Cavalos e Suas Origens: Lavradeiro — Um dos Últimos Cavalos Selvagens do Mundo Vive Solto no Lavrado de Roraima

O cavalo lavradeiro é uma raça feral única no Brasil, com cerca de 3.150 exemplares em Roraima. Origem, adaptações ao lavrado e situação de conservação.

Cavalos e Suas Origens: Lavradeiro — Um dos Últimos Cavalos Selvagens do Mundo Vive Solto no Lavrado de Roraima
A Resistência do Cavalo Lavradeiro. Foto para fins de divulgação.
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No norte do Brasil, nas savanas abertas que os roraimenses chamam de lavrado, vivem manadas de cavalos que não pertencem a ninguém. Chegaram com os colonizadores portugueses em 1789, escaparam, e nunca mais voltaram à domesticação. Séculos de seleção natural os transformaram em algo diferente do que eram. Hoje restam cerca de 3.150 com as características originais. Não têm associação de criadores, não têm registro, não têm reconhecimento oficial. E estão desaparecendo.
1789Chegada dos primeiros equinos ao lavrado
~3.150Animais com características da raça (Embrapa, 2016)
43Animais no núcleo de conservação da Embrapa
O cavalo lavradeiro é uma raça equina feral — descendente de animais domésticos que voltaram à vida selvagem — única no Brasil, que vive em manadas soltas no lavrado de Roraima desde o século XVIII. 

O termo feral distingue esses animais dos selvagens de origem: eles não são uma espécie selvagem original, são descendentes de cavalos domésticos que escaparam e nunca foram recapturados. Os pesquisadores da Embrapa preferem o termo "asselvajados" a "selvagens" por essa razão.¹ ²

Segundo estimativa da Embrapa com base em dados de 2016, restam cerca de 3.150 animais com características fenotípicas, as características físicas visíveis, da raça. A população está em declínio por mestiçagem, sem reconhecimento oficial do MAPA, o Ministério da Agricultura e Pecuária, e sem associação de criadores. 

Segundo levantamento da FAO citado pelo pesquisador Ramayana Menezes Braga da Embrapa, a população está classificada em perigo de extinção.¹

Como o lavradeiro é conhecido

O lavradeiro tem vários nomes dependendo de quem fala e onde. Em Roraima, o mais popular é simplesmente cavalo selvagem — aparece estampado em camisetas, ônibus interestaduais e souvenirs do estado, segundo comunicado da Embrapa Roraima. 

Em documentos científicos da Embrapa e do INCT, o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia, aparece como cavalo-lavrador ou Cavalo de Comportamento Selvagem de Roraima.¹ ²

O pesquisador Ramayana Menezes Braga, autor do principal livro sobre a raça publicado pela Embrapa, usa o termo ecótipo Cavalo Lavradeiro.

Um ecótipo é uma população animal adaptada a um ecossistema específico, com características próprias, mas sem o aparato institucional que transforma um ecótipo em raça reconhecida. Internacionalmente é referenciado como Lavradeiro horse ou wild horse of Roraima em publicações científicas.¹ ³

De onde veio o lavradeiro

A história começa em 1789, quando colonizadores introduziram bovinos e equinos no lavrado de Roraima. Esses animais vieram principalmente do Nordeste brasileiro, por uma rota que passava pela ilha de Marajó e subia pelo baixo Amazonas. 

Entre eles havia equinos de origem ibérica — provavelmente Garrano e Sorraia, raças primitivas da Península Ibérica, Bérbere, raça do norte da África, e Andaluz, segundo o Documentos 65 da Embrapa de 2019.¹

Roraima faz fronteira com a Guiana, antiga colônia inglesa, e esse contato geográfico explica a presença de sangue do Puro Sangue Inglês na formação da raça. 

O Documentos 65 da Embrapa confirma que essa influência está presente na genética da população atual — produzindo um tipo de animal visivelmente diferente do tipo ibérico puro: maior, mais veloz, usado historicamente em corridas.¹

Em algum momento após 1789, parte desses animais escapou para o lavrado e formou manadas selvagens. Submetidos à seleção natural sem intervenção humana, foram eliminando os genes que não serviam para aquele ambiente. 

