes têm cabeça refinada com perfil côncavo típico do árabe, pescoço esguio, cernelha pronunciada e dorso relativamente curto. Máxima influência árabe na raça.

Além das seis linhagens clássicas, a Federação Internacional Lipizzan reconhece mais duas, desenvolvidas na Croácia e na Hungria: Tulipan, garanhão preto nascido por volta de 1800 no haras croata de Terezovac, e Incitato, de linhas espanholas nascido em 1802 na Transilvânia. Essas oito linhagens são a totalidade do patrimônio genético paterno da raça.¹

A pelagem que embranquece e o que isso significa

A imagem do Lipizzaner branco é universal. O que poucos sabem é que essa cor não é inata: os potros nascem pretos ou baios, e vão embranquecendo gradualmente ao longo de 6 a 10 anos. Adultos brancos são, na verdade, cavalos cinzas em sua versão mais clara, com pele preta e olhos escuros, não cavalos brancos verdadeiros, que nascem brancos com pele despigmentada.¹

A seleção deliberada pela pelagem branca foi uma escolha dos Habsburgos a partir do século XVIII. Antes disso, os Lipizzaners existiam em todas as cores, incluindo alazão, baio, castanho, tobiano e tordilho escuro. A família imperial preferiu o cinza claro por prestígio e significado simbólico. Em uma raça pequena, quando a cor passa a ser selecionada ativamente, ela rapidamente domina o plantel.

Raças que não passaram por essa seleção estética ainda exibem as cores primitivas do cavalo europeu: o Konik e o Fjord mantêm o dun, a pelagem arenosa com listra dorsal escura, que o Lipizzaner original provavelmente também tinha.¹

A Escola Espanhola de Viena mantém uma tradição: sempre há pelo menos um garanhão baio em sua cavalaria. É chamado de "cavalo da sorte" e representa a memória das cores originais da raça. A tradição existe até hoje.¹
O preço da pelagem: melanoma em cavalos cinzasO gene cinza, dominante e responsável pelo embranquecimento progressivo do Lipizzaner, está associado ao desenvolvimento de melanoma. Estudos identificaram tumores de pele em 50% dos Lipizzaners com mais de 15 anos, desenvolvidos tipicamente na região da cauda, focinho e genitais. Na maioria dos casos, os tumores são de crescimento lento e os animais convivem com eles por anos. O Lipizzaner, o Andaluz e o Árabe são as raças mais afetadas, pela alta proporção de cinzas em seus plantéis. Monitoramento veterinário regular a partir dos 10 anos é recomendado.

A Escola Espanhola de Viena e os movimentos que desafiam a física

A Escola Espanhola de Equitação de Viena, fundada em 1572, é a escola de equitação mais antiga do mundo ainda em funcionamento. Seu nome refere-se à origem dos cavalos, não à localização: os primeiros animais usados eram de sangue espanhol.

A sede atual, o Winter Riding School no palácio de Hofburg, foi construída entre 1729 e 1735 pelo arquiteto Johann Bernhard Fischer von Erlach, e é considerada uma das salas de equitação mais belas do mundo.¹

Os cavalos chegam à Escola aos 4 anos de Piber, o haras federal austríaco que cria o plantel desde 1920. O treinamento completo leva em média 6 a 8 anos.

Os cavaleiros levam ainda mais: o processo de formação começa com 3 anos trabalhando como palafreneiro, seguido de avaliação como jinete, e pode levar 8 a 10 anos até o nível de cavaleiro pleno. É descrito pela própria Escola como "uma educação para a vida inteira, sempre subordinada às necessidades dos cavalos".⁷

O treinamento baseia-se nos princípios do dressage clássico, que por sua vez remontam ao escritor grego Xenofonte, cujas obras sobre equitação foram redescobertos no século XVI. O método vê o cavalo como parceiro, não subordinado, e baseia-se em recompensa e paciência. Os métodos foram transmitidos oralmente por séculos, até que o Marechal de Campo Franz Holbein e o Primeiro Cavaleiro Johann Meixner os publicaram formalmente em 1898.¹

Os "airs above the ground": movimentos que nasceram na guerra

Os movimentos mais espetaculares do repertório Lipizzaner são os chamados airs above the ground, ou "exercícios acima do solo" em tradução literal. São figuras em que o cavalo deixa o chão completamente, derivadas de manobras militares usadas desde a Grécia Antiga para dar vantagem ao cavaleiro no campo de batalha.⁸

