Cavalo Percheron: a raça que a França perdeu e foi buscar de volta

Em 1993 a França importou um garanhão dos Estados Unidos para recuperar o Percheron. A raça tinha sido vendida por um século e deformada pelo mercado de carne.

Cavalo Percheron: a raça que a França perdeu e foi buscar de volta
A malha do tordilho rodado escurece sobre a garupa larga e o antebraço musculoso, as duas medidas que os padrões da raça mais cobram. Foto: 4028mdk09, 2010 / CC BY-SA 3.0 / Wikimedia Commons.
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O Percheron é o cavalo de tração mais difundido do mundo, e nasceu numa região da França menor que a Grande São Paulo, a 128 quilômetros a sudoeste de Paris. Por um século ela vendeu os melhores animais para fora, sobretudo para os Estados Unidos, e por um século os criadores locais avisaram que aquilo ia esvaziar o plantel. Tinham razão. E a saída, quando a raça precisou ser refeita, foi ir buscar de volta na América os cavalos que tinham saído dali.
900 kgPeso médio no padrão brasileiro
1876Registro americano, 7 anos antes do francês
40%Potros franceses com sangue americano
Quem vê um Percheron pela primeira vez repara no tamanho. São 900 quilos de média no padrão brasileiro, com altura entre 1,58 e 1,72 metro na cernelha, o que põe a linha do dorso acima da cabeça de um adulto.⁸

Depois vem o comportamento. Um animal desse porte anda com passo leve, aceita ser conduzido por criança e não se assusta com barulho de motor.

Nada disso é acaso, e quase nada disso é antigo. O Percheron pesado que existe hoje foi construído entre 1820 e 1840, por decisão de criadores de uma província pequena, e a explicação que circula sobre a origem dele foi montada numa carta de 1843 que dizia, com todas as letras, que se apoiava em tradição oral.

Uma província do tamanho da Grande São Paulo

O Perche era uma das menores províncias da França antiga. O nome vem da floresta que cobria a região, que os romanos chamavam de Perticus Saltus
É terra de colina baixa e vale de rio, com poucos prados em relação à superfície e cerca de 16% de floresta. O ponto mais alto, em Mortagne, tem 230 metros.²

Segundo Charles Du Hays, que escreveu sobre a raça em 1868, a falta de pasto explica o cavalo. Sem campo para soltar o animal, a criação acontecia perto de casa, e a égua de cria ficava sob a mão do criador, que a fazia trabalhar e a alimentava bem.¹

Um manuscrito de 1698 na Biblioteca Nacional descreve de onde vinha o dinheiro da província: da venda de potros, gado gordo, ovelhas, manteiga, aves e ovos levados aos mercados de Paris. Mais de cem mil libras por ano.²

O Perche era, portanto, uma região que vivia de abastecer a capital. E o produto mais caro que ela mandava para lá tinha quatro membros.

Em Mortagne havia quatro feiras célebres, e a de Santo André, em dezembro, atraía compradores de todas as províncias vizinhas.² Foi nela que, a partir de 1803, o prefeito passou a distribuir prêmios às melhores éguas de criação e aos melhores potros.²

Antes de 1820, todo Percheron era cavalo de diligência

Três estradas importantes ligavam Paris aos portos do norte atravessando o Perche. Enquanto não houve ferrovia, quem viajava ia de diligência, que era o transporte coletivo de longa distância da época, e algumas dessas carruagens levavam o correio com horário a cumprir.²

O cavalo que fazia esse serviço não era gigante. Du Hays registra altura entre 1,50 e 1,63 metro, e descreve um animal capaz de mover peso depressa.¹

Alvin Sanders, autor da história da raça publicada em 1917, é categórico: antes das guerras napoleônicas os Percherons eram praticamente todos do tipo diligência.²

A cor também vinha do trabalho. Os proprietários das diligências preferiam parelhas cinzas porque se enxergavam melhor à noite.² Du Hays diz a mesma coisa em 1868, escrevendo que nas longas etapas noturnas o cavalo cinza lhe parecia mais fácil de guiar.¹

