A história do Przewalski em Chernobyl começa em 1998, quando o Instituto Biosphere Reserve Askania Nova, na Ucrânia, lançou um programa para estabelecer uma população em vida livre na Zona de Exclusão. Em 1998 e 1999, 31 animais foram transferidos para a zona: 10 machos e 18 fêmeas de Askania Nova e 3 machos de um zoológico local. A escolha do local não foi aleatória: com a evacuação humana de 1986, a Zona de Exclusão havia se tornado, acidentalmente, uma das maiores reservas naturais da Europa.¹⁴ ¹⁵
Os primeiros anos foram promissores. Apesar de oito animais morrerem durante o transporte ou logo após, os sobreviventes formaram grupos familiares e começaram a se reproduzir. A população cresceu de forma consistente, atingindo o pico de 65 animais em 2003–2004, com 22 potros nascidos só em 2003 e taxa de sobrevivência dos filhotes abaixo de dois anos de 91,3%.¹⁵
Então veio a crise. Entre 2004 e 2006, a caça furtiva dizimou a população. A taxa de mortalidade, que havia sido de 13,7% nos primeiros cinco anos, saltou para 47,4%. Mais de 70% das mortes com causa determinada foram resultado de caça ilegal. Em 2007, restavam apenas 30 a 40 animais. A perda não era só numérica: com a morte de descendentes de primeira e segunda geração dos fundadores, parte da diversidade genética já conquistada foi perdida para sempre.¹⁵
Medidas de proteção intensificadas reverteram o declínio. O censo de 2018 encontrou cerca de 150 indivíduos no lado ucraniano da zona, organizados em 13 grupos de harém com potros, 6 grupos de machos solteiros e alguns solitários. Naquele ano, pelo menos 22 potros nasceram.¹⁴
As câmeras ocultas instaladas pela pesquisa revelaram adaptações inesperadas. Os cavalos passaram a usar barracões e casas abandonadas como abrigo contra o tempo e insetos, chegando a passar mais de cinco horas consecutivas dentro de estruturas. Frequentam regularmente a chamada Floresta Vermelha, uma das áreas mais radioativas do planeta. Estudo publicado em 2025 na revista Scientific Horizons identificou cinco grupos de harém ativos na zona em 2023 e estimou que a área pode oferecer 350 km² adicionais de habitat à medida que a sucessão vegetal avança.¹⁶ ¹⁷
A guerra trouxe novos problemas. A invasão russa de 2022 levou tropas pela zona de exclusão, perturbou a pesquisa de campo e contaminou ainda mais o solo já radioativo com explosivos e minas. Em junho de 2025, um Przewalski morreu por mina terrestre na zona, o primeiro registro confirmado desse tipo de morte na população.¹⁷