Cavalos e Suas Origens: Dales Pony — O Pônei das Minas de Chumbo que Virou um dos Melhores Pôneis de Trabalho da Grã-Bretanha

O Dales Pony trabalhou nas minas dos Pennines por séculos e serviu nas duas guerras mundiais. Uma das raças mais resistentes da Grã-Bretanha.

Cavalos e Suas Origens: Dales Pony — O Pônei das Minas de Chumbo que Virou um dos Melhores Pôneis de Trabalho da Grã-Bretanha
Dales Pony preto em apresentação em mão — a ação alta e reta dos membros é uma das características mais valorizadas no padrão racial da raça. Foto: The Dales Pony Society
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Nas colinas do norte da Inglaterra, as minas de chumbo dos Pennines precisavam de um animal que carregasse o mineral extraído das alturas até os portos da costa nordeste. O Dales Pony fez esse trabalho por séculos: 110 quilos de carga, grupos de até 20 animais, 160 quilômetros por semana em terreno acidentado. Quando as minas fecharam, o Exército britânico comprou mais de 200 para as guerras. Hoje restam menos de 500 no mundo.
110 kgCarga por animal nas minas
<500Animais vivos no mundo (2025)
PriorityClassificação RBST de risco
O Dales Pony é uma raça equina nativa das encostas orientais dos Pennines, a cadeia de montanhas que atravessa o norte da Inglaterra de sul a norte. É o maior dos cinco pôneis nativos de montanha e moorland, o termo britânico para as pastagens abertas de charneca, do Reino Unido. Desenvolvido ao longo de séculos nas minas de chumbo da região, é reconhecido pela solidez, resistência e pela ação alta e reta dos membros.¹ ²

A raça é classificada como priority, a categoria de maior risco, pelo RBST, o Rare Breeds Survival Trust, organização britânica de conservação de raças raras, desde 2015. Há menos de 300 éguas reprodutoras no Reino Unido e a população global é estimada em menos de 500 animais pela Livestock Conservancy americana em 2025.⁴ ⁵

A origem nas minas de chumbo

O Dales Pony é nativo dos vales superiores das encostas orientais dos Pennines. A indústria de mineração de chumbo da região floresceu desde os tempos romanos até meados do século XIX, e durante todo esse período o Dales foi o animal que mantinha a logística funcionando.¹

A lógica era simples e exigente. As minas ficavam nas alturas. Os locais de lavagem precisavam estar perto de rios. As fundições ficavam em colinas para aproveitar o vento. Tudo isso precisava ser conectado por animais capazes de cobrir esse terreno com carga pesada, em qualquer clima, sem falhar.¹

Os pontos favoritos de criação sempre foram os vales superiores dos rios Tyne, Wear, Allen, Tees e Swale. Os animais trabalhavam em grupos chamados de Jagger Galloways, equipes de 9 a 20 pôneis soltos, guiados por um único homem montado. Cada animal carregava duas barras de chumbo, cerca de 110 quilos, e cobria até 160 quilômetros por semana.¹

Como o Dales foi construído

A raça não nasceu de um decreto nem da visão de um único criador. Foi moldada ao longo de gerações pela seleção de quem precisava de resultados concretos.¹

No final do século XVII, o Scotch Galloway, um tipo de pônei escocês robusto e de boa resistência, era considerado o melhor animal para trabalho de carga rápida. 

Éguas nativas cruzavam com garanhões Galloway nas colinas, e os animais maiores, mais fortes e mais ativos eram selecionados para as minas. Com o tempo, os Galloways negros das manadas mistas foram superando os escoceses importados e o Dales Pony foi emergindo como tipo distinto.¹

No final do século XVIII, a melhoria das estradas criou demanda por animais mais rápidos para as diligências e mala-postas, os serviços de transporte de passageiros e correspondência que cruzavam a Inglaterra. 

Os Norfolk Cobs foram cruzados com as éguas Dales para adicionar velocidade e ação ao trote. Os Norfolk Cobs eram cavalos trotadores ingleses, e a família mais influente desse grupo, conhecida como Shales, descendia do garanhão árabe Darley Arabian, um dos três garanhões fundadores do Puro Sangue Inglês moderno. 