Um documento de 1801 mede a população: o sub-prefeito de Mortagne contou 13.520 cavalos, éguas e potros no distrito, sendo 1.380 empregados fora da agricultura.²

A ferrovia acabou com a diligência e não acabou com o cavalo. Ele foi transferido para o serviço de ônibus urbano, principalmente em Paris, onde milhares desses tordilhos rodados, em parelhas e em trincas, eram vista familiar nas ruas.²

Como o Percheron ficou pesado entre 1820 e 1840


A pressão veio da porta ao lado. A Beauce, região contígua ao Perche, era chamada de celeiro da França, e a população crescente de Paris, que sempre consumiu o trigo dali, obrigou métodos mais modernos de cultivo. Os bois iam sendo descartados e a demanda por cavalo pesado crescia.²

O primeiro garanhão de tração pesada só entrou no haras nacional do Pin por volta de 1808, e em escala restrita. Em toda a lista do século XVIII não há um único.²

A palavra Percheron aparece classificando um garanhão pela primeira vez em 17 de agosto de 1822, no controle que o Conde de Maillé enviou a Paris. O animal chamava-se Desarme, tinha 1,57 metro, era baio, e a observação do diretor é seca: bom cavalo de tração.²

Paris não gostou da ideia. Os inspetores enviados da capital queriam remontas para a cavalaria e eram contra os garanhões de tração.²

A discordância ficou documentada porque o haras nacional mantinha um registro de inspeção, com uma entrada para cada garanhão em serviço. Cada entrada trazia altura, pelagem, procedência e classificação do animal, o parecer que o inspetor escrevia a cada visita anual e o número de éguas cobertas na temporada.²
O registro de inspeção do haras do Pin

Numa mesma entrada, o diretor do haras escrevia que desejava manter determinado garanhão de tração. Logo abaixo, o inspetor de Paris anotava que o animal devia ser usado apenas como cavalo de trabalho e não podia cobrir éguas.

No ano seguinte, o registro mostra o mesmo garanhão tendo coberto quarenta ou cinquenta éguas e trabalhado na propriedade. E assim se repete, ano após ano.

Os fazendeiros do Perche estavam satisfeitos com os potros de tração, que aumentavam o tamanho dos cavalos e rendiam mais que os animais de exército. Ganharam a disputa pelo simples método de ignorá-la.²

A escala do que esses garanhões fizeram está no mesmo registro. Em 1834, um único criador da região, Ferrand, tinha três garanhões aprovados que serviram 101, 105 e 103 éguas naquele ano. Nenhum garanhão da região serviu menos de oitenta.²

Nem todo mundo achou bom. Numa sessão da Sociedade de Agricultura de Mans, em 5 de fevereiro de 1845, um relator perguntou o que de fato se queria: cavalos de tração leves e vigorosos para a artilharia, as malas-postas e as diligências, capazes de fazer sete a dez milhas por hora atrelados, ou animais pesados adequados apenas a grandes explorações.²

Venceu a Beauce. Michel Fardouet, que seria o primeiro presidente da associação francesa, escreveu em 1883 que foi entre 1820 e 1840 que a raça de cavalos que trotava rápido começou a se modificar.²

A origem árabe nasceu de uma carta de 1843


Em 1843, a Association Normande realizou um congresso agrícola em Mortagne. O senhor de Blanpré leu ali uma carta do Abbé Fret, historiador do Perche, afirmando que a beleza da raça se devia ao cruzamento com o árabe.²

A carta diz de onde tira isso: de uma tradição conservada há seis séculos em vários castelos do baixo Perche.²

Na mesma sessão, o veterinário Gautier respondeu que não conhecia documento algum que levasse a pensar assim, e acrescentou que cada autor, ao consultar o predecessor, reproduziu a mesma opinião, sem que houvesse prova.²

Sanders descobriu, oitenta anos depois, que o Abbé Fret tinha copiado o parágrafo sobre o Percheron quase palavra por palavra de um livro publicado trinta anos antes pelo sub-prefeito de Mortagne. Quase todos os autores franceses reproduziram o padre, e nenhum parece ter notado a cópia.²

