Cavalos e Suas Origens: Mustang — O Cavalo que os Americanos Chamam de Selvagem

O mustang descende de cavalos espanhóis de 1493 e quase desapareceu. Origem, genética, Kiger, Wild Horse Annie, crise atual e como funciona no Brasil.

Cavalos e Suas Origens: Mustang — O Cavalo que os Americanos Chamam de Selvagem
Foto por: Dan Dzurisin
Compartilhar
Em 1950, Velma Johnston dirigia para o trabalho numa manhã de inverno em Nevada quando ficou presa atrás de um caminhão de transporte. Sangue escorria pela traseira do veículo. Ela seguiu o caminhão até um matadouro e descobriu que os animais dentro eram mustangs capturados nas planícies. Um potro havia sido pisoteado pelos outros durante o transporte e estava morto. O que ela viu naquele dia lançou uma campanha de 27 anos que resultou nas duas principais leis de proteção dos cavalos ferais americanos. Os mustangs ainda existem em parte por causa daquele caminhão.
53.797Cavalos livres (BLM, março 2025)
~68.000Em detenção (BLM, jan. 2025)
177Áreas de gestão de rebanhos (HMAs)
1493Ano da primeira chegada ao continente

Selvagem ou feral?

O mustang é chamado de cavalo selvagem pelos americanos e pela lei federal, mas a classificação científica é diferente: trata-se de um cavalo feral, ou seja, um animal doméstico cujos ancestrais voltaram a viver em liberdade. Cavalos selvagens são aqueles que nunca passaram pelo processo de domesticação. O único equino que se enquadra nessa categoria é o cavalo de Przewalski, e mesmo esse status é debatido desde 2018.¹

A lei americana reconhece essa distinção implicitamente: o Wild and Free-Roaming Horses and Burros Act de 1971 define mustangs como "cavalos ou burros não marcados, sem dono, de vida livre encontrados em terras públicas dos Estados Unidos", sem usar o termo "selvagem" em sentido biológico. O Congresso os declarou "símbolos vivos do espírito histórico e pioneiro do Oeste".¹

A origem: de Colombo ao Great Basin

Os cavalos modernos chegaram às Américas com Cristóvão Colombo, que trouxe animais da Espanha para as Antilhas em sua segunda viagem, em 1493. Os cavalos chegaram ao continente com Hernán Cortés em 1519.¹

A população autossustentável no que hoje é o sudoeste dos Estados Unidos começou a se estabelecer em 1598, quando Juan de Oñate fundou Santa Fe de Nuevo México com 75 cavalos que logo cresceram para 800. A partir daí, a dispersão foi rápida.¹

Os povos nativos adotaram o cavalo rapidamente. O animal substituiu o cão como animal de carga e transformou as culturas das Planícies em termos de guerra, comércio e caça. A Revolta Pueblo de 1680 resultou no maior influxo único de cavalos nas mãos dos nativos em toda a história: centenas de animais passaram ao controle dos povos do sudoeste e se espalharam para o norte e para o leste ao longo das décadas seguintes. Os Blackfeet de Alberta tinham cavalos em 1750; os Nez Perce tornaram-se criadores tão habilidosos que desenvolveram uma das primeiras raças distintamente americanas, o Appaloosa.¹

Cavalos escapados, abandonados ou roubados ao longo de séculos foram formando populações ferais por todo o oeste. No Texas, uma concentração especialmente grande se estabeleceu na região entre o Rio Grande e o Palo Duro Canyon, chamada pelos contemporâneos de "Deserto dos Mustangs". No pico estimado, no final do século XVIII ou início do XIX, a população total de mustangs no continente pode ter chegado a dois milhões, embora nenhum censo sistemático tenha sido realizado e os números sejam especulativos.¹

O colapso: de dois milhões a 17.000

O declínio foi longo e causado por múltiplos fatores sobrepostos. O avanço da colonização reduziu o habitat. Ranchers e "mustangers", que eram cowboys especializados em capturar cavalos ferais para venda, controlavam o tamanho dos rebanhos. Os mercados doméstico e internacional de carne de cavalo aumentaram a pressão sobre os animais, assim como as guerras: estimativas indicam que mais de um milhão de cavalos ferais foram recrutados para uso na Primeira Guerra Mundial.¹ ²

Ao longe, à nossa direita, o rebanho se estendia até onde a vista alcançava. À esquerda, igualmente. Não havia como estimar o número de animais; não acredito que todos coubessem no estado de Rhode Island ao mesmo tempo.

