Cavalos e Suas Origens: Bashkir Curly — O Cavalo de Nevada que Perde a Crina no Verão

Conheça o Bashkir Curly, o cavalo de Nevada que perde a crina no verão. Entenda a genética dos cachos, o erro da origem russa e sua hipoalergenicidade.

Cavalos e Suas Origens: Bashkir Curly — O Cavalo de Nevada que Perde a Crina no Verão
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O nome é questionado pela ciência, a origem permanece desconhecida e a genética dos cachos só foi explicada em 2018. O que se sabe com segurança é o que se vê: pelos encaracolados, cílios torcidos, crina que cai no verão e renasce no inverno, e uma resistência ao frio que, no Nevada de 1951-52, fez todos os outros cavalos do rancho precisarem de alimentação suplementar enquanto os Curly sobreviveram sozinhos na pastagem.
1898Primeiro avistamento documentado
1971Registro oficial ABCR
~50%Transmissão dos cachos por progenitor Curly

O debate sobre a nomenclatura

O nome "Bashkir Curly" vem de uma fotografia publicada pela revista Nature Magazine em 1938, mostrando um cavalo cacheado da região russa de Bashkiria. A imagem foi reproduzida num cartoon de John Hix e associou, sem evidência, os cavalos cacheados americanos aos Bashkirs russos.¹ ⁹

Décadas de pesquisa derrubaram essa origem. A autora Shan Thomas, em consultas com cientistas russos, com o departamento de agricultura soviético e com o Zoológico de Moscou, encontrou concordância unânime: não existe cavalo de pelo encaracolado na região da Bashkiria. O único equino russo que ocasionalmente apresenta pelagem crespa é o Lokai, encontrado no Tajiquistão, raça de tração e montaria da Ásia Central, geneticamente distante dos Bashkirs. Não há registro de importação do Lokai para a América do Norte nos diários de bordo dos navios russos que chegaram à costa oeste.⁹

Em 1817, havia apenas 16 cavalos em toda a América Russa. Os poucos animais transportados para o Alasca eram Iacutos, raça siberiana adaptada ao frio extremo, geneticamente distante dos Bashkirs. Em 1990, um projeto de identificação formal confirmou o que as pesquisas históricas já indicavam: o cavalo Bashkir russo não é ancestral do Curly americano. O nome permaneceu por inércia vocabular, não por evidência.¹ ⁹

Uma terceira teoria sugere que os ancestrais do Curly tenham cruzado a ponte de Bering durante a última Era Glacial, migrando da Ásia para a América. O problema: não existe evidência fóssil de cavalos nas Américas nesse período. O registro fóssil mostra ausência de equinos no continente desde o final do Pleistoceno, que foi o período geológico entre 2,6 milhões e 11.700 anos atrás, até a reintrodução pelos espanhóis no século XVI.¹

A origem do Bashkir Curly permanece, oficialmente, sem resposta..
O que a genética confirmaTestes de tipagem sanguínea em 200 exemplares realizados pelo Laboratório de Sorologia da UC Davis encontraram influência genética de Quarto de Milha e Morgan, mas nenhum marcador comum que definisse o Bashkir Curly como uma raça geneticamente distinta. O que os estudos de DNA mais recentes confirmaram é que cavalos norte-americanos de pelagem cacheada compartilham uma mutação dominante comum, o que justifica classificá-los como raça distinta sem, no entanto, revelar sua origem.

O início documentado: a família Damele

Em 1898, o jovem Peter Damele e seu pai cavalgavam pela Cordilheira Peter Hanson, nas montanhas remotas do centro de Nevada, perto de Austin. O que viram os surpreendeu: três cavalos com cachos apertados cobrindo o corpo inteiro. De onde tinham vindo, ninguém sabia.¹ ²

Daquele dia em diante, sempre houve cavalos cacheados na propriedade Damele. O filho de Peter, Benny Damele, continuou criando-os para o trabalho no rancho, selecionando especificamente pela resistência e pelo temperamento. Durante décadas, os animais foram testados nas condições reais do Great Basin, a bacia hidrográfica interna do oeste americano entre as Montanhas Rochosas e a Serra Nevada, caracterizada por altitude, clima árido e invernos extremos. Grande parte dos Bashkir Curly registrados hoje nos Estados Unidos traça sua linhagem até esse plantel.¹ ⁷

O nome "Bashkir" já estava circulando na imprensa equina quando, em 1971, os fundadores do American Bashkir Curly Registry, o ABCR, decidiram adotá-lo. Não por acreditarem na origem russa, mas porque já estava estabelecido no vocabulário dos criadores. O objetivo do ABCR era salvar os animais da extinção: muitos estavam sendo abatidos por desconhecimento, sem que seus donos percebessem o que tinham.¹ ⁷

Como é o Bashkir Curly

O Bashkir Curly é um cavalo de porte médio, em torno de 1,52 m. Sua conformação é compacta e robusta, frequentemente comparada aos primeiros Morgans americanos. Os cascos são escuros, quase perfeitamente redondos e excepcionalmente duros. 