A versão ganhou força em 1868, quando Du Hays escreveu que dois árabes cinzas do haras do Pin, chamados Godolphin e Gallipoly, tinham transformado em cinza o plantel do país inteiro por volta de 1820.¹

A frase entrou no primeiro volume do livro genealógico francês, em 1883, como explicação da ascendência de Jean-le-Blanc, o garanhão a quem o registro atribui a maior melhoria da raça.²

Sanders mandou revistar os Arquivos Nacionais em Paris. Obteve autorização do Ministério da Agricultura francês para examinar os registros do haras e fotografar as entradas originais dos dois animais.²
O que o registro diz sobre Godolphin e Gallipoly

Godolphin aparece na inspeção de 1810. Nascido em 1802, 1,54 metro, vindo do estábulo do Conde de Maulke, em Mecklemburgo-Strelitz. Pai: Mock Doctor, cavalo de sangue inglês. Classificação: cavalo de sela. A pelagem registrada é alezan doré, alazão dourado.

Gallipoly aparece em 1813. Turco, cinza salpicado claro, 1,50 metro, pai e mãe turcos, também classificado como cavalo de sela. Em 1819 o inspetor anota que ele é pequeno demais para o Pin e propõe mandá-lo para a Bretanha.

Diz-se que os dois foram para o castelo de Coesme em 1818. Em 1818 os dois ainda estavam em serviço no haras.²

Sanders levanta ainda o problema aritmético. Um garanhão de sela de 1,50 metro cobrindo éguas Percheronas produziria potros menores que as mães, quando a tendência do período era exatamente o contrário.²

Nada disso torna os fundadores de 1883 desonestos. Eles tinham diante de si o tratado de Du Hays e a memória dos moradores mais velhos, e Sanders faz questão de dizer que não estavam escrevendo história, estavam fazendo história.²

A associação francesa hoje descreve as origens árabes da raça como supostas e nunca totalmente provadas.⁹

Um cavalo de 900 quilos que puxa pelo peito


Cavalo de tração não puxa com os membros. A carga vai pelo peitoral apoiado no colar, e a força que move o conjunto nasce atrás, no posterior, e atravessa o corpo até esse ponto de apoio.

É por isso que os padrões pedem o que pedem. O normativo francês exige garupa ampla em todas as dimensões, com tendência dupla, e antebraço muito largo e musculoso.³ O padrão brasileiro descreve a garupa quase horizontal e ligeiramente fendida, com ancas largas e nádegas descendentes.⁸

Garupa fendida é o sulco que se vê de trás, entre as duas massas musculares. Ele aparece quando o posterior é desenvolvido, e é o motor do animal.

O outro ponto é a espádua. Os dois documentos pedem espádua longa e inclinada, com forte massa muscular, e o francês registra explicitamente que se deve evitar espádua curta e vertical.³⁸ Ombro deitado dá amplitude de passo, e amplitude de passo permite a um animal de 900 quilos andar sem se destruir.

O peso trabalha nos dois sentidos. Massa apoiada no chão vira aderência, e é por isso que o cavalo pesado puxa. A mesma massa sobrecarrega o aparelho locomotor, e o padrão brasileiro desclassifica taras ósseas e defeitos graves de aprumos antes de qualquer outra coisa, junto com altura abaixo de 1,58 metro.⁸

Os cascos entram na mesma conta. O padrão brasileiro os quer grandes, arredondados, sólidos e de sola côncava, com talões abertos.⁸

A docilidade do Percheron é medida em prova

O temperamento aparece em toda descrição da raça, quase sempre sem evidência atrás. No caso do Percheron, ela existe e está no regulamento.

A partir de um ano, os animais franceses passam por testes de temperamento simplificados. São seis: toisagem, sensibilidade tátil, comportamento em liberdade no piquete, contornar um objeto desconhecido, pisar numa superfície desconhecida e reagir à abertura de um guarda-chuva.³

O guarda-chuva tem razão prática. Um animal que vai puxar carroça em rua movimentada precisa continuar parado quando alguma coisa se abre de repente ao lado dele.