Ulysses S. Grant, em suas memórias, descrevendo uma manada entre o Rio Nueces e o Rio Grande, Texas, 1846.¹
Na década de 1950, a mecanização havia reduzido ainda mais o habitat disponível. As capturas passaram a usar aviões e veículos motorizados. O método mais brutal envolvia perseguir os animais até a exaustão com helicópteros, atirar pedras e bolas de borracha por longas distâncias para mantê-los em movimento, e finalmente conduzi-los a currais onde eram abatidos ou vendidos para ração de animais domésticos. Uma estimativa de 1959 contava apenas 17.000 cavalos ferais no oeste americano.¹ ³

Wild Horse Annie e as leis de proteção

Velma Bronn Johnston nasceu em 5 de março de 1912 em Reno, Nevada, numa família de tradição ranching. Aos 11 anos, contraiu polio e ficou com sequelas físicas pelo resto da vida. Em 1950, o encontro com o caminhão de transporte de mustangs a caminho do matadouro mudou o curso de sua vida e do dos animais.⁴

Johnston começou documentando as capturas, fotografando as condições dos animais e organizando apresentações para autoridades e cidadãos. A apelação "Wild Horse Annie" foi cunhada por um funcionário do governo que queria diminuir sua campanha. O nome ficou, mas não funcionou como insulto.⁴

A principal ferramenta da campanha foi uma iniciativa de cartas em massa: milhares de estudantes escreveram ao Congresso pedindo proteção aos mustangs. A estratégia ficou conhecida como "Pencil War". Em 8 de setembro de 1959, o resultado chegou: o Wild Horse Annie Act federal proibiu o uso de aeronaves e veículos motorizados na captura de cavalos e burros ferais e o envenenamento de fontes de água que os animais usavam. Mas as terras federais, que compõem cerca de 85% de Nevada, estavam inicialmente fora da proteção da lei estadual.³ ⁴

Johnston continuou. Em 15 de dezembro de 1971, o presidente Nixon assinou o Wild and Free-Roaming Horses and Burros Act, aprovado por unanimidade nas duas casas do Congresso. A lei proibiu a captura, dano ou perturbação de cavalos e burros ferais nas terras públicas e encarregou o Bureau of Land Management (BLM) de gerir e proteger os rebanhos. Johnston morreu de câncer em 27 de junho de 1977, dois meses antes de completar 65 anos.³ ⁴

Cavalos e burros selvagens e em vida livre são símbolos vivos do espírito histórico e pioneiro do Oeste, que continuam a contribuir para a diversidade das formas de vida da Nação e a enriquecer a vida do povo americano.

Wild Free-Roaming Horses and Burros Act, Congresso dos Estados Unidos, 15 de dezembro de 1971.³

Como é o mustang

O mustang não tem um padrão racial único: é uma população geneticamente heterogênea, com variação considerável entre os 177 rebanhos geridos pelo BLM em 10 estados. As características gerais refletem séculos de seleção natural em ambientes áridos e de altitude.¹ ⁵

AlturaGeralmente entre 14 e 15 palmos (1,42 a 1,52 m). Alguns rebanhos com ancestralidade de Thoroughbred podem chegar a 16 palmos (1,63 m). Os de ancestralidade espanhola mais pura tendem a ser menores.
PelagemQualquer cor. A coloração dun, com listra dorsal escura e marcações primitivas nas pernas, é especialmente comum nos rebanhos com maior ancestralidade ibérica.
ConformaçãoCompacta e robusta, com cascos duros e densos. São descritos nas fontes como surefooted, termo inglês para animais que raramente tropeçam em terreno irregular, e com boa resistência em longas distâncias.
TemperamentoVariável conforme o rebanho e o histórico de contato humano. Animais capturados jovens e trabalhados por treinadores como os do programa Extreme Mustang Makeover demonstram capacidade de adestramento comparável a raças domésticas.