O resultado, séculos depois, é um cavalo adaptado a condições que a maioria das raças domésticas não aguentaria sem manejo intensivo.¹

O que é o lavrado

O lavrado é uma savana tropical, semelhante ao cerrado, que cobre grande parte do estado de Roraima. A vegetação é rasteira e pouco nutritiva. No período seco, as queimadas são frequentes. É um ambiente que exige dos animais baixíssima exigência nutricional e alta resistência ao calor e às queimadas.¹

Raças parecidas surgiram em outros biomas brasileiros pelo mesmo processo: o Pantaneiro no Pantanal, o Nordestino na caatinga, o Campeiro no pampa gaúcho, o Marajoara na ilha de Marajó, o Baixadeiro no Maranhão. Cada um deles é o resultado de cavalos ibéricos que chegaram com a colonização e foram moldados pelo ambiente onde viveram.¹

Como é o lavradeiro

O lavradeiro é um cavalo de porte pequeno a médio, construído pela seleção natural, não por criadores. O Documentos 65 da Embrapa documenta as medidas da população.¹
Altura — machosMédia de 1,37 m na cernelha, variando de 1,30 m a 1,48 m. Um segundo levantamento da mesma publicação aponta 1,38 m — diferença que reflete a variabilidade da população, ainda sem padrão racial fixado.
Altura — fêmeasMédia de 1,35 m na cernelha, variando de 1,25 m a 1,45 m. O segundo levantamento aponta 1,31 m.
CabeçaRelativamente pesada, triangular vista de frente. Perfil reto ou levemente côncavo. Ganachas fortes — as ganachas são os ossos laterais da mandíbula, visíveis como saliências na parte inferior da cabeça.
PescoçoPiramidal — mais largo na base e afunilando em direção à cabeça. Crina larga de pelos grossos e ondulados.
CorpoDorso e lombo curtos. Cauda com inserção alta e pelos abundantes, longos e ondulados — uma das marcas mais reconhecíveis do lavradeiro.
PelagensAs mais comuns são tordilha, castanha, baia e alazã.
Dois tipos dentro da populaçãoO Documentos 65 da Embrapa documenta dois tipos dentro da população: o tipo ibérico, de menor porte, usado na lida com o gado; e o tipo com maior influência do Puro Sangue Inglês, maior e mais veloz, historicamente associado a corridas na região. Essa divisão não é formal — é uma observação documentada sobre a variabilidade do grupo.

Adaptações que a seleção natural produziu

A Embrapa pesquisa o lavradeiro desde a década de 1980. O dado que mais intriga os pesquisadores é o desempenho físico: segundo comunicado da Embrapa Roraima, o lavradeiro consegue manter velocidade de até 60 km/h por 30 minutos alimentando-se apenas do capim do lavrado — conhecido popularmente como "fura-bucho" pelo baixo valor nutritivo.

É um desempenho que raças domésticas convencionais dificilmente conseguiriam nas mesmas condições, segundo a Embrapa.² ¹
NutriçãoAlimenta-se de pastagem nativa sem suplementação, incluindo o "fura-bucho", capim de baixo valor proteico. Metabolismo eficiente que converte pastagem pobre em energia de alto desempenho.
VelocidadeCapaz de correr a até 60 km/h por longos períodos alimentando-se apenas da vegetação nativa do lavrado, segundo comunicado da Embrapa Roraima.
FertilidadeAs fêmeas entram em cio entre 7 e 10 dias após o parto — chamado de "cio do potro" — o que permite produzir uma cria por ano. É uma taxa de reprodução acelerada em relação à maioria das raças equinas.
Tolerância a doençasApresenta tolerância à Anemia Infecciosa Equina (AIE), doença viral sem cura que afeta o sistema imunológico dos cavalos, e à Encefalomielite Equina, doença viral do sistema nervoso. O índice de incidência da AIE chega a 50%, mas a maioria dos animais não demonstra os sintomas típicos — fenômeno que os pesquisadores da Embrapa estão estudando.
VulnerabilidadeApesar das tolerâncias, o lavradeiro é suscetível ao carrapato Dermacentor nitens, espécie de carrapato do gênero Dermacentor que parasita principalmente equinos no norte do Brasil, representando um desafio sanitário constante.

A situação atual

Em 2016, Roraima tinha 31.943 equinos registrados. Desse total, cerca de 21.000 viviam em criação extensiva na savana. A estimativa da Embrapa é que apenas 15% desses animais — cerca de 3.150 — poderiam ser classificados fenotipicamente como lavradeiro. O restante já é mestiço.¹

A Embrapa mantém um Núcleo de Conservação na Fazenda Resolução, no município de Amajari, a cerca de 170 km de Boa Vista, com 43 animais. Outros seis garanhões foram transferidos para a Fazenda Água Boa para adaptação e manejo.²

Os criadores tradicionais que mantinham o lavradeiro em suas fazendas estão desaparecendo. A pressão econômica para converter pastagens em lavouras de grãos ou para substituir o gado por Nelore reduz o espaço do lavradeiro. 