Depois vêm as provas de aptidão, com nota mínima de 80% em cada módulo: trabalho à mão, montado, atrelado e de albarda, mais uma prova de tração com trenó carregado em três cargas diferentes.³

A calma da raça, portanto, é critério de seleção com grade de julgamento e nota de corte.

Sobre a origem disso, Sanders tem uma explicação que registra como leitura própria. Escreve que os cavalos eram parte da herança das famílias do Perche, acostumados à atenção afetuosa de toda a casa, e que a docilidade nascida dessa convivência humana íntima se tornou traço inato.²

O Perche vendia 700 cavalos por ano ao estrangeiro em 1868


O livro de Du Hays é um relatório de alarme, escrito para o governo francês. As duas partes se chamam grandeza e declínio dos Percherons, e meios de regenerar o cavalo Percheron.¹

O diagnóstico dele é a exportação. Primeiro venderam os melhores machos, depois as melhores éguas, e a partir de 1830 passaram a repor com éguas da Bretanha, da Picardia e de outras regiões.¹

Os números que ele dá: o Perche fornecia de 6 a 7 mil cavalos por ano para os ônibus puxados a cavalo, que faziam o transporte coletivo dentro das cidades, e para os carroceiros. Mais 600 a 700 exemplares típicos que o estrangeiro demandava.¹

Du Hays escreve que a raça foi cortada no auge, e que o Perche estendeu as velas ao vento do presente sem pensar no futuro.¹

Os preços da época estão no mesmo livro. Potro desmamado aos cinco meses valia de 500 a 600 francos. Aos três anos, de 900 a mil. Aos cinco, na feira de Chartres, de mil a 1.400. Garanhão premiado passava de três mil.¹

A tradução americana do livro saiu em Nova York no mesmo ano de 1868, publicada pela Orange Judd, com as gravuras bancadas por um importador de Baltimore.¹ O alerta virou catálogo de compras.

O stud book americano veio sete anos antes do francês

Importadores americanos compravam cavalos de tipo percheron no vale do Sena desde 1839. A partir de 1872, Mark W. Dunham, de Wayne, Illinois, e alguns outros fazendeiros começaram as compras regulares dentro do Perche.⁵

Em fevereiro de 1876, depois de duas tentativas fracassadas, nasceu em Chicago a National Association of Importers and Breeders of Norman Horses. O nome descreve o que ela era: uma associação de importadores antes de criadores.⁵ ⁷

Meses depois, James H. Sanders montou o registro genealógico dos animais trazidos nas décadas anteriores. Em fevereiro de 1878, numa reunião em Peoria com cerca de cem criadores de oito estados, decidiu-se incluir a palavra Percheron no nome.⁵

A associação americana declara ter sido a primeira entidade de registro de animais puros dos Estados Unidos.⁷
A escala individual dá a medida melhor que o total. Só o industrial W. L. Ellwood trouxe 164 garanhões e 100 éguas em 1886.²

A Société Hippique Percheronne nasceu em 23 de junho de 1883

A associação francesa foi fundada em Nogent-le-Rotrou, com cerca de 125 membros e Michel Fardouet na presidência.² ³

Sanders registra que o movimento teve apoio ativo dos principais patronos da raça na América, entre eles Mark W. Dunham e James H. Sanders, o fundador do registro americano.²

Na introdução ao primeiro volume, Fardouet descreve a sucessão de usos da raça e escreve, sobre o próprio tempo, que a posta e a diligência se foram.²

E repete, quinze anos depois, o alerta de Du Hays. Diz que a grande república do outro lado do mar é a compradora mais liberal, tão liberal que graves apreensões estão sendo expressas quanto à capacidade futura de suprir a demanda pelos melhores machos e fêmeas de todas as idades sem deteriorar o plantel.²

774.947 cavalos em 27 meses


A Primeira Guerra Mundial foi a maior mobilização de cavalos da história, e ela aconteceu quando o motor já existia mas ainda não dava conta do terreno.

