Cavalos Famosos: Krepysh — O trotador Orlov que virou causa nacional

Recusado por todos os compradores em 1904, Krepysh virou o maior trotador Orlov da história. E quase tudo que se sabe dele foi escrito pelo próprio dono.

Cavalos Famosos: Krepysh —  O trotador Orlov que virou causa nacional
Krepysh em óleo atribuído a Sergey Voroshilov. A pelagem tordilha pomada, com as manchas arredondadas no tronco e na garupa, é a que os contemporâneos descreviam no cavalo. Pintura: S. S. Voroshilov / Domínio público / Wikimedia Commons.
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Entre 1836 e 1910, o trotador Orlov cortou setenta e nove segundos do próprio tempo nos 3.200 metros. Nos sessenta e quatro anos seguintes, cortou doze. O cavalo que marcou o último grande salto dessa curva se chamava Krepysh, e quase tudo que se sabe sobre ele foi escrito pelo homem que era dono dele.
79 sGanhos entre 1836 e 1910
12 sGanhos entre 1910 e 1974
21Herdeiros após a Guerra Civil
No começo do século XX o trotador Orlov vinha perdendo corridas em casa para os mestiços cruzados com o trotador americano. Por décadas a Rússia tinha acreditado que seu trotador nacional era o melhor do mundo, e ninguém tinha testado a crença: as comparações se faziam no papel, por tempos, porque nenhum americano de classe corria na Europa.³

As condições de prova nem sequer eram as mesmas. Na Rússia se corria em arreamento russo, com um arco de madeira sobre o pescoço do cavalo, atrelado a um carro de quatro rodas no verão e a trenó no inverno, com largada parada e em distâncias longas.

O trotador americano puxava um sulky, o carro leve de duas rodas, e, na formulação de Polonchuk, não conhecia sob os cascos nenhum outro piso que não a pista lisa. Quando a Rússia adotou o padrão mundial, na virada do século, o encontro deixou de ser hipotético, e circulava em voz alta a pergunta de se valia a pena continuar criando o Orlov puro.³ ⁶

A recusa de Ilyushin

Krepysh nasceu em 1904 no haras de I. G. Afanasyev. O pai, Gromadny, corria os 3.200 metros em 4.48 e pertencia à linha de Polkan.

Gromadny perdeu um olho num acidente, o que o impediu de mostrar na pista o que valia, mas venceu o Prêmio Imperial de 1900 e, tido como a encarnação do tipo da raça, foi campeão da Exposição Equina russa em 1910. A mãe, Koketka, nunca correu e era neta do recordista Varvar.³

O filho não puxou nada disso. Segundo a reportagem de Alla Polonchuk na revista Zolotoy Mustang, Krepysh era enorme e ao mesmo tempo estreito, de garupa curta e musculatura plana. V. P. Ilyushin, um dos negociantes de cavalos mais conhecidos do país, desistiu de comprar a safra inteira de potros do haras por causa dele.³

Depois das primeiras apresentações fracassadas, M. M. Shapshal, que havia comprado o cavalo no hipódromo, ganhou de presente uma lanterna com uma vela dentro. Era gozação: da próxima vez, ilumine o animal antes de fechar negócio.

Mas testemunhas contavam que os defeitos desapareciam quando ele se movia, e a frase que ficou, que Polonchuk registra sem atribuir a ninguém, é que Krepysh não parecia correr, e sim nadar, para o próprio prazer e o da plateia.³

Setenta e quatro anos, setenta e nove segundos


Os 3.200 metros são a distância com a série mais longa de recordes documentados na história do Orlov. Ela começa com o baio Bychok, nascido no haras de Vasily Chichkin, cuja marca de 1836 no hipódromo de Moscou era recorde mundial na época. Logo depois da corrida ele foi vendido por 36 mil rublos.⁴ ⁶

Em 1836, Bychok cobriu a distância em 5 minutos e 45 segundos. Sessenta anos depois, Poteshny fez 5 minutos exatos. Em 1900, Pitomets baixou para 4.46. E em 1910, Krepysh chegou a 4.25,7 nas mãos de I. Baryshnikov.³ ⁴

Recorde do Orlov nos 3.200 metros
Bychok · 18365.45
Poteshny · 18965.00
Pitomets · 19004.46
Krepysh · 19104.25,7
Ulov · 19344.20,6
Pion · 19744.13,5

Recordes documentados da raça na distância, não o desempenho médio do Orlov. Polonchuk, Zolotoy Mustang n. 4(83) e n. 4(84), 2009.