A genética: o que 8.500 cavalos revelaram

O maior estudo genético já realizado sobre mustangs analisou 8.500 cavalos de 235 rebanhos em 10 estados, coletados ao longo de mais de 20 anos. Os resultados, publicados em 2024, mostram um quadro mais complexo do que a narrativa do "cavalo espanhol da América".⁵

A variabilidade genética observada nos rebanhos ferais ficou ligeiramente abaixo da encontrada em raças domésticas, mas ainda retém diversidade. A variabilidade correlaciona-se com o tamanho do rebanho: rebanhos maiores têm mais diversidade. Rebanhos amostrados em múltiplos momentos ao longo de 20 anos não mostraram tendência clara de queda ou aumento de diversidade, indicando que as práticas de manejo atuais estão mantendo os níveis estáveis.⁵

Quanto à ancestralidade, a maioria dos rebanhos mostrou origem mista, com proximidade a raças norte-americanas como Quarto de Milha e Morgan. Apenas um punhado de rebanhos mostrou evidência de ancestralidade ibérica, e esses tendem a ser os mais isolados geograficamente.⁵
O que o estudo encontrou sobre a estrutura genéticaNão há estruturação geográfica clara entre os rebanhos em escala nacional. Há alguma tendência de rebanhos do mesmo estado serem mais similares entre si, mas isso pode refletir proximidade geográfica mais do que isolamento intencional. Os rebanhos de Nevada, que têm o maior número de HMAs, aparecem espalhados por várias partes do dendrograma de distância genética, não agrupados.

O Kiger: o rebanho com DNA espanhol

Em 1977, durante uma operação de captura no Condado de Harney, Oregon, agentes do BLM notaram um grupo de cavalos com coloração e conformação incomuns entre os animais reunidos. Foram separados e levados para testes genéticos na Universidade de Kentucky.⁶

Os resultados mostraram descendência direta dos cavalos espanhóis trazidos ao continente no século XVII, uma linhagem que se acreditava ter desaparecido completamente dos rebanhos ferais americanos. O BLM criou dois HMAs específicos para preservar esses animais na região de Steens Mountain: o Kiger HMA, com capacidade de 51 a 83 cavalos, e o Riddle Mountain HMA, com 33 a 56 cavalos.⁶

O garanhão fundador do rebanho, Mesteño, foi capturado na operação original de 1977 e devolvido ao Kiger HMA. Muitos dos Kigers modernos traçam sua linhagem até ele. A descendência ibérica aparece visivelmente: coloração dun dominante, listra dorsal, marcações zebradas nas pernas, perfil levemente côncavo herdado do Bérbere norte-africano, presentes nos cavalos espanhóis originais.⁶

Kigers capturados nas operações do BLM são muito mais valorizados no mercado de adoção do que mustangs de rebanhos comuns. No leilão de 2007, 106 animais foram adotados por US$ 100.206 no total, com os dois exemplares mais disputados alcançando US$ 7.800 e US$ 7.400 cada. Mustangs de outros rebanhos em Oregon podiam ser adotados por US$ 125.⁶

O personagem principal do filme animado Spirit: Stallion of the Cimarron (2002) foi baseado num Kiger chamado Donner, que vive no Return to Freedom American Wild Horse Sanctuary.⁶