Nos 27 meses encerrados em 1º de dezembro de 1916, os Estados Unidos exportaram 774.947 cavalos e 255.014 mulas, num total de quase 217 milhões de dólares da época.²

A demanda mais forte era por cavalos de artilharia e transporte, que rendiam de 35 a 60 dólares a mais por cabeça que os de cavalaria. Segundo pessoas em contato próximo com o trabalho dos inspetores de compra, ao menos 75% desses animais eram Percherons mestiços.²

Um editorial do Live Stock Journal de Londres, em novembro de 1916, registra que o tipo tinha feito muitos amigos na Inglaterra e estava firmemente estabelecido entre os oficiais responsáveis do exército britânico, e anuncia a intenção de lançar a fundação de um livro genealógico inglês da raça.²

O Percheron entrou na guerra como cavalo de fazenda e saiu dela com registro próprio em um terceiro país.

As carroças da Matarazzo e da Antarctica em São Paulo


O Percheron chegou ao Brasil na década de 1920, trazido pelo Exército Brasileiro, pela Companhia Matarazzo e pela Companhia Cervejaria Antarctica, para puxar as carroças de entrega dessas empresas na cidade de São Paulo. Essa versão circula em portais e na Confederação Brasileira de Hipismo, e não foi possível localizar fonte primária que a sustente.

O primeiro puro de origem nascido no país foi Cecy Baby de Irsul, do Ministério da Agricultura, criado na Inspetoria Regional do Rio Grande do Sul. As datas divergem: umas fontes dão 1936 para os primeiros registros no livro brasileiro, outras dão 1938 para o registro dele.

O registro genealógico é executado pela Associação Nacional de Criadores Herd-Book Collares, em Pelotas, por autorização do Ministério da Agricultura, com base na Lei 4.716 de 1965 e no Decreto 8.236 de 2014.⁸

A entidade nasceu de um serviço idealizado por Leonardo Brasil Collares em 1904, que começou a funcionar em outubro de 1906, e é a mesma que registra o Morgan e o Marchador do Tennessee.⁸

Depois de 1945, o Percheron francês virou cavalo de carne


Segundo Virginia Kouyoumdjian, que escreveu sobre o período para a associação francesa, foi depois da Segunda Guerra que as coisas azedaram. Sobrava pouco plantel bom, o trator assumiu a agricultura e o ônibus motorizado substituiu a diligência.⁴

Havia uma única saída comercial em expansão: o mercado de carne, que tinha ganhado popularidade na França como alternativa mais barata à carne bovina.⁴

Kouyoumdjian considera provável que esse mercado tenha salvado não só o Percheron, mas as nove raças de tração francesas.⁴

O preço foi o tipo. O Percheron já não era bom cavalo de carne, porque tinha desenvolvido linhas mais finas de animal de trabalho, e os criadores passaram a engordá-lo de modo frequentemente indiscriminado, buscando massa em vez de aparência ou andamento.⁴

Ela chama os anos de 1950 a 1980 de anos escuros da raça na França.⁴ A associação registra que, nas décadas de 1960 e 1970, o cavalo do Perche chegou a ser considerado ameaçado de desaparecimento.⁹

Em 1993 a França importou um garanhão Percheron dos Estados Unidos

O ponto de virada foi 1989, com o primeiro Congresso Mundial do Percheron na França e a decisão de trazer a raça de volta como cavalo de trabalho.⁴

O problema era morfológico. O Percheron francês tinha perdido a conformação adequada a esse uso, e as poucas linhagens mais leves que restavam no país exigiam tempo para serem localizadas.⁴

A solução veio de fora. Milhares de Percherons tinham sido exportados para a América do Norte entre o fim do século XIX e o começo do XX. Lá não havia mercado de carne de cavalo, e a criação seguiu outro rumo: o tipo continuou sendo selecionado para trabalho e para exposição, não para peso de abate.⁴

