Cavalos e Suas Origens: Kabardin — O Cavalo Forjado nas Montanhas do Cáucaso

O Kabardin é uma raça equina do Cáucaso setentrional criada no século XVI pelas tribos circassianas. Resistência extrema em montanha e marcha natural única.

Cavalos e Suas Origens: Kabardin — O Cavalo Forjado nas Montanhas do Cáucaso
Garanhão Kabardin "Edils Echnaton". Foto: Kabardinergestüt Gruselsberg
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Um oficial habsburgo descreveu, durante a Guerra Russo-Circassiana, como príncipes inimigos percorreram 170 quilômetros em 14 horas antes de um ataque. "Apenas o cavalo Kabardin era capaz disso", escreveu com inveja explícita. A raça foi criada no século XVI pelas tribos circassianas nas montanhas do Cáucaso, quase desapareceu com o colapso soviético e hoje conta com entre 10.000 e 12.000 animais no lugar de origem.
Séc. XVIOrigem documentada
5.642 mAltitude documentada no Monte Elbrus
10–12 milAnimais estimados no Cáucaso hoje
O Kabardin é uma raça equina originária do Cáucaso setentrional, a porção norte da cadeia montanhosa que separa a Europa da Ásia, na região que hoje corresponde à República de Kabardino-Balkária, na Rússia. 

Sua história documentada remonta ao século XVI, quando tribos da Circássia Oriental, os Kabardes, também conhecidos na literatura histórica ocidental como Circassianos, já criavam cavalos adaptados às condições severas da região.¹ ³

O stud book é administrado pelos haras de Kabardino-Balkária, com o registro histórico mantido pelo VNIIK, o Instituto Russo de Criação de Cavalos. 

O Kabardin é frequentemente descrito como um dos cavalos de montanha mais adaptados do mundo, com relatos documentados de ascensão ao cume do Monte Elbrus, pico com 5.642 metros de altitude.¹ ⁵

Como o Kabardin é conhecido

Em inglês, a raça é conhecida como Kabarda horse, Kabardin ou Kabardian horse. Na Rússia, o nome oficial é Kabardinskaya. Os Kabardes são também chamados de Circassianos na literatura histórica ocidental, o que explica por que a raça aparece ocasionalmente como Circassian horse em textos mais antigos. O Anglo-Kabardin, cruzamento com o Puro Sangue Inglês, é referenciado em inglês como Anglo-Kabarda.¹ ³

A origem no Cáucaso

A raça se formou a partir de cruzamentos entre cavalos das estepes e raças orientais: o Karabakh, raça do Azerbaijão conhecida pela velocidade e elegância; o Árabe; o Persa; e o Turcomano, raça nômade das estepes da Ásia Central ancestral do Akhal-Teke. 

Cada um contribuiu com características de resistência, agilidade e adaptação climática.¹ ³

As tribos Kabardes mantinham seus cavalos em manadas chamadas de taboons, sistema de criação ao ar livre sem estabulação permanente, tradicional nas regiões das estepes e montanhas da Ásia Central. No taboon típico, cerca de 20 éguas vivem com um único garanhão.¹ ⁵

No verão, os animais sobem às pastagens alpinas seguindo a linha de degelo. No inverno descem aos contrafortes, as encostas de menor altitude na base da cadeia montanhosa, sob vigilância dos pastores. O Kabardin recebe suplementação mínima, apenas sal, durante os meses nas alturas.¹ ⁵

Esse manejo, repetido por séculos, moldou um animal capaz de orientar-se em terreno acidentado, conservar energia em condições extremas e recuperar-se rapidamente após esforço prolongado.¹
F.F. Turnau, oficial habsburgo, Guerra Russo-Circassiana"Apenas o cavalo Kabardin era capaz disso." O relato descreve príncipes inimigos que percorreram 170 quilômetros em 14 horas antes de um ataque na região do Kuban. É uma das primeiras descrições externas documentadas do desempenho da raça em condições de guerra.