LevadeO cavalo equilibra todo o peso nos posteriores e eleva os anteriores, mantendo um ângulo de 30 a 35 graus com o solo. Posição estática, sem salto. Requer força extrema nos quartos traseiros e equilíbrio preciso. Nenhum cavalo consegue um levade de qualidade sem anos de preparo progressivo.
CourbetteA partir do levade, o cavalo avança em uma série de saltos mantendo os anteriores erguidos sem nunca tocá-los no chão. Cavalos excepcionais conseguem cinco ou mais saltos consecutivos. Originalmente usada para pisotear soldados inimigos à frente do cavaleiro.
CaprioleO mais difícil de todos. O cavalo salta a partir de uma posição elevada, eleva os anteriores em direção ao peito e, no auge da elevação, chuta com força máxima os posteriores para trás e para cima. Em seguida aterrissa nos quatro membros ao mesmo tempo. Originalmente projetado para derrubar soldados atrás do cavaleiro.

Nenhum desses movimentos aparece no adestramento competitivo moderno olímpico. São praticados exclusivamente em escolas de equitação clássica, como a Escola Espanhola de Viena e o Cadre Noir de Saumur, na França. O Lipizzaner, o Andaluz e o Lusitano são as raças mais treinadas para esses exercícios, pela conformação de garupa musculosa que fornece a força necessária.

Quatro evacuações, quatro quase-extinções

Em 445 anos de existência, o Lipizzaner quase desapareceu pelo menos quatro vezes. Cada ameaça veio de uma guerra. Cada evacuação deixou marcas na história da raça e contribuiu para espalhar animais por haras em diferentes países.

1580Fundação do haras de Lipica pelo Arquiduque Carlos II. 9 garanhões e 24 éguas importados da Espanha.
1797Primeira evacuação de Lipica durante a Guerra da Primeira Coalizão contra Napoleão. Durante a fuga, 16 éguas deram à luz. Os cavalos retornaram em novembro, mas os estábulos estavam em ruínas.
1805Segunda evacuação quando Napoleão invade a Áustria. Os cavalos ficaram no haras de Dakovo por dois anos.
1809Tratado de Schönbrunn. Lipica passa a fazer parte do território francês. Mais três evacuações no período seguinte. Os stud books anteriores a 1700 são destruídos.
1915Primeira Guerra Mundial. Cavalos evacuados para Laxenburg e Kladrub. Após a guerra, o Império Austro-Húngaro se dissolve e o plantel é dividido entre seis novos países: Áustria, Itália, Hungria, Tchecoslováquia, Romênia e Iugoslávia.
1920Criação consolidada em Piber, na Estíria, Áustria. O plantel austríaco tem sede permanente a partir daqui.
1942Nazistas transferem o plantel reprodutor de Piber para Hostau, Tchecoslováquia. Objetivo: criar uma linhagem de "cavalos arianos" cruzando Lipizzaners com árabes e PSIs.
28 abr 1945Operação Cowboy. O Coronel Reed resgata 1.200 cavalos, incluindo 375 Lipizzaners, de Hostau.
1952Plantel reprodutor retorna a Piber. Em 1955, os garanhões retornam à Escola Espanhola de Viena.
2022UNESCO inscreve a tradição de criação do Lipizzaner como Patrimônio Imaterial da Humanidade. Oito países signatários.

A Operação Cowboy: o resgate que o Disney distorceu

Em abril de 1945, o plantel reprodutor de Lipizzaners estava em Hostau, na Tchecoslováquia, sob guarda alemã. O Exército soviético se aproximava pelo leste. Os veterinários alemães responsáveis pelos cavalos sabiam o que havia acontecido com o plantel húngaro: os soviéticos haviam matado os animais para alimentar as tropas. Hostau seria o próximo.