A crise atual: mais mustangs em cativeiro do que soltos

Em março de 2025, o BLM estimava 53.797 cavalos livres nas terras públicas do oeste americano, o número mais baixo em quase uma década. O pico foi em 2020, com 95.114 animais. A redução de 23% em cinco anos é resultado de capturas intensificadas: entre 2020 e 2023, o BLM removeu cerca de 50.000 animais, quase o dobro dos 27.000 removidos nos quatro anos anteriores.²

O problema é que a taxa de adoção não acompanha a de captura. O BLM consegue colocar em lares privados entre 5.000 e 7.000 animais por ano, mas captura e remove o triplo disso em anos de operação intensa. Os animais sem adotante vão para instalações de detenção de curto e longo prazo. Em janeiro de 2025, o BLM mantinha cerca de 68.000 cavalos e burros nessas instalações, provavelmente mais animais em detenção do que soltos nas planícies.² ⁸

O custo de manter esses animais em detenção ultrapassa US$ 100 milhões por ano, representando cerca de dois terços do orçamento total do programa do BLM. Em 2014, o custo era de US$ 44 milhões; em 2024, chegou a US$ 109 milhões. Críticos do programa estimam que manter um único mustang em detenção por toda a vida pode custar até US$ 50.000 aos contribuintes americanos.² ⁸
O debate sobre o Nível de Manejo Adequado (AML)O BLM estabelece para cada HMA um AML, que é o número de animais que o terreno suporta. O AML total para todos os HMAs juntos é de 26.690 cavalos e burros. Com 53.797 cavalos soltos em março de 2025, a população livre é o dobro do AML. Organizações de defesa dos mustangs contestam a metodologia de cálculo do AML, argumentando que os números foram estabelecidos nos anos 1970 para favorecer o gado e não refletem a capacidade real do terreno. O debate entre criadores de gado, ambientalistas e defensores dos mustangs sobre a divisão das pastagens públicas continua sem resolução.

O debate sobre espécie nativa ou invasora

Uma das discussões mais complexas em torno do mustang é se ele deve ser classificado como espécie nativa reintroduzida ou como espécie invasora. O argumento da natividade baseia-se no fato de que o gênero Equus surgiu na América do Norte há 55 milhões de anos e foi extirpado no final do Pleistoceno, há cerca de 10.000 a 12.000 anos, quando chegaram os primeiros humanos ao continente. Os cavalos modernos reintroduzidos pelos espanhóis em 1493 seriam, nessa visão, uma reintrodução de uma linhagem próxima no mesmo nicho ecológico.¹

O contra-argumento, adotado pela Wildlife Society e pelo National Research Council em relatório de 2013, é que os ecossistemas mudaram profundamente nos 10.000 anos de ausência do cavalo, tornando o papel ecológico atual incomparável ao do animal pré-histórico. Além disso, não há continuidade genética direta entre os équidos extintos e os modernos.¹

Na prática, o debate define como o BLM prioriza o uso das pastagens públicas entre mustangs, gado bovino, ovino e vida selvagem nativa. Cada animal a menos representa mais espaço e forragem para as demais categorias de uso.¹

Cronologia

493Colombo traz cavalos espanhóis às Antilhas em sua segunda viagem. Os cavalos chegam ao continente com Cortés em 1519.
1598Juan de Oñate funda Santa Fe de Nuevo México com 75 cavalos. É o início da população autossustentável no sudoeste americano.
1680A Revolta Pueblo resulta no maior influxo único de cavalos nas mãos dos povos nativos. A dispersão para o norte acelera.
Séc. XIXEstimativas especulativas de 1 a 5 milhões de mustangs no oeste. Nenhum censo sistemático realizado.
1950Velma Johnston segue um caminhão de transporte até um matadouro em Nevada. Início da campanha que ficou conhecida como "Pencil War".
1959Wild Horse Annie Act proíbe o uso de aeronaves e veículos motorizados na captura de cavalos ferais e o envenenamento de fontes de água.
1971Wild Free-Roaming Horses and Burros Act, aprovado por unanimidade no Congresso. O BLM recebe a responsabilidade de gerir e proteger os rebanhos. População estimada em 17.300 cavalos.
1977O Kiger Mustang é descoberto numa operação de captura do BLM no Oregon. O DNA confirma descendência dos cavalos espanhóis do século XVII. Wild Horse Annie morre em 27 de junho.
2020Pico histórico: 95.114 cavalos e burros livres nas terras públicas americanas.
Mar. 202553.797 cavalos livres nas terras do BLM, redução de 23% em cinco anos. Cerca de 68.000 em detenção. Custo do programa: mais de US$ 100 milhões/ano.