A era soviética e o quase desaparecimento

No início do século XX, antes da Revolução de 1917, o Conde Stroganov iniciou um programa de cruzamento dos Kabardins com Árabes, com resultados considerados satisfatórios pela literatura da época. 

Depois da revolução, os números caíram drasticamente. A reconstrução começou nos anos 1920, mas foi lenta.¹

Entre 1935 e 1953, os volumes I a III do stud book registraram 446 garanhões e 3.272 éguas de raça pura. Nas décadas seguintes, o núcleo reprodutor caiu para entre 400 e 450 éguas, concentradas nos haras Malkinski e Malokarachaevski e em fazendas coletivas da região de Stavropol.¹

A queda foi atribuída, em parte, ao desempenho dos Kabardins nas provas de hipódromo, critério que favorece raças de velocidade em linha reta, não cavalos formados para subir e descer montanhas.

A Oklahoma State University, com base no levantamento da FAO de 1989, registra o alerta direto: a raça necessita de proteção.¹

Com o colapso da União Soviética em 1991, a situação piorou rapidamente. Segundo o criador alemão Tobias Knoll, entrevistado pela Radio Free Europe em 2018, centenas de animais foram transportados para outros países para abate enquanto os programas de criação soviéticos se desintegravam.

O pico histórico da raça teria chegado a cerca de 100.000 animais no Cáucaso, segundo estimativa do próprio Knoll.²

Como é o Kabardin

O Kabardin é um cavalo compacto e limpo, construído para terreno difícil. A conformação reflete diretamente a função: solidez estrutural, membros curtos e secos, cascos excepcionalmente duros.¹ ⁴
Altura145 a 155 cm na cernelha, com média documentada de 145 a 152 cm para a maioria dos animais. Garanhões em haras chegam a 155 cm.
Medidas de harasLevantamento FAO/Oklahoma State para garanhões: comprimento oblíquo do corpo 153 cm, perímetro torácico 180 cm, perímetro da canela 20 cm. Indicadores de estrutura robusta para o porte do animal.
CabeçaPerfil reto ou levemente convexo, às vezes com nariz romano, o perfil com a ponte levemente abaulada característico de algumas raças orientais. Orelhas longas com as pontas voltadas para dentro, uma das marcas visuais mais distinctivas da raça.
Pescoço e cernelhaPescoço de comprimento médio a longo e musculoso. Cernelha média a alta e longa.
CorpoDorso curto e reto. Lombo bem musculado. Garupa levemente inclinada mas com musculatura densa.
MembrosCurtos, secos e sólidos, com articulações limpas e bem desenvolvidas. Os posteriores apresentam frequentemente uma curvatura característica dos jarretes, as articulações traseiras equivalentes ao joelho humano. Os cascos são notavelmente duros, adaptação direta ao terreno pedregoso do Cáucaso.
PelagemBaio-cereja e baio-escuro predominantes. Preto ocorre com regularidade. Tordilho e alazão são mais raros. A maioria dos animais não tem marcações brancas.
Crina e caudaPodem ser bastante espessas e onduladas.

Os três subtipos

O stud book reconhece três subtipos dentro da raça, além de quatro linhagens de sangue distintas dentro da população pura.¹
Tipo básicoO mais comum. O cavalo de sela típico de montanha, encorpado e bem musculado. Temperamento equilibrado, indicado para cavaleiros de diferentes níveis de experiência.
Tipo orientalMaior influência árabe. Cabeça menor, membros mais finos, pele mais delgada e temperamento mais vivo. O mais exigente dos três em termos de manejo e experiência do cavaleiro.
Tipo maciçoMaior e com ossatura mais robusta, próximo de um cavalo de tração leve. Usado em trabalho pesado e atrelagem em terreno de montanha.