O Coronel Charles Reed, comandante do 2º Grupo de Cavalaria do Exército americano, descobriu a situação por acaso: um capitão interrogador encontrou fotos dos garanhões da Escola Espanhola num malote de um coronel da Luftwaffe e reconheceu os cavalos. Reed, ele próprio um cavaleiro experiente, compreendeu imediatamente o que estava em jogo.⁹

Reed tomou a decisão sozinho, sem autorização formal. Enviou um capitão de motocicleta para atravessar as linhas alemãs e negociar a rendição do haras. O capitão foi feito prisioneiro. Dois dias depois, um oficial americano e um veterinário alemão apareceram lado a lado, montados em Lipizzaners brancos, atravessando as linhas. O comandante do haras havia mudado de ideia.⁹

Em 28 de abril de 1945, a força-tarefa americana entrou em Hostau. Americanos e soldados alemães lutaram juntos contra unidades da SS que tentaram impedir o resgate. É um dos dois únicos casos documentados de americanos e alemães combatendo lado a lado contra um inimigo comum na Segunda Guerra Mundial.¹⁰

O resultado: 1.200 cavalos salvos, incluindo 375 Lipizzaners. O General Patton só soube do resgate em 7 de maio, quando o comandante da Escola Espanhola, Alois Podhajsky, pediu proteção formal. Patton garantiu essa proteção.

O filme da Disney de 1963 colocou Patton como protagonista da iniciativa. Louis Holz, que participou do resgate como segundo-tenente, contestou essa versão: "Isso não foi uma ordem direta do General Patton. Foi a decisão de um comandante de campo de aproveitar o que estava na sua frente."⁹

O que a genética diz sobre 445 anos de criação fechada

O stud book do Lipizzaner é fechado desde o século XVIII. Isso significa que apenas animais com pai e mãe já registrados podem entrar no registro. Séculos de população fechada e pequena têm consequências genéticas documentadas.

O coeficiente de endogamia mede o quanto dois animais escolhidos ao acaso numa população são geneticamente parecidos por descenderem dos mesmos ancestrais. Quanto maior o número, menos variação genética existe e maior o risco de acúmulo de doenças hereditárias.

Um estudo com pedigrees de 565 Lipizzaners de oito haras europeus calculou coeficiente médio de 10,8%, com variação de 8,6% a 14,4% entre os diferentes haras. Para comparação, o Puro-Sangue Inglês, com stud book fechado desde 1791, tem média entre 12,5% e 13,9%.¹¹

Um estudo de 2025 com 329 Lipizzaners eslovenos e análise de 70.000 marcadores genéticos mostrou que a endogamia real é maior que os registros de pedigree indicam.

A maior parte da semelhança genética entre os animais vem de ancestrais distantes, não de cruzamentos recentes. Isso sugere que o aumento da endogamia foi gradual ao longo de séculos, não resultado de práticas de criação recentes.¹²

Para quem está considerando adquirir um Lipizzaner: o número de endogamia em si não é uma contraindicação de compra. É uma informação para orientar o acompanhamento veterinário e a escolha de linhagem.

Animais de haras com programas ativos de manejo genético, como Piber, que mantém todas as 17 famílias de éguas, têm menor risco de acúmulo de problemas hereditários do que animais de linhas muito fechadas dentro de um único haras.

Conformação, temperamento e longevidade

O Lipizzaner é um cavalo compacto e musculoso, com construção barroca típica: pescoço arqueado de inserção alta, peito amplo, garupa redonda e musculosa, membros curtos e fortes. O perfil da cabeça é reto ou levemente convexo, o que os criadores chamam de nariz romano, herança da contribuição napolitana e espanhola. Os olhos são grandes e expressivos.¹

Altura1,47 a 1,57 m na cernelha para o tipo de sela. Animais do tipo carruagem, mais próximos do tipo original do século XVI, podem chegar a 1,65 m.¹
Peso450 a 580 kg. O metabolismo eficiente da raça, herança do terreno árido do Carso, predispõe a sobrepeso quando o trabalho diminui.
PelagemQuase universalmente cinza claro a branco em adultos. Nascem pretos ou baios e embranquecem entre 6 e 10 anos. Raramente aparecem adultos baios ou pretos, mantidos por tradição na Escola de Viena.¹
MaturaçãoLenta. O Lipizzaner não é considerado adulto antes dos 7 anos. Essa maturação tardia está associada à longevidade excepcional: garanhões da Escola de Viena trabalham ativamente até os 20 anos ou mais e vivem até os 30.¹
TemperamentoInteligente, cooperativo e com boa memória. Aprende rápido e retém o que aprendeu. Sensível, mas sem a reatividade extrema de raças de corrida. Adequado tanto para cavaleiros avançados quanto para adultos com experiência moderada em dressage.
Saúde específicaMelanoma em 50% dos animais acima de 15 anos. Narcolepsia familiar documentada na raça. Tendência a sobrepeso com dieta não controlada. Cascos com qualidade variável; suplementação de biotina documentada como benéfica em alguns plantéis.