Pelo menos uma linha de volta ao Norfolk Shales pode ser encontrada nos pedigrees da maioria dos Dales Ponies registrados hoje.¹

Na década de 1860, um garanhão trotador galês chamado Comet chegou ao norte da Inglaterra para competir em corridas de trote. Ficou por dez anos, venceu consistentemente e foi amplamente usado como reprodutor.

 Seu filho Comet II e netos como Teasdale Comet e Daddy's Lad deixaram marcas permanentes na raça.¹

Muito mais que um animal de carga

O Dales Pony era um animal completo muito antes de esse termo existir no vocabulário equestre. Nas fazendas dos vales, fazia tudo: puxava uma tonelada numa carroça, servia como pônei de pastoreio nas colinas, carregava fardos de feno de até 75 quilos em neve profunda.

Um par de Dales lavrava campos ou operava uma ceifadeira.¹

Com seu trote rápido, levava o fazendeiro ao mercado com elegância e ainda aguentava um dia de caça, sendo um saltador disposto e hábil. Era o cavalo que não precisava ser substituído entre uma tarefa e outra.¹
Capitão A. Campbell, relatório ao Ministério da Agricultura britânico"Sua raça tem um ativo superb, presente em cada exemplar que vi: os pés mais perfeitos das Ilhas Britânicas." A observação é repetida pelos criadores até hoje como síntese da qualidade dos cascos da raça.

As guerras e a quase extinção

O início do século XX trouxe uma ameaça diferente. A grande demanda por animais para trabalho urbano e para a artilharia levou muitos criadores a cruzar éguas Dales com garanhões Clydesdale, raça escocesa de tiro pesado. O produto era lucrativo. Mas o Dales puro estava desaparecendo.¹

Em 1916, foi fundada a Dales Pony Improvement Society e o stud book foi aberto, a tempo de documentar o que restava da raça pura.¹

Em 1923 e 1924, o Exército britânico comprou mais de 200 Dales Ponies. O responsável pela seleção, General Bate, tinha critérios precisos: entre 142 e 147 cm de altura, pelo menos 5 anos de idade, cerca de 450 quilos, com 173 cm de perímetro torácico e capaz de carregar 133 quilos numa montanha. Os Dales atenderam a todos esses critérios e serviram nas duas guerras mundiais.¹

A Segunda Guerra foi, paradoxalmente, um período de valorização da raça em casa. Com o racionamento de combustível, os Dales tornaram-se essenciais para o funcionamento das fazendas. Os criadores que mantiveram a raça pura durante os cruzamentos das décadas anteriores saíram em boa posição.¹

O colapso veio no final dos anos 1950: a mecanização tornou o trabalho pesado desnecessário. As registrações caíram e a raça entrou em declínio silencioso. 

Em 1964, a Sociedade foi reorganizada, o "Improvement" foi retirado do nome e um registro de graduação foi criado para identificar animais de qualidade fora do stud book.

Quando esse registro fechou em 1971, o número de pôneis registrados havia crescido e a qualidade era considerada excelente.¹

Como é o Dales Pony

O Dales é o maior dos cinco pôneis nativos de montanha e moorland do Reino Unido, com uma conformação que reflete diretamente a função para a qual foi selecionado: carregar peso em terreno difícil.² ⁶
Altura142 a 147 cm na cernelha.
Peso320 a 400 kg.
CabeçaCompacta e expressiva, com olhos vivos e alertas e orelhas levemente curvadas para dentro.
Pescoço e corpoPescoço forte e de comprimento adequado. Corpo curto e fundo, com costelas bem arqueadas. Coxas compridas e musculosas.
MembrosJarretes, as articulações traseiras equivalentes ao joelho humano, largos, planos e bem posicionados. Osso das canelas entre 20 e 23 cm de circunferência. Essa medida, a circunferência do metacarpo, é usada como indicador de solidez óssea: 20 cm suportam até 450 quilos de carga. É uma das especificações mais concretas de qualquer padrão racial britânico.
AçãoAlta, reta e com grande energia. Os joelhos e jarretes se levantam com impulso real e os membros traseiros se flexionam bem sob o corpo. É o resultado direto de séculos selecionando animais que precisavam se mover bem em terreno difícil com carga pesada.
Crina, cauda e franjaFartíssimas, longas e sedosas. O trem posterior tem franja abundante cobrindo os cascos. Os cascos são grandes, redondos e abertos nos talões.
PelagemPreto predominante, com alguns castanhos, baios, tordilhos e, raramente, rosilhos. Marcações brancas aceitas com restrições: apenas estrela ou mancha no focinho e branco até os boletos, as articulações do tornozelo, nas patas traseiras. Animais com mais branco são registrados na Seção B do stud book.