O que o Kabardin consegue fazer

O Kabardin não é um cavalo de hipódromo. Em resistência e em terreno montanhoso, os dados documentados são expressivos.¹
Velocidade — pistaRecordes registrados pela Oklahoma State University com base no levantamento da FAO: 1 min 54 s nos 1.600 m e 2 min 44,2 s nos 2.400 m.
Longa distânciaRecorde nos 50 quilômetros: 1 hora, 41 minutos e 25 segundos.
AltitudeRelatos documentados de ascensão ao cume do Monte Elbrus, com 5.642 metros de altitude. A adaptação fisiológica à baixa pressão de oxigênio é citada pela Oklahoma State University como uma das características mais distintivas da raça.
OrientaçãoKabardins conseguem encontrar o caminho de volta ao haras mesmo em neblina densa e escuridão total, segundo múltiplas fontes primárias. É uma adaptação prática direta ao ambiente de montanha.
Marcha naturalAlguns exemplares realizam uma marcha amblante natural, andamento lateral em que os dois membros do mesmo lado se movem juntos. Não é uma característica universal da raça.
UsosSela, carga, tração leve, atrelagem, enduro. Tribos do Cáucaso utilizam Kabardins atrelados a ceifadeiras de tração animal em encostas íngremes.

Temperamento

O Kabardin é descrito consistentemente como dócil, obediente e equilibrado. É vigoroso sem ser nervoso, ágil sem ser imprevisível. Mantém a calma em condições adversas e responde bem ao trabalho em situações difíceis.¹ ⁴

Essa estabilidade não é acidental. Séculos de uso como cavalo de guerra e transporte nas montanhas selecionaram animais que não desperdiçam energia com reações exageradas e que mantêm o foco em terreno instável.¹

O subtipo oriental é o mais vivo dos três. Quem busca um Kabardin de temperamento mais calmo tende a procurar o tipo básico ou o maciço.¹

O Kabardin tende a acumular gordura com facilidade quando estabulado e alimentado com ração rica, característica que ajuda os animais em manejo extensivo a sobreviver em condições extremas, mas que exige atenção do criador em manejo intensivo.⁴

O Anglo-Kabardin

Na primeira metade do século XX, cruzamentos entre Kabardins e Puro Sangue Ingleses deram origem ao Anglo-Kabardin, reconhecido oficialmente como grupo racial em 1966. A proporção de sangue inglês variou de 5/8 a 3/4.¹

O resultado foi um cavalo de constituição sólida, velocidade superior à do Kabardin puro e temperamento mais vivo, mantendo parte da rusticidade da raça original. 

Os haras de Kabardino-Balkária e da região de Stavropol criaram tanto Kabardins puros quanto Anglo-Kabardins em paralelo.¹

O Kabardin fora da Rússia

Fora do país de origem, o Kabardin contribuiu para o melhoramento de raças nativas da Armênia, Azerbaijão e Geórgia, além de ter participado da formação do Tersky, raça russa de cavalos de esporte criada nos anos 1940.¹

Na Europa Ocidental, a recuperação da raça a partir dos anos 1990 foi liderada por criadores individuais. Tobias Knoll, criador alemão entrevistado pela Radio Free Europe em 2018, encontrou seu primeiro Kabardin sozinho numa fazenda na Bavária em 1996 e fundou um haras.

Na Polônia, o criador Pawel Krawczyk ajudou treinadores russos a estabelecer haras perto de Cracóvia nos anos 2000. Hoje há cerca de 70 a 100 Kabardins no país. Grupos menores existem na Áustria, República Tcheca, França, Hungria, Eslováquia, Espanha e Suíça.²

A recuperação mais expressiva, porém, é no próprio Cáucaso. Knoll estima a população atual entre 10.000 e 12.000 animais na região de origem, uma recuperação significativa em relação às poucas centenas de éguas registradas nos anos 1990.