Patrimônio da humanidade e a questão da conservação

Em dezembro de 2022, a UNESCO inscreveu a tradição de criação do Lipizzaner na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. A candidatura foi assinada por oito países: Áustria, Eslovênia, Hungria, Croácia, Itália, Romênia, Eslováquia e Bósnia-Herzegovina, todos herdeiros do sistema de haras do antigo Império Austro-Húngaro.¹³

O reconhecimento reflete um desafio real: a raça é pequena e geneticamente fechada. A Federação Internacional Lipizzan registra cerca de 11.000 animais em 19 países e 9 haras estatais na Europa. Para comparação, o Quarto de Milha tem mais de 3 milhões de registros nos EUA. A Eslovênia reconhece o Lipizzaner como animal nacional, e a moeda de 20 centavos de euro eslovena traz dois Lipizzaners em seu verso.¹

Os nove haras estatais que formam a espinha dorsal da criação europeia são: Piber (Áustria, 360 animais), Lipica (Eslovênia, 358), Szilvásvárad (Hungria, 262), Monterotondo (Itália, 230), Dakovo-Lipik (Croácia, 220), Topol'cianky (Eslováquia, 200), Sâmbăta de Jos (Romênia, 400) e Beclean (Romênia). O de Piber é o único que mantém todas as 17 famílias clássicas de éguas fundadoras e as seis linhagens clássicas de garanhões.¹

Curiosidades

A frase que justificou um resgateQuando perguntado por que havia arriscado sua missão para salvar cavalos em plena guerra, o Coronel Reed respondeu com uma frase que ficou registrada nos arquivos militares americanos: "Estávamos tão cansados de morte e destruição. Queríamos fazer algo belo." Reed não era um general famoso. Era um cavaleiro que reconheceu o que estava prestes a ser perdido e agiu.
A moeda com o cavaloA Eslovênia, país onde fica o haras original de Lipica, escolheu o Lipizzaner como símbolo nacional. A moeda de 20 centavos de euro eslovena traz dois Lipizzaners em movimento em seu verso. É um dos raros casos em que um animal aparece na moeda corrente de um país europeu moderno.¹
O mais velho Lipizzaner registradoO garanhão Neapolitano Nima I completou 40 anos em 2022, tornando-se o Lipizzaner mais velho com registro formal já documentado. A longevidade da raça é excepcional mesmo pelos padrões equinos: cavalos trabalhando ativamente na segunda metade dos vinte anos são comuns na Escola de Viena.¹⁴
A primeira mulher em 436 anosPor 436 anos, a Escola Espanhola de Viena formou exclusivamente cavaleiros homens. Em 2008, duas mulheres foram admitidas pela primeira vez: a britânica Sojourner Morrell, 18 anos, e a austríaca Hannah Zeitlhofer, 21 anos. Em 2011, uma terceira foi aceita. A instituição mais antiga de dressage do mundo levou quatro séculos para abrir suas portas a metade da humanidade.¹⁵
Os stud books destruídos por NapoleãoOs registros genealógicos do haras de Lipica anteriores a 1700 foram destruídos durante as guerras napoleônicas. Quando os cavalos foram evacuados e os estábulos ocupados, os documentos que registravam as primeiras gerações da raça desapareceram. Hoje, os pedigrees rastreáveis começam pelo final do século XVIII, não de 1580.¹