São setenta e nove segundos cortados em setenta e quatro anos, até Krepysh. Depois dele, doze segundos em sessenta e quatro.

Ulov, nascido em 1928, foi em 1933 o primeiro Orlov a correr mais rápido que Krepysh nos 1.600 metros, e no ano seguinte tirou cinco segundos da marca dos 3.200. Pion, nascido em 1966 no haras de Dubrovka, três vezes campeão da raça na exposição agrícola de Moscou, tirou outros sete quarenta anos depois.⁶

O tempo de Pion é de 1974 e continua sendo o recorde da raça na distância. Nenhum Orlov o superou em cinquenta e dois anos, e mesmo entre os trotadores das raças Russa e Americana nascidos na Rússia, que são mais rápidas, apenas dois correram os 3.200 metros em menos tempo.⁶

A Rússia tomou Krepysh como prova de que o Orlov ainda podia alcançar o trotador americano se fosse bem criado e bem treinado. A raça nunca alcançou. Krepysh foi o último grande salto de velocidade que ela deu.

Feno do Báltico, água de Moscou

Shapshal foi dono e treinador, e montou para o cavalo um regime que a imprensa da época achou digno de nota. O feno vinha do Báltico ou da Crimeia, nas folgas entre as corridas Krepysh bebia água mineral de Borjomi, e nas viagens seguiam junto barris com a água de Moscou a que ele estava acostumado.³

Contava-se que o trajeto das cocheiras até a pista era feito em cortejo: dois circassianos armados à frente, atrás deles o cavalo sob manta com dois cavalariços, e por último o dono com o condutor.³ ¹⁰

Os circassianos eram montanheses do Cáucaso, e o império os empregava na escolta pessoal do tsar. Abrir caminho com dois deles era pegar emprestada a imagem da guarda imperial para um cavalo de corrida.

O Derby de 1908

Krepysh estreou aos três anos na cocheira de V. Yakovlev. Em 1908, aos quatro, correu quinze vezes, sete delas em prêmios reservados a Orlov, quatro em provas abertas a qualquer trotador e quatro contra o relógio, sem adversário, para tentar bater recordes.³

O Derby corria-se desde 1899 sobre 1.600 metros, aberto a trotadores de quatro anos de qualquer raça nascidos na Rússia. Antes da revolução chamava-se Prêmio Bars, em homenagem ao garanhão Bars I, fundador da raça Orlov. Nas primeiras edições só havia Orlov na pista; depois que abriu para todos, os mestiços começaram a ganhar dos melhores.⁶

Era, portanto, a prova em que um Orlov puro podia provar alguma coisa, e Krepysh entrou nela como carta principal de quem se opunha ao cruzamento. Mas horas antes, no mesmo dia, Shapshal o inscreveu numa corrida contra o relógio para atacar o recorde de Orlov de quatro anos na distância, que era 2.17. Krepysh fez 2.14,3 sem dificuldade.⁵

Chegou ao Derby gasto por aquele esforço. A favorita era a baia Slabost, mestiça. A prova se disputava em baterias. Na largada da primeira, Slabost cometeu uma sucessão de falsas partidas: a cada anulação, todos voltavam para a linha e recomeçavam. Sobre um cavalo já cansado, a espera repetida pesou mais. Slabost venceu.³ ⁵

Shapshal explicou a derrota no livro que escreveu sobre o cavalo, Biografia de Krepysh. Segundo ele, um mês e meio depois do Derby se disputava o Prêmio do Conde Orlov-Chesmensky, que para um Orlov importava mais, e o vencedor do Derby ficava impedido de participar dele.