Kouyoumdjian escreve que os Percherons norte-americanos mantiveram o aspecto mais leve e elegante, e que muitos lembravam de forma curiosa as fotografias antigas dos Percherons na França.⁴

Em 1993, o haras nacional do Pin importou Silver Shadows Sheik, garanhão americano preto. As reações foram mistas, e Guy Mérel, criador que apostou nele, conta que todos diziam que o cavalo parecia um macaco e que ele era louco de usá-lo.⁴

Silver Shadows Sheik gerou 295 potros registrados na França, e o filho mais notável dele, Gallien, gerou outros 282.⁴

Em 1998 a associação dividiu a classificação em dois tipos: o Trait, de tração pesada, e o Diligencier, o cavalo de atrelagem mais leve.⁴

Segundo Jean-Jacques Léon, então presidente em exercício da comissão do livro genealógico, cerca de 40% dos potros registrados na França tinham algum sangue americano, com aproximadamente 1.100 registros em 2011.⁴

Não foi adoção do modelo americano, e os criadores franceses fazem questão de dizer isso. Patrice Biget, que integrou a delegação de 1993, declara que o objetivo nunca foi seguir a criação de exposição dos Estados Unidos, que na avaliação dele tende à morfologia extrema, e que o cruzamento com plantel francês continua indispensável.⁴

O que o Percheron faz hoje

O retorno começou pelo lazer e pela atrelagem, e depois entrou em trabalho pago.⁴

Na viticultura, o cavalo voltou a puxar implemento entre as fileiras de videira. No trabalho florestal, arrasta tora em terreno onde máquina compacta o solo. E em cidades francesas ele faz transporte de pessoas, manutenção de espaços verdes e coleta de resíduos.⁴

Em 2013, um castrado chamado Pacha trabalhou gradando o leito do rio Huisne, numa operação de restauração de áreas de desova de peixe.⁴

E existe uso esportivo. A égua NotreDam de Prainville, filha de um garanhão de linhagem americana, foi a maior vencedora do circuito francês de corrida de galope de Percherons, além de competir em salto e adestramento.⁴

Patrice Biget, criador que integrou a delegação de 1993, resume o objetivo do período: revitalizar a raça na França, com pelagens mais escuras, membros mais sadios, melhor qualidade de tecido e andamentos mais leves.⁴

Por que a França só aceita Percheron preto e tordilho

O programa de seleção francês em vigor, de 2023, admite apenas preto e cinza em todas as nuances. As demais pelagens, e o alazão em particular, são caracteres redibitórios.³

E a regra deixou de ser visual. O documento estabelece genotipagem dos genes extension e agouti, com meta de no máximo 15% de garanhões heterozigotos portadores do alelo recessivo do alazão e nenhuma potranca homozigota. Machos e fêmeas portadores ficam fora da reprodução.³

Do outro lado do Atlântico, o estatuto da associação americana, revisado em janeiro de 2025, não tem regra de cor. Nos quinze artigos, a pelagem aparece apenas como campo descritivo do formulário de registro e como motivo para reemitir o certificado quando o animal muda de cor.⁶

O padrão brasileiro segue a França: as pelagens são preto e tordilho.⁸
Pelagem aceita para registro
França · SHPF, 2023preto e cinza
Estados Unidos · PHAoA, 2025sem regra no estatuto
Brasil · ANC, 2019preto e tordilho

Exigência do regulamento em cada país, e não descrição da população criada. Fonte: SHPF, PHAoA e ANC Herd-Book Collares.

O mesmo regulamento brasileiro trata as outras duas raças que registra de forma diferente. Para o Marchador do Tennessee, o mesmo documento diz que a raça apresenta todas as cores e padrões, sem discriminação para fins de registro. Para o Morgan, admite todas menos a branca e a tobiana.⁸

Três raças, uma associação, um ministério. Só o Percheron tem a cor restrita a duas pelagens, e a restrição chegou junto com a raça.