Ficha técnica

NomeLipizzaner (pt) · Lipizzan (de/en) · Lipizzano (it/pt popular) · Lipicanec (sl) · Lipicai (hu)
OrigemHaras de Lipica, Eslovênia. Fundado em 1580 pelo Arquiduque Carlos II dos Habsburgos
Stud bookFederação Internacional Lipizzan (LIF), com registros nacionais em 19 países
Linhagens de garanhões6 clássicas (Pluto, Conversano, Maestoso, Favory, Neapolitano, Siglavy) + 2 reconhecidas (Tulipan, Incitato)
Famílias de éguas17 clássicas, todas rastreáveis ao século XVIII. Piber é o único haras com todas as 17
Altura1,47 a 1,57 m (tipo sela) · até 1,65 m (tipo carruagem)
Peso450 a 580 kg
PelagemCinza claro a branco em adultos. Nascem pretos ou baios, embranquecem em 6-10 anos
MaturaçãoTardia. Considerado adulto aos 7 anos. Longevidade excepcional: trabalha até os 20, vive até os 30
Usos principaisDressage clássico e alta escola, condução, exposições, equoterapia
Raças de origemAndaluz (sangue espanhol), Napolitano (extinto), Árabe
Registrados no mundoCerca de 11.000 em 19 países e 9 haras estatais europeus (LIF)
Saúde específicaMelanoma: 50% dos animais acima de 15 anos. Narcolepsia familiar documentada.
Patrimônio culturalUNESCO, Patrimônio Imaterial da Humanidade desde 2022 (8 países signatários)
Qual a diferença entre Lipizzaner e Lipizzan?

São nomes para a mesma raça em idiomas diferentes. Lipizzan é o nome em alemão e inglês, adotado pela Federação Internacional Lipizzan. Lipizzaner é a forma mais usada em português e espanhol. Lipizzano é a forma italiana, amplamente usada no Brasil em publicações mais antigas e em buscas populares. Na Eslovênia, país de origem, o nome é Lipicanec. Na Croácia, Lipicanac. Na Hungria, Lipicai. Todos referem-se ao cavalo criado no haras de Lipica desde 1580.¹

O Lipizzaner é bom para iniciantes?

Para iniciantes absolutos, não é a escolha mais indicada. O Lipizzaner tem temperamento calmo e cooperativo, mas sua sensibilidade e os anos de treinamento refinado exigem um cavaleiro com equilíbrio e consistência. Para quem tem experiência moderada em dressage e busca um cavalo longevo, inteligente e disposto ao trabalho clássico, é uma escolha excelente. A maturação lenta significa que animais jovens ainda estão se desenvolvendo até os 7 anos.⁶

Quanto custa um Lipizzaner?

Os preços variam muito conforme origem, linhagem e treinamento. Animais jovens sem treinamento de haras europeus partem de 8.000 a 15.000 euros. Cavalos com treinamento avançado em dressage clássico ou alta escola podem ultrapassar 50.000 euros. Animais diretamente de Piber ou Lipica, com documentação completa de linhagem, são os mais valorizados. No Brasil, a raça é praticamente ausente e animais são importados individualmente da Europa.⁷

O Lipizzaner pode competir em dressage olímpico?

Tecnicamente pode, mas raramente compete. O dressage olímpico moderno favorece warmbloods europeus mais altos, com passadas amplas e expressão extrema de movimento. O Lipizzaner tem movimentos corretos e cadenciados, mas o estilo clássico para o qual foi selecionado é diferente do estilo de competição moderno. Sua vocação real é a alta escola clássica, os airs above the ground, e as apresentações da Escola Espanhola de Viena.⁷

Qual a diferença entre Lipizzaner e Andaluz?

O Andaluz é o ancestral direto do Lipizzaner: os primeiros animais levados para Lipica em 1580 eram Andaluzes importados da Espanha. Com o tempo, o Lipizzaner incorporou sangue napolitano e árabe e se desenvolveu como raça distinta. Hoje são raças separadas com stud books distintos. O Andaluz tende a ser ligeiramente maior e mais voltado para dressage competitivo. O Lipizzaner é mais compacto e associado à alta escola clássica vienense.¹

Os Lipizzaners ainda são usados em cerimônias de estado?

Sim. A Escola Espanhola de Viena realiza apresentações públicas regularmente e turnês internacionais. Os Kladrubers, a raça irmã criada pelo mesmo haras imperial em 1579, ainda puxam carruagens em cerimônias de estado em vários países europeus. Em 2008, a Eslovênia presenteou a rainha Elizabeth II com um Lipizzaner do haras de Lipica, continuando a tradição diplomática de séculos de presentear garanhões ibéricos.¹

O Lipizzaner existe no Brasil?