A explicação é coerente, e Polonchuk aceita a lógica. Em seguida aponta o que ela não acomoda: se a estratégia era poupar o cavalo para o prêmio seguinte, a corrida contra o relógio de duas horas antes não devia ter existido.³

Os contemporâneos atribuíam as derrotas ao condutor V. Yakovlev, que não corrigia um hábito do cavalo: Krepysh afrouxava o passo antes do poste de chegada, em vez de forçar até cruzar a linha. Yakovlev respondia às críticas com uma bravata, dizendo que o cavalo era superior a ponto de nunca precisar disputar uma chegada.³

A conta veio em 17 de janeiro de 1910, nos 3.200 metros, contra a mestiça Nevzgoda, conduzida pelo americano William Keaton, o condutor mais respeitado da Rússia. Num dia de muito vento, Krepysh puxou a prova inteira e Nevzgoda, colada atrás dele, o passou no último poste com meia cabeça de vantagem, uma das menores margens que uma corrida registra, em 4.37,3.³
A manta de 1910

No encontro seguinte a revanche saiu, e saiu por um caminho que Polonchuk descreve como não exatamente esportivo. Sabendo que Nevzgoda se desgastava rápido antes da largada, Shapshal convenceu Yakovlev a atrasar a partida em dez minutos. A égua queimou a energia parada e Krepysh venceu.

Terminada a prova, o cavalo desfilou diante das arquibancadas coberto por uma manta feita sob medida para aquele dia, com uma frase bordada: "ri melhor quem ri por último".

A peça não sobreviveu e é conhecida apenas por relato. O que ela registra é o método: a vitória foi obtida na largada, e a versão que ficaria estava costurada antes de o público sair do hipódromo.³

Verão de 1909

Os dois trotadores mais rápidos do mundo desembarcaram na Rússia no verão de 1909: a égua Lou Dillon, de 1.58,4, e o castrado Uhlan, de 1.59. Shapshal propôs pela imprensa uma prova conjunta com Krepysh.³

O proprietário Billings e o treinador Charles Tanner recusaram a corrida e recusaram também a exibição de rotina em que recordistas mostravam trabalho rápido ao público. O argumento foi o estado da pista do hipódromo de Moscou.³

Polonchuk levanta a hipótese de que Tanner, que acompanhava as atuações de Krepysh de perto, tenha preferido não arriscar, porque uma derrota para o Orlov seria péssima propaganda para o trotador americano.

De volta aos Estados Unidos, Tanner e outros publicaram na imprensa esportiva que Krepysh era o mais rápido da Europa e que seus tempos reais seriam 2.06 ou melhores. Keaton dizia não saber o que o cavalo faria na América, mas que na Rússia sua velocidade real era 2.05 nos 1.600 metros e 4.20 nos 3.200.³

Nenhum desses números foi verificado em pista. São estimativas de pessoas com interesse na resposta, publicadas depois de a corrida não acontecer. O 4.20 que Keaton atribuía a Krepysh só seria alcançado por um Orlov em 1934, por Ulov, vinte e quatro anos depois.³ ⁴

27 de agosto de 1910

Krepysh vinha correndo muito e bem em 1910, e o plano era deixá-lo descansar até agosto, quando haveria um encontro demonstrativo contra outros Orlov. Para aquilo, nove ou dez dias de trabalho bastariam.³

O que aconteceu foi outra coisa: a Sociedade de Corridas de Moscou impôs, para 27 de agosto, uma prova contra Prosti, égua baia filha do trotador americano Pass Rose e uma das primeiras recordistas da linhagem mestiça que em 1949 seria oficializada como raça Trotadora Russa.⁹

Shapshal e o condutor I. Baryshnikov tentaram recusar e não conseguiram, e tiveram que preparar o cavalo às pressas. Prosti vinha treinando normalmente e estava em forma.³

Prosti venceu em 2.08. Krepysh chegou em segundo, em 2.08,6. Segundo Polonchuk, o esforço a que ele foi obrigado tirou o cavalo de forma, e a forma nunca voltou por inteiro: daí em diante Krepysh venceu pela qualidade que tinha de nascença, já sem o preparo que o sustentava antes. A reserva de velocidade que ninguém tinha medido sumiu, e nunca se soube de quanto ele era capaz.³

A ligação entre aquela corrida e a queda é leitura de Polonchuk, não conclusão de exame feito na época. Krepysh tinha seis anos e uma temporada cheia nas costas, o que também explicaria o desgaste.