O padrão brasileiro em vigor

AlturaMédia de 1,66 m, com mínima de 1,58 m e máxima de 1,72 m, para machos e fêmeas
Peso médio900 kg
PelagemPreto e tordilho
CabeçaFina e quadrada, perfil retilíneo, chanfro reto a ligeiramente acarneirado, ganachas bastante retraídas
AndamentosPasso, trote e galope curto. O texto registra que, para um animal desse porte, o andamento é ágil e leve
DesclassificaAltura inferior a 1,58 m, taras ósseas, defeitos graves de aprumos e doenças congênitas hereditárias
CategoriasPuro de Origem, Puro Controlado, Puro por Avaliação e Produtos de Cruzamento sob Controle de Genealogia

A terceira categoria tem uma consequência. O livro brasileiro admite inscrever fêmea de origem desconhecida, sem limite de idade, mediante avaliação de um inspetor técnico. É a decisão oposta à que o criador francês Davy Gesbert defende, ao dizer que o livro da França deveria ter sido fechado trinta anos atrás.

Outra diferença: a França proíbe inscrever produto de clonagem, e o Brasil permite, com a sigla TN no nome do animal.³ ⁸

A influência da raça correu nos dois sentidos. No fim do século XIX, criadores da costa norte da Bretanha usaram sangue Percheron para construir o Trait Breton.

E outras raças de tração atravessaram a mesma passagem da diligência ao trator, entre elas o Suffolk Punch e o Clydesdale.

De onde vem esta história

A versão da origem árabe tem uma fonte única e rastreável: a carta do Abbé Fret lida no congresso de Mortagne em 1843, que declara no próprio texto apoiar-se em tradição de castelos.

Charles Du Hays a adotou em 1868, e o primeiro volume do livro genealógico francês a incorporou em 1883, citando Du Hays como historiador autorizado. Sanders observa que, sobre a origem remota da raça, os fundadores dispunham do tratado dele e da memória dos moradores mais velhos.

A refutação vem de Alvin Sanders e Wayne Dinsmore, em 1917, com autorização do Ministério da Agricultura francês para fotografar as entradas originais. É trabalho americano sobre arquivo francês, publicado por uma editora ligada ao comércio de importação, e essa posição merece ser declarada. Os documentos, porém, são do governo francês e as inspeções são anuais e assinadas.

A própria Société Hippique Percheronne já divergia de Du Hays em 1883, em outro ponto: refutou por escrito a afirmação dele de que o Perche teria aberto as barreiras a éguas grandes de fora. E o programa de seleção francês em vigor descreve as origens árabes como supostas e nunca totalmente provadas.

Sobre Jean-le-Blanc, o garanhão a quem o primeiro livro atribui a maior melhoria da raça, Sanders usa o veredito escocês: não provado. O animal não aparece em registro oficial do período em que teria nascido, e a idade diverge entre as fontes, com o livro genealógico dando 32 anos e Sanders registrando que se dizia 25.

O relato da recuperação a partir de 1993 vem de Virginia Kouyoumdjian, publicado pela própria associação francesa. É a fonte mais completa sobre o período e é parte interessada. A ligação causal entre a ausência de mercado de carne nos Estados Unidos e a preservação do tipo mais leve é leitura dela. Ninguém comparou os Percherons americanos com os franceses do século XIX.

A chegada ao Brasil na década de 1920, com o Exército, a Matarazzo e a Antarctica, não foi confirmada em fonte primária. A data do primeiro registro nacional diverge entre 1936 e 1938, e a afirmação de que o plantel brasileiro descende sobretudo de linhagens argentinas vem de portal, e nenhum documento da associação foi localizado para confirmá-la.

O cavalo Percheron descende mesmo do árabe?

Não há documento que prove. A versão vem de uma carta lida num congresso agrícola em 1843, cujo autor declara apoiar-se em tradição oral de castelos do Perche. Sanders revistou os arquivos do governo francês e encontrou apenas um ou dois garanhões árabes comprados para o haras do Pin entre 1765 e 1789. A associação francesa hoje descreve essas origens como supostas e nunca provadas.

Por que existem Percherons alazões nos Estados Unidos e não na França?