As demarcações das terras indígenas Raposa Serra do Sol e São Marcos, onde parte das manadas vivia, também afetaram a população. E a motocicleta substituiu o cavalo em boa parte do trabalho de campo nas fazendas menores.¹

O resultado é uma população em declínio, sem associação de criadores, sem registro genealógico e sem plano formal de conservação.¹

Por que não tem reconhecimento oficial

Para o MAPA reconhecer uma raça equina, é necessário que exista uma associação de criadores que estabeleça um padrão racial e mantenha um registro genealógico. O lavradeiro não tem nenhum dos dois.¹

O contraste com o Pantaneiro é direto: a Associação Brasileira de Criadores do Cavalo Pantaneiro foi criada em 1972 e obteve reconhecimento do MAPA, o que permitiu organizar o registro e estruturar a seleção. O lavradeiro está décadas atrás nesse processo.¹

O Documentos 65 da Embrapa identifica a criação de uma associação como a estratégia mais urgente para a conservação da raça. Sem ela, não há reconhecimento, não há registro, e não há como organizar a seleção para preservar as características do tipo original. 

A segunda prioridade é um programa estadual de conservação com incentivos para os criadores que mantiverem animais com características do tipo lavradeiro. 

A terceira é atualizar os estudos genéticos — a análise mais recente foi feita em 1994, com 48 animais, e a Embrapa reconhece que os dados precisam ser atualizados.¹

Curiosidades

50% de incidência de AIE, sem sintomasA Anemia Infecciosa Equina é uma doença viral sem cura. Em plantéis convencionais, a detecção de um animal positivo resulta em sacrifício imediato, por exigência sanitária. No lavradeiro, o índice de incidência chega a 50% — e a maioria dos animais não demonstra os sintomas típicos. Os pesquisadores da Embrapa estão estudando esse fenômeno, que pode indicar uma adaptação genética ao vírus desenvolvida ao longo de séculos de seleção natural.
O cavalo que aparece em camisetas mas não tem registroO cavalo selvagem é símbolo cultural de Roraima: aparece em camisetas, ônibus interestaduais e souvenirs do estado, segundo comunicado da Embrapa Roraima. É a identidade equestre do estado — e ao mesmo tempo não tem associação de criadores, não tem stud book, não tem reconhecimento do MAPA. É provavelmente o único símbolo estadual brasileiro que está classificado em perigo de extinção sem nenhuma estrutura formal de preservação.
A motocicleta que substituiu o cavaloUma das causas do declínio do lavradeiro é tão prosaica quanto definitiva: a motocicleta. Nas fazendas menores de Roraima, o cavalo era a ferramenta de trabalho no campo. Com a popularização das motos, o custo de manutenção de um plantel de cavalos passou a não se justificar. Os criadores tradicionais foram abandonando os animais ou os cruzando com raças mais comerciais. Cada cruzamento não controlado apaga um pouco mais das características que séculos de seleção natural construíram.
O "fura-bucho" como dieta de alto desempenhoO capim popular chamado de "fura-bucho" recebe esse nome pela baixa qualidade nutricional — é considerado inadequado para alimentar cavalos de trabalho. O lavradeiro se alimenta dele e consegue correr a 60 km/h por 30 minutos. A explicação está na seleção natural: os animais que não conseguiam converter esse capim em energia morreram sem deixar descendentes. Os que ficaram têm um metabolismo calibrado especificamente para aquele ambiente.
O único estudo genético tem 30 anosO estudo genético mais recente do lavradeiro foi feito em 1994, com 48 animais. A própria Embrapa reconhece que os dados precisam ser atualizados. Trinta anos é tempo suficiente para que a composição genética da população mude significativamente — especialmente numa população em declínio por mestiçagem. O que a ciência sabe sobre a genética do lavradeiro é, por definição, desatualizado.
O Pantaneiro levou 50 anos de vantagemO Pantaneiro e o Lavradeiro têm origem semelhante: cavalos ibéricos que chegaram com a colonização e foram moldados por séculos em biomas adversos. A diferença é institucional. A associação de criadores do Pantaneiro foi fundada em 1972 e o MAPA reconheceu a raça. O Lavradeiro não tem associação até hoje. Essa diferença de meio século no processo institucional é o que separa uma raça preservada de uma raça em perigo de extinção.