Naquele mesmo ano de 1910 ele tinha estabelecido os dois números que ficaram: 2.08,5 em pista de gelo, sob Yakovlev, e 4.25,7 nos 3.200 metros, nas mãos de Baryshnikov. De todos os recordes dele, o único derrubado ainda no período czarista foi o dos 1.600 metros, e quem o derrubou foi a mesma Prosti, com 2.08.³ ⁶

12 de fevereiro de 1912

O Prêmio Internacional de 12 de fevereiro de 1912 foi o primeiro encontro de Krepysh com trotadores americanos em pista, contra General H, de 2.04,6, e Bob Douglas, de 2.04,4. O cavalo já estava na cocheira de William Keaton, principal importador de trotadores americanos para a Rússia.³

No General H corria Frank Keaton, pai de William. Na véspera da prova, William foi direto com Shapshal: se General H corresse bem, ele não iria ultrapassá-lo. E ofereceu entregar Krepysh a qualquer condutor russo.¹⁰

Shapshal recusou. Nos escritos dele as razões são que não queria ofender Keaton e que a troca de mãos faria mal ao cavalo. Urnov, que reconstituiu o episódio, não considera nenhuma das duas suficiente.¹⁰

Houve sondagem, e ela tem a marca do resto da história. O condutor russo Afanasy Pasechnoy contou depois que Shapshal negociou com ele para assumir Krepysh se fosse necessário. Nunca foi chamado.¹⁰

O condicional é o que resolve. Keaton prendeu a promessa ao desempenho do rival, e General H estava mancando na véspera, o que provavelmente convenceu Shapshal de que não haveria adversário. No dia da prova o americano foi apresentado inteiro.¹⁰

Urnov levanta a hipótese de agulha no músculo, recurso que deixa o cavalo manco e é retirado antes da largada, mas a apresenta como suposição.¹⁰

O acesso ao hipódromo foi fechado às duas da tarde, porque as arquibancadas não comportavam quem tinha vindo. A prova se resolveu entre Krepysh e General H, e Krepysh perdeu.³

O resultado alimentou acusações de suborno durante anos. Grigory Groshev, que trabalhou muito tempo com os Keaton e depois virou condutor, viu a prova ainda jovem e contou que William conduziu Krepysh como se fosse cavalo de acompanhamento, sem criar disputa e chegando a estimular General H com uma concorrência de fachada.³ ¹⁰

A condutora Alla Polzunova acrescenta a explicação técnica. Keaton chamava Krepysh de cavalo sem coração e fez com ele, no último trabalho antes do páreo, uma sessão em velocidade próxima à de recorde. Depois disso não era preciso trapacear na pista: bastava saber que o cavalo pararia por sobre-esforço.¹⁰

General H cruzou a linha um segundo à frente, o equivalente a quatro corpos. O hipódromo ficou em silêncio e o vencedor não foi saudado.¹⁰

Depois da prova, Keaton disse que Krepysh já era apenas a sombra do Krepysh de antes. E seguiu conduzindo o cavalo: das dezesseis largadas de 1912, Krepysh venceu doze sob as rédeas dele, e foi com Keaton que estabeleceu naquele ano o recorde das quatro verstas, 6.16,1.³

Kindiyanovka, 1918

Em 1913 Krepysh saiu do hipódromo e foi para o haras de A. Tolstaya como reprodutor. Ficou lá quatro anos. O haras foi nacionalizado depois da revolução e a maior parte do plantel morreu na Guerra Civil.³

Em 1918 Krepysh estava em Simbirsk, cidade em disputa, quando se decidiu evacuá-lo para Moscou. Morreu na estação ferroviária de Kindiyanovka.³

A versão mais detalhada vem de Alexander Popov, que dirigiu o primeiro haras de Moscou, e chegou pela recolha de Urnov. A evacuação foi improvisada, por gente sem preparo e sem material adequado, e por ser emergencial não seguiu junto o cavalo de acompanhamento com quem Krepysh viajava sempre e sem o qual não entrava em vagão nenhum.¹⁰

Diante da rampa ele empacou. Forçaram-no a subir e ele caiu da plataforma. Se morreu no impacto ou quebrou um membro e teve de ser sacrificado, as fontes não concordam.¹⁰

Yakov Butovich, criador e colecionador que mantinha Gromadny em seu haras de Prilepy, procurou testemunhas e publicou o que apurou num artigo chamado "A morte de Krepysh". Escreveu-o em 1927 e responsabilizou um sapateiro de Simbirsk chamado Bureev, nomeado para administrar a cavalariça.³ ¹⁰

Cada corrida daquele cavalo tinha sido cronometrada, publicada e discutida em segundos e décimos por sete temporadas. A morte dele sobrou em versões que não fecham.