Curiosidades

Hoje há mais mustangs presos do que soltosEm janeiro de 2025, o BLM mantinha cerca de 68.000 cavalos e burros em instalações de detenção, contra 53.797 animais livres nas planícies em março do mesmo ano. É a primeira vez na história moderna em que o número de mustangs em cativeiro supera o de animais livres nas terras públicas.
O apelido que não funcionou como insulto"Wild Horse Annie" foi cunhado por um funcionário do governo que queria diminuir Velma Johnston e sua campanha. O nome tornou-se símbolo da luta pelos mustangs e é hoje reconhecido em toda a história ambiental americana. Johnston morreu em 1977, seis anos após ver a principal lei que defendeu ser aprovada por unanimidade no Congresso.
O Kiger que Hollywood usou como modeloO personagem principal do filme Spirit: Stallion of the Cimarron (2002) foi baseado num Kiger Mustang chamado Donner, que mora no Return to Freedom American Wild Horse Sanctuary. O garanhão fundador do rebanho Kiger, Mesteño, foi o modelo para uma série de bonecos da Breyer Horses, da fase potro à velhice: a primeira vez que a empresa lançou uma série mostrando o mesmo cavalo em diferentes idades.
Manter um mustang preso custa até US$ 50.000O custo estimado de manter um único mustang em detenção por toda a vida é de até US$ 50.000 aos contribuintes americanos. Com 68.000 animais em detenção, o custo total acumulado potencial supera US$ 3 bilhões. O debate sobre o que fazer com esses animais, eutanásia, venda, ou manutenção indefinida, é um dos mais politicamente sensíveis em torno do programa.
O Nevada tem mais da metade de todos os mustangs livresMais de metade de todos os mustangs livres dos Estados Unidos está em Nevada, que inclusive colocou o animal na sua moeda comemorativa de 25 centavos (o State Quarter). Os outros estados com populações significativas são Califórnia, Oregon, Utah, Montana e Wyoming.
Dois rebanhos em Nevada produzem Bashkir CurlysDois HMAs no centro de Nevada produzem cavalos com pelagem encaracolada, geneticamente relacionados ao Bashkir Curly doméstico. É um dos casos documentados de como raças e características específicas chegaram aos rebanhos ferais: por cavalos escapados ou soltos por fazendeiros ao longo do século XX.

O papel cultural

Em 1971, ao aprovar a lei de proteção por unanimidade nas duas casas, o Congresso americano fez algo raro: deu a um animal uma definição legal de identidade nacional. Chamou os mustangs de "símbolos vivos do espírito histórico e pioneiro do Oeste". Não era linguagem técnica de gestão de recursos naturais. Era uma declaração sobre o que o país quer ser.³

A presença do mustang na cultura americana vai além da lei. Nevada, o estado com mais cavalos ferais do país, colocou o animal na sua moeda comemorativa de 25 centavos emitida pelo programa State Quarter. É o único animal de uma raça equina a aparecer em moeda americana de circulação regular.¹

Em 1964, a Ford lançou o Mustang, batizado explicitamente em homenagem ao cavalo feral. Tornou-se um dos carros mais vendidos da história americana e transformou o mustang num símbolo duplo: liberdade nos campos e liberdade nas estradas. O nome voltou a circular em 1966 com o utilitário Ford Bronco, bronco sendo o termo americano para cavalos difíceis de domar, e em caminhões como o Ford Maverick, cujo nome deriva do criador de gado Samuel Maverick, que não marcava seus animais, tornando-os sinônimo de criaturas livres.¹