A condição genética: FIS

Desde 2012, todos os garanhões licenciados precisam ser testados para a Foal Immunodeficiency Syndrome, ou FIS. A condição é conhecida desde os anos 1970 e é compartilhada com o Fell Pony, raça das encostas ocidentais dos Pennines. 

Potros afetados nascem com sistema imunológico comprometido e geralmente morrem nas primeiras semanas de vida por infecções oportunistas.³

É uma doença autossômica recessiva: dois portadores precisam ser cruzados para produzir um potro afetado. Portadores são animais saudáveis que transmitem o gene sem manifestar a condição. O teste está disponível para éguas através da Dales Pony Society.

Dado o tamanho pequeno da população, a recomendação é testar os reprodutores e evitar cruzamentos entre dois portadores, sem excluir todos os portadores da reprodução, o que reduziria ainda mais a diversidade genética já limitada.³

A situação atual

Em 2015, o RBST reclassificou o Dales Pony para a categoria de maior risco. Em 2025, a categoria foi renomeada para priority, mas o status permanece o mesmo: menos de 300 éguas reprodutoras no Reino Unido.⁴

A Livestock Conservancy americana classifica a raça como critical em 2025, com menos de 200 registros anuais nos EUA e população global estimada em menos de 500 animais.⁵

A Dales Pony Society trabalha ativamente na conservação com ferramentas como o SPARKS, Sistema de Planejamento de Acasalamento para Raças Raras em Risco, desenvolvido pela Universidade de Nottingham Trent.

O sistema ajuda criadores a fazer escolhas de reprodução que maximizam a diversidade genética da população sem excluir portadores da FIS.¹

Apesar dos números reduzidos, o Dales compete com sucesso em apresentação em mão, montado e em atrelagem. A inteligência, a resistência e a ação que o tornavam valioso nas minas continuam sendo seus principais ativos no esporte moderno.¹ ²

Curiosidades

Um homem, vinte pôneisOs grupos de trabalho nas minas eram chamados de Jagger Galloways: equipes de 9 a 20 pôneis soltos, sem rédeas, guiados por um único homem montado. Os animais conheciam o percurso e o seguiam de forma autônoma. A capacidade de operar em grupo sem supervisão individual era uma das qualidades mais valorizadas nos Dales de trabalho, e que os criadores modernos ainda descrevem como característica de temperamento da raça.
Os critérios militares do General BateQuando o Exército britânico comprou mais de 200 Dales em 1923 e 1924, os critérios eram específicos: entre 142 e 147 cm de altura, pelo menos 5 anos, cerca de 450 quilos, 173 cm de perímetro torácico e capaz de carregar 133 quilos numa montanha. Esses números não foram inventados para o Dales: foram os critérios que o Exército usou porque sabia que a raça conseguia atendê-los. A capacidade de carga militar do Dales é equivalente à dos melhores animais de montanha do mundo.
O osso como garantia estruturalO padrão racial especifica que o osso das canelas deve medir entre 20 e 23 cm de circunferência. Essa medida, a circunferência do metacarpo, é usada no mundo equestre como indicador de solidez óssea. 20 cm suportam até 450 quilos de carga. A especificação existe porque a raça foi construída para esse peso, e o padrão registra isso em números concretos. É uma das poucas raças cujo padrão de conformação inclui um requisito de carga explícito.
A Segunda Guerra como âncora da purezaA tendência de cruzar Dales com Clydesdale por décadas ameaçou a raça. Ironicamente, foi o racionamento de combustível da Segunda Guerra que criou o incentivo econômico para manter os Dales puros: sem diesel, as fazendas precisavam dos pôneis para trabalhar, e os Dales eram mais úteis que os cruzados para esse fim. Os criadores que resistiram aos cruzamentos lucrativos saíram da guerra com os melhores plantéis.
O pônei que o Clydesdale quase substituiuO Clydesdale é uma raça escocesa de tiro pesado, muito maior que o Dales. Os cruzamentos com Clydesdale produziam animais maiores e mais pesados, adequados para o trabalho urbano de tração que crescia nas cidades britânicas no início do século XX. O produto vendia melhor no mercado. Mas o Dales cruzado perdia a resistência, a ação e a capacidade de trabalho em terreno montanhoso que eram as qualidades centrais da raça. A tensão entre o mercado e a pureza racial foi o principal desafio do Dales por quase cinquenta anos.
Menos comum que o Cleveland Bay nos piores anosCleveland Bay chegou a 6 garanhões puros nos anos 1960, o que é amplamente citado como um dos momentos mais críticos da conservação equina britânica. O Dales Pony, com menos de 500 animais vivos no mundo em 2025, tem uma população menor do que a do Cleveland Bay nos seus piores anos. É uma das raças equinas nativas britânicas em situação mais crítica na atualidade.