Ficha técnica

NomeCavalo Lavradeiro / Cavalo Selvagem de Roraima
Também chamadoCavalo-lavrador, Cavalo de Comportamento Selvagem de Roraima, Lavradeiro horse (internacional)
ClassificaçãoEcótipo feral — não reconhecido oficialmente pelo MAPA como raça
OrigemLavrado de Roraima, norte do Brasil
Introdução1789 — equinos ibéricos introduzidos por colonizadores
Raças de origemGarrano, Sorraia, Bérbere, Andaluz (ibéricos); Puro Sangue Inglês (influência via Guiana)
Altura — machosMédia 1,37 m na cernelha (variação: 1,30 m a 1,48 m)
Altura — fêmeasMédia 1,35 m na cernelha (variação: 1,25 m a 1,45 m)
Pelagens comunsTordilha, castanha, baia e alazã
Pop. estimada~3.150 animais com características fenotípicas da raça (Embrapa, base 2016)
StatusEm perigo de extinção (FAO, citado por Embrapa)
Núcleo de conservaçãoFazenda Resolução, Amajari, Roraima — 43 animais (Embrapa)
Reconhecimento MAPANão reconhecido. Sem associação de criadores e sem registro genealógico.
PesquisaEmbrapa Roraima — desde a década de 1980
O cavalo lavradeiro é selvagem ou doméstico?

É feral: descende de animais domésticos que escaparam e voltaram à vida selvagem. Biologicamente é a mesma espécie que qualquer cavalo doméstico, mas vive sem intervenção humana há séculos. Os pesquisadores preferem o termo "asselvajados" a "selvagens": não é uma espécie selvagem original, é uma espécie doméstica que voltou ao estado livre.¹ ²

Quantos cavalos lavradeiros existem hoje?

A estimativa da Embrapa, com base em dados de 2016, é de cerca de 3.150 animais com características fenotípicas do lavradeiro em Roraima. Segundo levantamento da FAO citado pelo pesquisador Ramayana Braga da Embrapa, essa população está classificada em perigo de extinção. O número está em queda por mestiçagem, perda de habitat e abandono da criação tradicional.¹

Por que o lavradeiro não tem reconhecimento oficial?

Porque não existe associação de criadores com padrão racial estabelecido nem registro genealógico — requisitos do MAPA para reconhecer uma raça equina. O Documentos 65 da Embrapa identifica a criação de uma associação como a estratégia mais urgente para a conservação da raça.¹

O lavradeiro é a mesma coisa que o cavalo pantaneiro?

Não. São raças distintas, formadas em biomas diferentes por processos parecidos: cavalos ibéricos que chegaram com a colonização e foram moldados pelo ambiente. O Pantaneiro foi reconhecido pelo MAPA e tem associação de criadores desde 1972. O lavradeiro ainda não tem nenhum dos dois.¹

O lavradeiro pode ser domesticado?

Sim. Os animais capturados podem ser domados, e os criadores tradicionais de Roraima usam exemplares lavradeiros para manejo de gado. O tipo com maior influência do Puro Sangue Inglês é historicamente associado a corridas na região.¹

Por que o lavradeiro consegue correr tão rápido comendo tão pouco?

É uma das perguntas que mais intriga os pesquisadores da Embrapa. A resposta está na seleção natural de séculos: os animais que não conseguiam sobreviver com a pastagem nativa de baixo valor nutritivo não deixaram descendentes. Os que ficaram desenvolveram metabolismo eficiente o suficiente para converter o "fura-bucho" em energia de alto desempenho. É genética construída pelo ambiente, não por criadores.¹ ²

Fontes

  1. Embrapa. Cavalo Lavradeiro: Aspectos Históricos, Situação Atual, Desafios e Possíveis Soluções para sua Conservação. Documentos 65, ISSN 0104-9046. Maio de 2019. Disponível em: infoteca.cnptia.embrapa.br.
  2. Embrapa Roraima. Pesquisa investe na conservação do cavalo lavradeiro de Roraima — dados de velocidade 60 km/h, núcleo de conservação, denominação popular "cavalo selvagem". Disponível em: embrapa.br.
  3. Braga, Ramayana Menezes. Cavalo lavradeiro em Roraima: aspectos históricos, ecológicos e de conservação. Embrapa. Disponível em: embrapa.br.
  4. Santos, Fernanda Carlini Cunha dos; Braga, Ramayana Menezes. Como Identificar o Cavalo Lavradeiro. UFRR.
  5. Wikipedia. Cavalo-lavradeiro. Disponível em: pt.wikipedia.org/wiki/Cavalo-lavradeiro.
André Ferreira

André Ferreira

André é o responsável atual pela condução editorial e estratégica do Multicavalos, um portal voltado ao universo equestre. Entusiasta do ramo, André dedica-se ao estudo e à observação do setor, buscando compreender suas práticas, rotinas, desafios e evoluções.