Na ficção, o mustang ocupou o centro de filmes e literatura ao longo do século XX. O último filme protagonizado por Clark Gable e Marilyn Monroe, The Misfits (1961), com roteiro de Arthur Miller, retratou diretamente o tipo de captura brutal que Wild Horse Annie havia protestado. O filme animado Spirit: Stallion of the Cimarron (2002), baseado num Kiger real chamado Donner, apresentou o animal a uma geração inteira de crianças em todo o mundo.

Esse peso cultural cria uma tensão permanente: o mustang é, ao mesmo tempo, símbolo de liberdade americana e problema de gestão de recursos públicos. Essa contradição está no centro de um dos debates ambientais mais longos dos Estados Unidos, sem perspectiva de resolução.¹ ²

O mustang no Brasil

O mustang não tem associação de criadores registrada no Brasil nem stud book nacional. Os animais presentes no país chegaram por importação individual dos Estados Unidos, em número pequeno e sem dado verificável sobre o plantel total.⁹

Para importar um mustang dos EUA, o comprador precisa adotar o animal junto ao BLM ou adquiri-lo de criadores privados americanos, arcar com transporte internacional, quarentena e taxas de importação. O preço no mercado brasileiro varia amplamente: animais sem treinamento ficam entre R$ 5.000 e R$ 15.000; exemplares treinados ou de linhagem documentada, como Kigers, podem ultrapassar R$ 30.000. Parte do que é anunciado no Brasil como "mustang" são cavalos sem procedência verificável, sem registro no BLM nem DNA comprovando ancestralidade feral.

A pelagem preta existe na raça e é aceita, mas é menos comum do que alazão, baio e dun. Mustangs pretos autênticos com procedência documentada são mais difíceis de encontrar no mercado brasileiro e tendem a ter preço mais alto por conta da raridade e da demanda estética.

Ficha técnica

NomeMustang (do espanhol mesteño/mestengo, "animal errante de dono incerto")
ClassificaçãoFeral (doméstico que voltou à vida livre), não selvagem
OrigemCavalos ibéricos trazidos pelos espanhóis a partir de 1493. Ancestralidade colonial espanhola + raças domésticas diversas incorporadas ao longo dos séculos.
Distribuição10 estados do oeste americano. Nevada concentra mais de 50% da população livre.
HMAs177 Herd Management Areas administradas pelo BLM em 26,9 milhões de acres
População livre53.797 cavalos (março 2025). Pico: 95.114 em 2020.
Em detenção~68.000 (janeiro 2025)
AlturaGeralmente 14 a 15 palmos (1,42 a 1,52 m)
LegislaçãoWild Horse Annie Act (1959) · Wild Free-Roaming Horses and Burros Act (1971)
Gestão federalBureau of Land Management (BLM) e USDA Forest Service
Rebanho com DNA ibéricoKiger Mustang (Oregon) · Pryor Mountain Mustang (Montana/Wyoming) · Cerbat Mustang (Arizona)
Custo do programa+US$ 100 milhões/ano (2024), dos quais ~2/3 com detenção
Como funciona a adoção de mustangs nos EUA?

O BLM captura cavalos excedentes e os oferece para adoção. Qualquer pessoa pode se candidatar demonstrando instalações adequadas. O custo histórico era de US$ 125 por animal. Em 2019, diante da superpopulação nas instalações de detenção, o BLM chegou a pagar US$ 1.000 a quem adotasse, o Adoption Incentive Program. O programa foi encerrado por ordem judicial em 3 de março de 2025. O adotante mantém o cavalo sob proteção federal por um ano; após esse período pode requerer o título definitivo. Animais treinados pelo Extreme Mustang Makeover, que dá 100 dias a treinadores voluntários, alcançam preços maiores em leilão: no Kiger de 2007, dois exemplares foram por US$ 7.800 e US$ 7.400 cada.⁹

Qual o preço de um mustang no Brasil e como chega aqui?