Os olhos são afastados, característica comum a raças orientais, o que amplia o campo de visão. Os potros nascem com pelagem espessa e encaracolada, cachos dentro das orelhas e cílios torcidos.¹ ²

Altura~1,52 m; varia conforme a linhagem.
PelagemQualquer cor sólida. Padrões Appaloosa e Pinto também ocorrem.
CascosEscuros, redondos e excepcionalmente duros.
OlhosAfastados, ampliando o campo de visão lateral.
CorpoDorso curto, cilhadouro profundo, garupa plana, flancos profundos.
MembrosOssatura pesada, canelas curtas, cascos densos e redondos.
TemperamentoDócil e cooperativo. Adapta-se rapidamente ao treinamento, característica herdada das décadas de seleção da família Damele para o trabalho no rancho.

A pelagem: três tipos de cachos e uma sazonalidade incomum

A pelagem do Bashkir Curly não é uniforme. Varia entre animais e entre estações. No inverno, os cachos podem assumir três padrões distintos.¹ ² ⁷

Efeito veludoPelos macios e densos formando um tapete suave sobre o corpo. O padrão mais discreto dos três.
Onda marmorizadaCachos amplos e regulares, visíveis em ondas ao longo do corpo.
RingletsCachos em espiral cobrindo o corpo inteiro. O padrão mais expressivo e o mais comum nos animais da linhagem Damele.

No verão, os pelos do corpo perdem os cachos e ficam lisos ou levemente ondulados. A crina é o aspecto mais incomum: muitos Curly perdem completamente os pelos da juba durante o verão, e às vezes parte da cauda também. Os fios crescem de volta no outono. Acredita-se que esse mecanismo seja uma adaptação: a crina encaracolada em espiral ficaria completamente emaranhada ao longo dos anos se não caísse periodicamente. Os pelos que retornam são finos, macios e muito cacheados.¹ ² ⁷

Os pelos das canelas são cacheados ou ondulados e mantêm o comprimento o ano inteiro. Os cílios são sempre enrolados, mesmo em potros recém-nascidos, antes de qualquer outra característica da raça se manifestar.²


Como identificar se um potro herdou os cachos

Como a mutação cacheada é dominante, qualquer potro que herde uma cópia do gene vai expressar a pelagem. Não existe portador silencioso. Isso simplifica a identificação, mas exige atenção às pistas certas logo ao nascimento.³ ⁶

Os indicadores mais precoces e confiáveis são os cílios torcidos e os pelos encaracolados dentro das orelhas, presentes desde o primeiro dia de vida, antes mesmo que a pelagem do corpo esteja totalmente seca. Potros com a mutação KRT25 tendem a apresentar cachos em espiral visíveis já nas primeiras semanas. Potros com SP6 podem ter cachos mais suaves e definir melhor o padrão ao longo do primeiro inverno.³ ⁶

Um potro liso nascido de pais Curly cruzados com outra raça provavelmente não herdou a mutação. Como a transmissão é de aproximadamente 50% por progenitor Curly, metade da ninhada esperada de cruzamentos com cavalos lisos não terá cachos. Isso é normal e não indica problema de saúde.³

A genética dos cachos: KRT25 e SP6

Durante décadas, debateu-se se a pelagem cacheada era dominante ou recessiva. A resposta veio em 2018, publicada no Scientific Reports (Nature) por pesquisadores da Universidade de Medicina Veterinária de Hannover: existem duas mutações dominantes distintas, em genes diferentes, que produzem pelagem cacheada em cavalos.³

Mutação KRT25

Responsável pela maioria dos casos na raça Bashkir Curly americana, especialmente no plantel Damele e suas derivações, chamadas linhagens Native e Warrior pelo ABCR. Cavalos com uma ou duas cópias da mutação apresentam pelagem cacheada e hipotricose, que é a perda de pelos na juba e cauda em grau variável. A mutação KRT25 afeta a estrutura das proteínas de queratina nos folículos capilares. Quando presente junto à mutação SP6, o gene KRT25 prevalece sobre o SP6, fenômeno genético conhecido como epistasia.³ ⁴ ⁶