Doze garanhões e nove éguas

Quando a Guerra Civil terminou, restavam doze garanhões e nove éguas descendentes de Krepysh. Pela linha masculina não sobrou nada, e o sangue seguiu adiante pelo lado que o sistema de registro contava menos.³ ⁶

O filho de maior difusão na raça foi Pokhod, de 2.18. É aos descendentes dele, pelas linhas maternas e através do garanhão Blokpost, que a Zolotoy Mustang faz remontar Playboy, de 2.05,6, e o recordista absoluto Kovboy, que correu os 1.600 metros em 1.57,2, marca ainda não superada.³ ¹

A rota final dessa ligação não está documentada em nenhuma fonte que se possa abrir: o nome da mãe de Blokpost e a cadeia dela até Pokhod só existem no livro genealógico da raça.

O caso mais bem documentado é Ippik. Nascido em 1980, foi o primeiro Orlov a correr os 1.600 metros abaixo de dois minutos, em 1.59,7, e é recordista absoluto da raça nos 2.400 metros, com 3.02,5.

Os dois lados de sua genealogia descendem de Krepysh: o pai, Persid, remonta a Kruchina-Krepysha, filha dele, e a mãe, Ifigenia, remonta a Mina, neta de Pokhod.³ ⁷ Ifigenia era a égua que puxava a carroça do carteiro rural no Altai.²

Em 2009, no Instituto de Pesquisa em Criação Equina, em Divovo, Lilia Kalinkova defendeu uma tese sobre a influência das linhas femininas na evolução do trotador Orlov.

Entre as conclusões estão duas que descrevem exatamente este caso: a maioria dos garanhões que continuaram linhas nasceu em famílias hoje escassas ou já extintas, e algumas linhas masculinas influenciaram a evolução de outras através de suas representantes fêmeas.⁸

A tese propõe que se passe a avaliar garanhões também como pais de éguas de criação, e não apenas como pais de garanhões.⁸

Oitenta anos depois de o cavalo morrer numa estação de trem, o instrumento de medida virou para o lado por onde a herança dele tinha passado.
De onde vem esta história

A maior parte do que se conta sobre Krepysh nasceu de duas mãos interessadas. M. M. Shapshal, dono e treinador, escreveu a Biografia de Krepysh, que é a origem da versão que circula até hoje, inclusive da explicação para a derrota no Derby de 1908. Yakov Butovich, criador e colecionador, investigou a morte do cavalo e publicou o resultado sem conseguir fechá-la.

As duas reportagens de Alla Polonchuk na Zolotoy Mustang, publicadas em números seguidos de 2009, são a fonte contemporânea mais completa em russo, e é a autora quem aponta as costuras: o recorde de tempo corrido duas horas antes do Derby, que a explicação de Shapshal não acomoda, e a largada atrasada que produziu a revanche contra Nevzgoda.

Nas mesmas duas reportagens o tempo dos 3.200 metros aparece como 4.25,7 numa e 4.25,8 na outra, e a data de nascimento sai impressa como 1944 em vez de 1904. São erros de edição, não divergência de fonte.

O nome do pai de William Keaton diverge entre as fontes. A reportagem da Zolotoy Mustang o registra apenas como S. Keaton; Urnov o nomeia Frank.

Urnov apoia-se no testemunho escrito de V. P. Volkov, cujo próprio pai trabalhou como ajudante de Frank e que descreve a família inteira, com William e Samuel como os dois filhos condutores. O texto segue Urnov, por ser o relato com testemunha nomeada.

Duas coisas ficaram sem verificação. O total consolidado da carreira, 79 largadas e 55 vitórias, aparece na Wikipedia em russo mas não nas reportagens assinadas, cujos números por temporada somam menos que isso.

E a ligação genealógica entre Krepysh e Kovboy depende de um elo, a ascendência materna do garanhão Blokpost, que só existe no livro genealógico da raça, cuja base não permite consulta livre.

Quanto tempo os recordes de Krepysh duraram?

Depende da distância. Nos 1.600 metros o recorde caiu ainda em vida dele, para a mestiça Prosti. Em 1939, dos 14 Orlov que correram 2.10 ou melhor nessa distância, oito já eram mais rápidos que Krepysh.