A raça é praticamente ausente no Brasil. Não existe associação formal de criadores nem dados de plantel registrado no país. Os poucos animais existentes foram importados individualmente da Europa, geralmente por apaixonados por equitação clássica ou por escolas de adestramento. Quem tem interesse em adquirir um Lipizzaner precisa contatar diretamente os haras europeus ou a Federação Internacional Lipizzan.¹

Fontes

  1. Wikipedia. Lipizzan. Consultado em abril de 2026. Inclui história completa do haras de Lipica, linhagens fundadoras, evacuações de guerra, pelagem, conformação e dados populacionais. Disponível em: en.wikipedia.org/wiki/Lipizzan.
  2. The Slovenia. "The story of the Lipizzan horse in Slovenia." Haras de Lipica, fundação de 1580, terreno do Carso. Disponível em: the-slovenia.com.
  3. Lipica Stud Farm. History of Lipica. Haras em operação desde 1580. 300 animais em 300 hectares. Disponível em: lipica.org.
  4. United States Lipizzan Federation (USLF). Lipizzan Breed History. Sangues formadores: espanhol, napolitano, árabe. Disponível em: uslipizzan.org.
  5. Lipizzaner Stud Piber / Spanish Riding School. The six stallion lines. Pluto (1765), Conversano (1767), Maestoso (1773), Favory (1779), Neapolitano (1790), Siglavy (1810). Disponível em: srs.at. Referência complementar: Oklahoma State University Breeds of Livestock — Lipizzan.
  6. Mad Barn. Lipizzaner Horse Breed Guide: Characteristics, Health & Nutrition. Melanoma (50% acima de 15 anos, estudo com 296 Lipizzaners), narcolepsia, metabolismo. Disponível em: madbarn.com. Referências primárias incluídas: Dovc, P. et al. Reprod Domest Anim. 2006; Brglez, B. US Army Med Dep J. 2009.
  7. Spanish Riding School Vienna. 460 Years. Fundação 1572, Winter Riding School 1729-1735, treinamento de cavaleiros (8-10 anos), publicação das diretrizes por Holbein e Meixner em 1898. Disponível em: srs.at.
  8. Wikipedia. Airs above the ground. Levade, courbette, capriole, croupade, ballotade. Origem militar, derivação de Xenofonte. Disponível em: en.wikipedia.org/wiki/Airs_above_the_ground.
  9. Foster, LTC Renita. "Saving the Lipizzaners: American Cowboys Ride to the Rescue." ARMOR, maio-junho 1998. Republicado em eARMOR / US Army. Citação de Louis Holz (2ª Cavalaria): "This was not, as mythology has it, a direct order from the Third Army commander, GEN George Patton, but a field commander's decision." Disponível em: benning.army.mil.
  10. Military.com. "Operation Cowboy: When U.S. Cavalry and Germans Fought Together in WWII to Save 1,200 Horses from the Soviets." 2025. 375 Lipizzaners salvos, um dos dois únicos casos documentados de americanos e alemães combatendo juntos. Disponível em: military.com.
  11. Druml, T. et al. "Analysis of diversity and population structure in the Lipizzan horse breed based on pedigree information." Livestock Production Science, 2002. 565 Lipizzaners de 8 haras europeus. Coeficiente médio de endogamia: 10,8% (variação 8,6-14,4%). Disponível em: sciencedirect.com.
  12. Luštrek, B. et al. "Comparing Genomic and Pedigree Inbreeding Coefficients in the Slovenian Lipizzan Horse as a Case Study for Small Closed Populations." Animals, v.15, n.19, art.2774, set. 2025. 329 Lipizzaners eslovenos, array SNP 70K. DOI: 10.3390/ani15192774. Disponível em: mdpi.com.
  13. UNESCO. Lipizzan horse breeding traditions. Patrimônio Imaterial da Humanidade desde 2022. 8 países signatários: Áustria, Eslovênia, Hungria, Croácia, Itália, Romênia, Eslováquia e Bósnia-Herzegovina. Disponível em: ich.unesco.org.
  14. Spanish Riding School Vienna. 460 Years. Neapolitano Nima I, 40 anos em 2022, o mais velho Lipizzaner registrado. Disponível em: srs.at.
  15. Vetsmart / Brasil Hipismo. "Escola Espanhola de Equitação de Viena." Primeiras mulheres admitidas em 2008: Sojourner Morrell e Hannah Zeitlhofer. Terceira em 2011. Disponível em: vetsmart.com.br.
André Ferreira

André Ferreira

André é o responsável atual pela condução editorial e estratégica do Multicavalos, um portal voltado ao universo equestre. Entusiasta do ramo, André dedica-se ao estudo e à observação do setor, buscando compreender suas práticas, rotinas, desafios e evoluções.