Mutação SP6

Mais frequente em outras raças cacheadas, como o Missouri Fox Trotter. Nos Curly, é associada principalmente à linhagem "Curly Jim", um cavalo de marcha de origem desconhecida registrado no Tennessee, que se tornou base de uma linha genética distinta dentro da raça. Cavalos com SP6 sem KRT25 apresentam pelagem cacheada sem hipotricose: a juba e a cauda se mantêm, embora com textura diferente. A mutação SP6 afeta como as proteínas do cabelo são produzidas e estruturadas.³ ⁶ ⁷

O que esse estudo confirmou de forma definitiva: a pelagem cacheada não é única, surge de mutações independentes em populações distintas. Isso significa que cavalos cacheados em diferentes partes do mundo não são necessariamente parentes. Representações de cavalos com pelagem cacheada já aparecem em arte chinesa do século II d.C., e relatos sul-americanos do século XVIII também descrevem animais com essa característica. A mutação pode ter surgido mais de uma vez, em diferentes momentos, em diferentes populações.³

Hipoalergenicidade: o que a ciência diz

O Bashkir Curly é amplamente descrito como "hipoalergênico", e essa é uma das principais razões pelas quais a raça atrai cavaleiros que sofriam de alergia e achavam que nunca poderiam montar. A realidade é mais complexa.⁵

Um estudo observacional com 40 cavaleiros alérgicos acompanhou os participantes por 12 meses montando Curly Horses. 37 dos 40 não apresentaram reações alérgicas significativas. Por outro lado, análises de amostras de pelo e de ar ao redor dos animais encontraram níveis de alérgenos similares aos de outras raças, o que sugere que a tolerância não vem de menos alérgeno no ambiente.⁵

Um estudo mais recente, publicado em 2024 na revista Pneumologie (Mitlehner et al.), trouxe uma hipótese mais sofisticada: os Curly podem não ter menos alérgenos, mas podem mediar tolerância imunológica. Ou seja, a exposição a eles pode, em certos indivíduos, treinar o sistema imune a reagir de forma diferente. Esse mecanismo, se confirmado em estudos maiores, explicaria por que muitas pessoas alérgicas toleram os Curly sem que os níveis de alérgeno sejam menores.⁵

O consenso atual: alguns cavaleiros alérgicos toleram bem os Curly; outros não. Não é uma garantia universal. Quem tem alergia severa deve fazer contato supervisionado antes de adquirir um animal.⁵

O Bashkir Curly no Brasil

A raça é praticamente ausente no Brasil. Não existe registro formal de plantel ou associação de criadores do Bashkir Curly no país, e os poucos animais presentes foram importados individualmente, geralmente por cavaleiros com restrição alérgica que buscaram a raça por indicação médica ou por afinidade com a característica estética.⁸

O clima brasileiro apresenta desafios específicos para a raça. O Bashkir Curly foi selecionado para invernos rigorosos do Great Basin americano, ambiente de altitude, seco e de frio intenso. Em regiões tropicais e subtropicais, a pelagem espessa exige manejo diferenciado nos meses mais quentes, com atenção à ventilação, banhos regulares e prevenção de irritações de pele causadas pela umidade retida nos cachos. Em regiões de altitude no sul do país, a adaptação tende a ser mais natural.

Para criadores interessados, o contato direto com o American Bashkir Curly Registry (ABCR) ou com a International Curly Horse Organization (ICHO) é o caminho para informações sobre importação, registro e genealogia de animais disponíveis nos Estados Unidos.⁷

Saúde e manejo

O Bashkir Curly é considerado uma raça saudável e rústica. Seu metabolismo eficiente, herança das gerações ferais no árido Great Basin, o torna um easy keeper, termo que descreve cavalos que mantêm peso e condição corporal com menor quantidade de alimento do que outras raças. Engorda com facilidade em pastagens ricas e requer controle de dieta similar ao do Haflinger e do Fjord. Laminite por superalimentação é o principal risco metabólico.² ⁶

HipotricoseAnimais com a mutação KRT25 podem desenvolver perda de pelos na juba e cauda em grau variável. Não é uma doença, é uma expressão da própria mutação responsável pelos cachos.
HYPP e PSSMAnimais com linhagens de Quarto de Milha no pedigree devem ser testados para HYPP (Hyperkalemic Periodic Paralysis, paralisia periódica hipercalêmica) e PSSM (Polysaccharide Storage Myopathy, miopatia de armazenamento de polissacarídeos), condições musculares hereditárias comuns nessa raça.
Atrofia cerebelarLinhagens com sangue Árabe devem ser avaliadas para atrofia cerebelar (CA), condição neurológica progressiva. Um estudo identificou 2,8% de portadores da mutação associada em Curly testados.
Pele e pelagemA pelagem espessa pode acumular umidade e detritos, aumentando o risco de irritações de pele se a escovação for negligenciada. Nos períodos de muda, a pele exposta fica mais vulnerável a insetos e à radiação solar.