Por que os mestiços americanos venciam os trotadores Orlov

Porque foram selecionados para coisas diferentes. O trotador americano veio de gerações escolhidas só por velocidade em pista de corrida. O Orlov, desde a fundação da raça, era provado em percursos que iam de três quilômetros a mais de vinte, puxando peso em estrada no verão e em trenó no inverno. Quando a Rússia adotou o formato americano, o teste deixou de medir aquilo em que o Orlov era bom.

Existe filme ou livro sobre Krepysh?

Sim. O Prêmio Internacional de 1912 ocupa várias páginas do romance O neto de Taglioni, de Piotr Shiryaev, e a mesma prova aparece no filme soviético Krepysh. O dono do cavalo, M. M. Shapshal, escreveu a Biografia de Krepysh, que é a origem de boa parte do que se conta sobre ele.

Quem foi Yakov Butovich?

Criador e colecionador russo, dono do haras de Prilepy, onde reuniu cavalos Orlov e arte equestre. Manteve Gromadny, o pai de Krepysh, e investigou a morte do cavalo em 1918 sem conseguir reconstituí-la.

Fontes


  1. GRANDE ENCICLOPÉDIA RUSSA. Raça trotadora Orlov. Recorde de Kovboy, 1.57,2 em 1991. old.bigenc.ru.
  2. KOMSOMOLSKAYA PRAVDA (Altai). Reportagem sobre Ippik, dezembro de 2025. Origem da égua Ifigenia. alt.kp.ru.
  3. POLONCHUK, A. Krepysh. O rei dos trotadores Orlov. Zolotoy Mustang, n. 4(83), 2009. Nascimento, exterior, regime de Shapshal, carreira temporada a temporada, Derby de 1908, Nevzgoda, recusa americana de 1909, Prosti, Prêmio Internacional de 1912, morte e descendência. goldmustang.ru.
  4. POLONCHUK, A. Orgulho da Rússia! O trotador Orlov. Zolotoy Mustang, n. 4(84), 2009. Série de recordes nos 3.200 metros de 1836 a 1974 e fundação da Sociedade dos Amantes do Trote em 1834. goldmustang.ru.
  5. WIKIPEDIA (russo). Krepysh. Corrida contra o relógio de 2.14,3 antes do Derby de 1908, recorde anterior de 2.17, partidas falsas de Slabost, descendência registrada após a Guerra Civil e extinção da linha masculina. ru.wikipedia.org.
  6. WIKIPEDIA (russo). Trotador Orlov. Recorde de Prosti como único batido no período czarista; os 14 Orlov de 1939 e os oito mais rápidos que Krepysh; recordes de Ulov. ru.wikipedia.org.
  7. RUWIKI. Trotador Orlov. Ippik como primeiro Orlov abaixo de dois minutos e sua ascendência materna. ru.ruwiki.ru.
  8. KALINKOVA, L. V. Influência das linhas femininas nos processos de microevolução da raça trotadora Orlov. Tese de doutorado em ciências agrárias, Instituto de Pesquisa em Criação Equina, Divovo, região de Ryazan, 2009, 185 p. Conclusões sobre linhas femininas e avaliação de garanhões como pais de éguas. dissercat.com.
  9. WIKIPEDIA (russo). Trotador Russo. Prosti (Pass Rose e Mashistaya, 1902) e Pylyuga como primeiros recordistas da linhagem mestiça; oficialização da raça em 1949. ru.wikipedia.org.
  10. URNOV, D. M. Pochemu proigral Krepysh [Por que Krepysh perdeu], capítulo de Na blago loshadei. Ocherki ippicheskie. Testemunho de V. P. Volkov sobre o clã Keaton, declaração de William Keaton a Shapshal na véspera do Prêmio Internacional, relato de A. F. Pasechnoy, leitura técnica de A. Polzunova, versão de A. I. Popov sobre a morte e artigo de Butovich de 1927. document.wikireading.ru.
André Ferreira

André Ferreira

André Ferreira é o responsável pela direção editorial do Multicavalos. Sua área é a pesquisa: reunir a origem e a história de cada raça a partir de fontes primárias, confrontá-las quando discordam e separar o que é dado firme do que é estimativa. É um trabalho de documentação, e cada perfil do acervo passa por esse cuidado antes de ir ao ar.