Não há importação direta pelo BLM. O caminho é adotar nos EUA e arcar com transporte internacional, quarentena e taxas de importação, ou comprar de criadores privados americanos com animais já documentados. No mercado brasileiro, animais sem treinamento ficam entre R$ 5.000 e R$ 15.000; exemplares treinados ou de linhagem Kiger documentada podem ultrapassar R$ 30.000. Parte do que circula no mercado informal como "mustang" não tem procedência verificável junto ao BLM.⁹

O cavalo mustang pode ser domado?

Sim. O programa Extreme Mustang Makeover documenta isso regularmente: em 100 dias, treinadores preparam animais para competições de adestramento, salto e trabalho com gado. Mustangs capturados jovens se adaptam melhor. O temperamento varia entre rebanhos, com alguns mais reativos. Não é adequado para cavaleiros sem experiência, mas não é mais difícil que trabalhar com raças domésticas de temperamento forte.⁹

O cavalo mustang preto existe? É raro?

Existe e é aceito na raça, mas não é a pelagem mais comum. Alazão, baio e dun predominam, especialmente nos rebanhos com mais ancestralidade ibérica. Mustangs pretos com procedência documentada pelo BLM são mais difíceis de encontrar no Brasil e tendem a custar mais pela demanda estética.¹

Existe mustang no Brasil?

Sim, mas em número pequeno e sem associação de criadores registrada. Os animais chegam por importação individual dos EUA. Não há dado verificável sobre o plantel total no país. O mustang não tem stud book nacional nem reconhecimento oficial de raça no Brasil.⁹

Fontes

  1. Wikipedia. Mustang (horse). Consultado em abril de 2026. Baseado em: Hendricks, Bonnie L. International Encyclopedia of Horse Breeds. University of Oklahoma Press, 2007; Bennett, Deb. Conquerors: The Roots of New World Horsemanship. Amigo Publications, 1998; Dobie, J. Frank. The Mustangs. Little, Brown and Company, 1952.
  2. E&E News / POLITICO. BLM ramped up wild horse removals. Costs soared. 27 mar. 2025. Baseado em dados oficiais do BLM.
  3. Bureau of Land Management (BLM). History of the Program: The Wild Horse Annie Act. Disponível em: blm.gov.
  4. Wikipedia. Velma Bronn Johnston. Consultado em abril de 2026. Baseado em: Kania, Alan J. Wild Horse Annie: Velma Johnston and Her Fight to Save the Mustang. University of Nevada Press, 2012; Cruise, David; Griffiths, Alison. Wild Horse Annie and the Last of the Mustangs. Simon & Schuster, 2010.
  5. Cothran, E.G. et al. Genetic Dynamics of Mustang and Feral Horse Populations in the Western United States. bioRxiv, 2024. Estudo com 8.500 cavalos de 235 rebanhos em 10 estados, financiado pelo BLM desde 1992.
  6. Wikipedia. Kiger mustang. Consultado em abril de 2026. Inclui dados do BLM e da Universidade de Kentucky sobre testes genéticos.
  7. Bureau of Land Management (BLM). 2024 Wild Horse and Burro Population Estimates. Press Release, 25 mar. 2024. Disponível em: blm.gov.
  8. Bureau of Land Management (BLM). Program Data: Wild Horse and Burro. Estimativas de março de 2025. Disponível em: blm.gov.
  9. Mustang Heritage Foundation. History of Wild Horses & Burros. Disponível em: mustangheritagefoundation.org.
André Ferreira

André Ferreira

André é o responsável atual pela condução editorial e estratégica do Multicavalos, um portal voltado ao universo equestre. Entusiasta do ramo, André dedica-se ao estudo e à observação do setor, buscando compreender suas práticas, rotinas, desafios e evoluções.