Ficha técnica

NomeDales Pony
OrigemEncostas orientais dos Pennines, norte da Inglaterra
Função históricaTransporte de chumbo nas minas dos Pennines; trabalho em fazenda; serviço militar
Stud bookAberto em 1916 pela Dales Pony Improvement Society; reorganizado em 1964 como Dales Pony Society
Altura142 a 147 cm na cernelha
Peso320 a 400 kg
PelagemPreto predominante. Castanho, baio, tordilho e rosilho aceitos. Marcações brancas restritas.
Osso das canelas20 a 23 cm de circunferência (padrão racial)
Condição genéticaFIS (Foal Immunodeficiency Syndrome) — teste obrigatório para garanhões desde 2012
Status de conservaçãoPriority (RBST, 2025); Critical (Livestock Conservancy, 2025)
Pop. no Reino UnidoMenos de 300 éguas reprodutoras registradas (RBST, 2025)
Pop. mundialMenos de 500 animais (Livestock Conservancy, 2025)
Aptidão atualApresentação em mão, montado, atrelagem, trilha, salto, trabalho em fazenda
O Dales Pony carrega adultos sem dificuldade?

Sim. O padrão racial foi construído para suportar até 133 quilos numa montanha, critério usado pelo Exército britânico para comprar mais de 200 animais nas décadas de 1920. Apesar de classificado como pônei pelo tamanho, é um dos animais nativos britânicos mais capazes de carregar adultos de qualquer porte.¹

Qual a diferença entre o Dales e o Fell Pony?

São raças próximas, ambas dos Pennines, mas com histórias distintas. O Dales se desenvolveu nas encostas orientais, nas minas de chumbo. O Fell se desenvolveu nas encostas ocidentais. O Dales é geralmente maior e mais pesado, com mais osso e ação mais alta. Ambos partilham a condição genética FIS e são classificados como raças em risco pelo RBST.¹ ³

O Dales Pony existe fora da Grã-Bretanha?

Sim, mas em número muito pequeno. A Livestock Conservancy americana estima a população global em menos de 500 animais em 2025. Há criadores nos Estados Unidos e em países europeus. O stud book internacional é mantido pela Dales Pony Society no Reino Unido.⁵

Por que o padrão racial especifica a medida do osso das canelas?

Porque o Dales foi criado para carregar peso em terreno difícil. A medida de 20 a 23 cm de circunferência é uma garantia estrutural: 20 cm de osso suportam até 450 quilos de carga. É uma das especificações mais concretas e funcionais de qualquer padrão racial britânico.² ⁶

Fontes

  1. Dales Pony Society. História oficial da raça. Disponível em: dalespony.org/history.
  2. Dales Pony Society. Breed Standard — padrão racial oficial. Disponível em: dalespony.org/breed-standard.
  3. Dales Pony Society. Foal Immunodeficiency Syndrome (FIS). Disponível em: dalespony.org/f-i-s.
  4. Wikipedia. Dales Pony — classificação RBST "priority" categoria 1, 2025. Disponível em: en.wikipedia.org/wiki/Dales_Pony.
  5. Livestock Conservancy. Dales Pony — classificação "critical", população global estimada em menos de 500 animais (2025). Disponível em: livestockconservancy.org.
  6. Archedales e.V. About the Dales Pony — padrão racial detalhado, dados de altura, peso e osso. Disponível em: dales-pony.com.
André Ferreira

André Ferreira

André é o responsável atual pela condução editorial e estratégica do Multicavalos, um portal voltado ao universo equestre. Entusiasta do ramo, André dedica-se ao estudo e à observação do setor, buscando compreender suas práticas, rotinas, desafios e evoluções.