Porque o estatuto americano não tem regra de cor. Nos quinze artigos do regulamento da Percheron Horse Association of America, a pelagem aparece apenas como dado descritivo do formulário de registro. Na França, o alazão é caráter redibitório e há genotipagem obrigatória dos genes extension e agouti para eliminar os portadores da reprodução. O Brasil segue a regra francesa e aceita somente preto e tordilho.

Qual a diferença entre Trait Percheron e Diligencier Percheron?

O Trait é o tipo pesado, feito para puxar carga ao passo, com garupa mais inclinada e posterior muito musculoso. O Diligencier é criado para trote brilhante e estendido, com ombro mais deitado e garupa menos basculada. A divisão formal em duas categorias foi adotada pela Société Hippique Percheronne de France em 1998, durante a reconstrução da raça. O padrão brasileiro não faz essa distinção.

Onde se cria cavalo Percheron no Brasil?

O registro é executado pela Associação Nacional de Criadores Herd-Book Collares, em Pelotas, por autorização do Ministério da Agricultura, e a criação se concentra no Rio Grande do Sul e em São Paulo. O regulamento admite quatro categorias, incluindo fêmeas de origem desconhecida avaliadas por inspetor, e permite inscrever produtos de clonagem, o que a França proíbe.

Fontes


  1. DU HAYS, Charles. The Percheron Horse. Nova York: Orange Judd & Company, 1868. Tradução do relatório ao governo francês. Três tipos da raça, altura e pelagem no século XIX, razão prática do cinza, volume de exportação e alerta de degeneração. gutenberg.org.
  2. SANDERS, Alvin Howard; DINSMORE, Wayne. A History of the Percheron Horse. Chicago: Breeder's Gazette Print, 1917, 856 p. Registro de inspeção dos garanhões do haras do Pin, congresso de Mortagne de 1843, fundação do livro genealógico francês e caso Jean-le-Blanc. archive.org.
  3. SOCIÉTÉ HIPPIQUE PERCHERONNE DE FRANCE. Programme de sélection du cheval percheron. Junho de 2023, 37 p. Padrão racial vigente, regras de pelagem, genotipagem e proibição de clonagem. percheron-france.org.
  4. KOUYOUMDJIAN, Virginia. Recreating the Real French Percheron Stallion. Publicado pela SHPF, 2012. Mercado de carne no pós-guerra, importação de garanhões americanos a partir de 1993 e divisão em dois tipos em 1998. percheron-france.org.
  5. DUGAST, Jean-Léo. Percheron News from America. SHPF, 3 de abril de 2026. Cronologia da associação americana de 1876 a 1934 e das compras de Dunham a partir de 1872. percheron-france.org.
  6. PERCHERON HORSE ASSOCIATION OF AMERICA. By-Laws. Aprovado em 16 de janeiro de 2025. Ausência de regra de cor e exigência de DNA para verificação de parentesco. percheronhorse.org.
  7. PERCHERON HORSE ASSOCIATION OF AMERICA. About the Percheron Horse Association of America. Cronologia institucional e volume de registros. percheronhorse.org.
  8. ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE CRIADORES HERD-BOOK COLLARES. Regulamento do Serviço de Registro Genealógico de Equinos. Pelotas, 2019, 33 p. Aprovado pelo MAPA. Padrão brasileiro da raça, categorias de registro e regras de clonagem. herdbook.org.br.
  9. SOCIÉTÉ HIPPIQUE PERCHERONNE DE FRANCE. Histoire. Texto de Jean-Léo Dugast. Origens árabes declaradas como supostas e ameaça de desaparecimento nos anos 1960 e 1970. percheron-france.org.
André Ferreira

André Ferreira

André Ferreira é o responsável pela direção editorial do Multicavalos. Sua área é a pesquisa: reunir a origem e a história de cada raça a partir de fontes primárias, confrontá-las quando discordam e separar o que é dado firme do que é estimativa. É um trabalho de documentação, e cada perfil do acervo passa por esse cuidado antes de ir ao ar.