Usos e aptidões

O Bashkir Curly é versátil, adequado tanto para disciplinas ocidentais quanto inglesas. A facilidade de treinamento e o temperamento calmo o tornam especialmente valioso em equoterapia e hipoterapia, e a possível tolerância imunológica o abre para cavaleiros que de outra forma não poderiam interagir com cavalos.² ⁷

Disciplinas documentadas: western pleasure, barrel racing (prova de velocidade em torno de barris), reining, trabalho com laço, adestramento, salto, hunter, trilha de resistência, condução e gymkhana (conjunto de provas de habilidade e velocidade montada). A versatilidade não é acidental: o plantel Damele selecionou por décadas animais capazes de trabalhar longas jornadas em terreno acidentado, e essa base rústica persiste no tipo moderno.¹ ²

Curiosidades

A crina que renasceMuitos animais perdem a juba completamente no verão para evitar o emaranhamento dos cachos, recuperando-a no outono. É uma adaptação que não tem paralelo documentado em outras raças equinas. Os pelos que crescem de volta são finos, macios e muito cacheados.
Cílios enrolados desde o nascimentoOs potros nascem com cílios encaracolados e pelos enrolados dentro das orelhas. São os indicadores mais seguros da genética da raça, visíveis antes mesmo que a pelagem do corpo esteja totalmente seca.
Sem ergots em muitos indivíduosMuitos Bashkir Curly não possuem ou têm reduzidos os ergots, que são os calos córneos atrás do boleto. Esse traço é comum em raças consideradas primitivas ou de pouca intervenção seletiva humana, como o Przewalski.
Transmissão de 50%, mesmo cruzado com lisosA mutação cacheada é dominante: basta uma cópia para expressar a pelagem. Cruzar um Curly com um cavalo de pelo liso produz, em média, 50% de potros cacheados. A raça transmite sua característica mais marcante sem necessidade de seleção intensiva.
Cachos na arte chinesa do século II d.C.Representações de cavalos com pelagem cacheada aparecem em arte chinesa de aproximadamente dois mil anos atrás. Relatos de cavalos cacheados nas Américas do Sul datam do século XVIII. A mutação para pelos encaracolados parece ter surgido independentemente em diferentes populações ao longo da história equina, o que torna ainda mais difícil rastrear a origem dos Curly americanos.
O inverno de 1951-52 que provou a resistênciaNo inverno mais severo registrado no rancho da família Damele no Nevada, todos os outros cavalos precisaram de alimentação suplementar para sobreviver. Os Curly sobreviveram sozinhos na pastagem. Esse episódio, documentado pela família, é a evidência mais citada da resistência excepcional da raça ao frio extremo.

Ficha técnica

Nome oficialAmerican Bashkir Curly Horse, também chamado North American Curly, American Curly, Curly Horse
OrigemGreat Basin, oeste americano (Nevada e entorno). Origem ancestral desconhecida.
Primeiro registro1898 · Peter Damele, Peter Hanson Mountain Range, Nevada
Registro oficialAmerican Bashkir Curly Registry (ABCR), fundado em 1971
Status populacionalRaro
Altura média~1,52 m
PelagemQualquer cor sólida. Appaloosa e Pinto também ocorrem.
Genes identificadoresKRT25 (dominante, com hipotricose) e SP6 (dominante, sem hipotricose)
Transmissão dos cachos~50% dos descendentes, mesmo cruzado com cavalos de pelo liso
Origem do nomeFoto de um cavalo russo cacheado publicada em 1938. Sem vínculo genético confirmado com a raça russa.
O Bashkir Curly realmente veio da Rússia?

Não há evidência que sustente essa origem. O nome foi associado à raça depois de uma fotografia publicada em 1938 mostrar um cavalo cacheado russo. Pesquisas históricas e genéticas descartaram a ligação: não existem registros de cavalos cacheados na Bashkiria nem de importação de tais animais para a América. Em 1990, um projeto de identificação formal confirmou que o cavalo Bashkir russo não é ancestral do Curly americano. O nome se manteve pelo uso contínuo entre criadores.¹ ⁹

O Curly perde os pelos da crina todos os anos?

