Cavalo Percheron: a raça que a França perdeu e foi buscar de volta
Em 1993 a França importou um garanhão dos Estados Unidos para recuperar o Percheron. A raça tinha sido vendida por um século e deformada pelo mercado de carne.
Em 1993 a França importou um garanhão dos Estados Unidos para recuperar o Percheron. A raça tinha sido vendida por um século e deformada pelo mercado de carne.


Numa mesma entrada, o diretor do haras escrevia que desejava manter determinado garanhão de tração. Logo abaixo, o inspetor de Paris anotava que o animal devia ser usado apenas como cavalo de trabalho e não podia cobrir éguas.
No ano seguinte, o registro mostra o mesmo garanhão tendo coberto quarenta ou cinquenta éguas e trabalhado na propriedade. E assim se repete, ano após ano.
Os fazendeiros do Perche estavam satisfeitos com os potros de tração, que aumentavam o tamanho dos cavalos e rendiam mais que os animais de exército. Ganharam a disputa pelo simples método de ignorá-la.²
Godolphin aparece na inspeção de 1810. Nascido em 1802, 1,54 metro, vindo do estábulo do Conde de Maulke, em Mecklemburgo-Strelitz. Pai: Mock Doctor, cavalo de sangue inglês. Classificação: cavalo de sela. A pelagem registrada é alezan doré, alazão dourado.
Gallipoly aparece em 1813. Turco, cinza salpicado claro, 1,50 metro, pai e mãe turcos, também classificado como cavalo de sela. Em 1819 o inspetor anota que ele é pequeno demais para o Pin e propõe mandá-lo para a Bretanha.
Diz-se que os dois foram para o castelo de Coesme em 1818. Em 1818 os dois ainda estavam em serviço no haras.²

Exigência do regulamento em cada país, e não descrição da população criada. Fonte: SHPF, PHAoA e ANC Herd-Book Collares.

A terceira categoria tem uma consequência. O livro brasileiro admite inscrever fêmea de origem desconhecida, sem limite de idade, mediante avaliação de um inspetor técnico.⁸ É a decisão oposta à que o criador francês Davy Gesbert defende, ao dizer que o livro da França deveria ter sido fechado trinta anos atrás.⁴
Outra diferença: a França proíbe inscrever produto de clonagem, e o Brasil permite, com a sigla TN no nome do animal.³ ⁸
A influência da raça correu nos dois sentidos. No fim do século XIX, criadores da costa norte da Bretanha usaram sangue Percheron para construir o Trait Breton.
E outras raças de tração atravessaram a mesma passagem da diligência ao trator, entre elas o Suffolk Punch e o Clydesdale.
A versão da origem árabe tem uma fonte única e rastreável: a carta do Abbé Fret lida no congresso de Mortagne em 1843, que declara no próprio texto apoiar-se em tradição de castelos.
Charles Du Hays a adotou em 1868, e o primeiro volume do livro genealógico francês a incorporou em 1883, citando Du Hays como historiador autorizado. Sanders observa que, sobre a origem remota da raça, os fundadores dispunham do tratado dele e da memória dos moradores mais velhos.
A refutação vem de Alvin Sanders e Wayne Dinsmore, em 1917, com autorização do Ministério da Agricultura francês para fotografar as entradas originais. É trabalho americano sobre arquivo francês, publicado por uma editora ligada ao comércio de importação, e essa posição merece ser declarada. Os documentos, porém, são do governo francês e as inspeções são anuais e assinadas.
A própria Société Hippique Percheronne já divergia de Du Hays em 1883, em outro ponto: refutou por escrito a afirmação dele de que o Perche teria aberto as barreiras a éguas grandes de fora. E o programa de seleção francês em vigor descreve as origens árabes como supostas e nunca totalmente provadas.
Sobre Jean-le-Blanc, o garanhão a quem o primeiro livro atribui a maior melhoria da raça, Sanders usa o veredito escocês: não provado. O animal não aparece em registro oficial do período em que teria nascido, e a idade diverge entre as fontes, com o livro genealógico dando 32 anos e Sanders registrando que se dizia 25.
O relato da recuperação a partir de 1993 vem de Virginia Kouyoumdjian, publicado pela própria associação francesa. É a fonte mais completa sobre o período e é parte interessada. A ligação causal entre a ausência de mercado de carne nos Estados Unidos e a preservação do tipo mais leve é leitura dela. Ninguém comparou os Percherons americanos com os franceses do século XIX.
A chegada ao Brasil na década de 1920, com o Exército, a Matarazzo e a Antarctica, não foi confirmada em fonte primária. A data do primeiro registro nacional diverge entre 1936 e 1938, e a afirmação de que o plantel brasileiro descende sobretudo de linhagens argentinas vem de portal, e nenhum documento da associação foi localizado para confirmá-la.
Não há documento que prove. A versão vem de uma carta lida num congresso agrícola em 1843, cujo autor declara apoiar-se em tradição oral de castelos do Perche. Sanders revistou os arquivos do governo francês e encontrou apenas um ou dois garanhões árabes comprados para o haras do Pin entre 1765 e 1789. A associação francesa hoje descreve essas origens como supostas e nunca provadas.
Porque o estatuto americano não tem regra de cor. Nos quinze artigos do regulamento da Percheron Horse Association of America, a pelagem aparece apenas como dado descritivo do formulário de registro. Na França, o alazão é caráter redibitório e há genotipagem obrigatória dos genes extension e agouti para eliminar os portadores da reprodução. O Brasil segue a regra francesa e aceita somente preto e tordilho.
O Trait é o tipo pesado, feito para puxar carga ao passo, com garupa mais inclinada e posterior muito musculoso. O Diligencier é criado para trote brilhante e estendido, com ombro mais deitado e garupa menos basculada. A divisão formal em duas categorias foi adotada pela Société Hippique Percheronne de France em 1998, durante a reconstrução da raça. O padrão brasileiro não faz essa distinção.
O registro é executado pela Associação Nacional de Criadores Herd-Book Collares, em Pelotas, por autorização do Ministério da Agricultura, e a criação se concentra no Rio Grande do Sul e em São Paulo. O regulamento admite quatro categorias, incluindo fêmeas de origem desconhecida avaliadas por inspetor, e permite inscrever produtos de clonagem, o que a França proíbe.