Muitos perdem, especialmente os que carregam a mutação KRT25. A perda pode ser completa (toda a crina e parte da cauda desaparecem no verão) ou parcial. Isso é normal para a raça e considerado uma adaptação evolutiva. Os pelos crescem de volta no outono. Animais com apenas a mutação SP6 tendem a manter a crina com mais volume ao longo do ano.³ ⁶ ⁷

O Bashkir Curly é hipoalergênico?

Parcialmente confirmado, mas não garantido para todos. Estudos mostram que muitos cavaleiros com alergia a cavalos toleram bem os Curly, e uma pesquisa de 2024 propôs que os animais podem mediar tolerância imunológica. Análises de amostras de pelo e ar encontraram níveis de alérgenos similares a outras raças. Quem tem alergia deve fazer contato supervisionado antes de adquirir um animal.⁵

Todo cavalo cacheado é um Bashkir Curly?

Não. A pelagem cacheada pode surgir de mutações independentes em diferentes populações equinas. Existe pelo menos uma outra mutação documentada (SP6) que produz cachos sem hipotricose e aparece com maior frequência no Missouri Fox Trotter. Cavalos cacheados registrados com o ABCR são considerados Bashkir Curly. Cavalos cacheados de outras origens podem ter pelagem similar sem compartilhar ancestralidade.³

Como saber se um potro herdou os cachos?

Os indicadores mais precoces são os cílios torcidos e os pelos encaracolados dentro das orelhas, visíveis nas primeiras horas de vida. Como a mutação é dominante, qualquer potro que herda uma cópia do gene a expressa. Potros nascidos lisos de um progenitor Curly simplesmente não herdaram a mutação naquela geração, o que é estatisticamente esperado em aproximadamente metade dos cruzamentos.³ ⁶

O Curly tem problemas de saúde específicos?

Sim, dependendo da linhagem. Animais com KRT25 podem desenvolver hipotricose em grau variável. Linhagens com Quarto de Milha devem ser testadas para HYPP e PSSM. Uma pequena porcentagem dos Curly testados (2,8% num estudo) carregava a mutação de atrofia cerebelar associada principalmente a Árabes. A pelagem espessa pode acumular umidade e causar irritações de pele sem escovação adequada.² ⁶

O Curly serve para equoterapia?

É um dos cavalos mais indicados, por dois motivos que se somam: temperamento calmo e disposto, que facilita o trabalho com pacientes de diferentes perfis; e a possível tolerância imunológica que permite que cavaleiros alérgicos participem de programas terapêuticos. Essa combinação é rara no mundo equino.² ⁵ ⁷

Fontes

  1. Oklahoma State University. Breeds of Livestock — Bashkir Curly Horses. Disponível em: breeds.okstate.edu. Consultado em março de 2026.
  2. MadBarn. American Bashkir Curly Horse Breed Guide: Characteristics, Health & Nutrition. Disponível em: madbarn.com. Consultado em março de 2026.
  3. Thomer, A. et al. "An epistatic effect of KRT25 on SP6 is involved in curly coat in horses." Scientific Reports, 8:6374, 2018. DOI: 10.1038/s41598-018-24865-3. PubMed PMID: 29686323.
  4. Morgenthaler, C. et al. "A missense variant in the coil1A domain of the keratin 25 gene is associated with the dominant curly hair coat trait (Crd) in horse." Genetics Selection Evolution, 49:85, 2017. PubMed PMID: 29141579.
  5. Mitlehner, A.; Mitlehner, C.; Reißmann, M. et al. "Horse allergy: Curly Horses can mediate immune tolerance." Pneumologie, 78:47–57, 2024. PubMed PMID: 37827498.
  6. Laboratório de Genética Veterinária (labgenvet.ca). Curly coat (KRT25, SP6-related). Consultado em março de 2026.
  7. American Bashkir Curly Horse Registry (ABCR) / International Curly Horse Organization (ICHO). Curly Coat Genes e linhagens (Damele/Native/Warrior e Curly Jim). Disponível em: ichocurlyhorses.com. Consultado em março de 2026.
  8. CompreRural. Conheça o Bashkir Curly, o cavalo de cachos dourados que ninguém sabe de onde veio. comprerural.com. Consultado em março de 2026.
  9. Thomas, Shan. The Curly Horse in America — Myth and Mystery. Referenciado em Oklahoma State University Breeds of Livestock e MadBarn. Pesquisa histórica sobre origem russa e análise com especialistas soviéticos.
André Ferreira

André Ferreira

André é o responsável atual pela condução editorial e estratégica do Multicavalos, um portal voltado ao universo equestre. Entusiasta do ramo, André dedica-se ao estudo e à observação do setor, buscando compreender suas práticas, rotinas, desafios e evoluções.