Criadores locais, incluindo oligarcas e empresários, mantêm rebanhos de centenas de animais em Kabardino-Balkária.²

Curiosidades

170 km em 14 horasO relato do oficial habsburgo F.F. Turnau é uma das primeiras descrições externas do desempenho do Kabardin em condições reais. A distância percorrida, 170 quilômetros em 14 horas, equivale a uma média de pouco mais de 12 km/h sustentados durante a madrugada em terreno de montanha, com cavaleiros armados. O oficial escreveu com "inveja explícita", expressão usada pela fonte que registrou o relato.
O hipódromo como critério erradoO declínio do Kabardin nas décadas soviéticas foi atribuído, em parte, ao desempenho insuficiente nas provas de hipódromo. O hipódromo mede velocidade em linha reta em pista plana. O Kabardin foi criado para subir e descer montanhas, carregar carga e manter resistência por longas horas. Usar o hipódromo como critério para avaliar um cavalo de montanha é, segundo as fontes da raça, o equivalente a avaliar um escalador pela velocidade nos 100 metros rasos.
O Monte Elbrus a 5.642 metrosO Monte Elbrus é o pico mais alto do Cáucaso. Há relatos documentados de ascensão ao cume montado num Kabardin. A adaptação fisiológica à altitude, com eficiência circulatória em condições de baixa pressão de oxigênio, é citada pela Oklahoma State University como uma das características mais distintivas da raça. A maioria das raças equinas apresenta queda significativa de desempenho acima de 3.000 metros.
Orientação em neblina densaMúltiplas fontes primárias sobre o Kabardin descrevem a capacidade dos animais de encontrar o caminho de volta ao haras mesmo em neblina densa e escuridão total. É uma adaptação prática direta ao ambiente de montanha, onde neblina e escuridão são condições frequentes. Criadores europeus que trabalham com a raça confirmam esse comportamento nos animais importados.
O criador alemão que encontrou o Kabardin numa fazenda da BaváriaEm 1996, Tobias Knoll encontrou seu primeiro Kabardin sozinho numa fazenda na Bavária. Não conhecia a raça. Ficou impressionado o suficiente para fundar um haras e passar as décadas seguintes importando animais do Cáucaso. Em 2018, quando foi entrevistado pela Radio Free Europe, tinha um dos maiores plantéis fora da Rússia. "Aqui na Europa não vamos salvar a raça. É lá que precisamos salvar os cavalos", disse.
O Anglo-Kabardin: sangue inglês nas montanhasO Anglo-Kabardin é o resultado de cruzamentos entre o Kabardin e o Puro Sangue Inglês, iniciados na primeira metade do século XX e formalizados como grupo racial em 1966. A proporção de sangue inglês variada de 5/8 a 3/4 produziu um animal mais veloz que o Kabardin puro, mantendo parte da rusticidade de montanha. É um exemplo do mesmo processo que criou o Sela Francês na Europa: sangue oriental em cima de uma base robusta para produzir atletismo esportivo.

Ficha técnica

NomeKabardin / Kabarda horse / Kabardian horse
Nome russoKabardinskaya (Кабардинская)
OrigemCáucaso setentrional, República de Kabardino-Balkária, Rússia
Origem documentadaSéculo XVI: tribos circassianas (Kabardes)
Raças formadorasKarabakh, Árabe, Persa, Turcomano, cavalos das estepes
Altura145 a 155 cm na cernelha (média 145 a 152 cm)
PelagensBaio-cereja e baio-escuro predominantes. Preto, tordilho e alazão também ocorrem.
SubtiposTipo básico, tipo oriental, tipo maciço
Manejo tradicionalTaboon: criação em manada ao ar livre, migração sazonal entre pastagens alpinas e contrafortes
Altitude documentada5.642 m (cume do Monte Elbrus)
Pop. no CáucasoEntre 10.000 e 12.000 animais estimados (Tobias Knoll / RFE, 2018)
Pop. na Europa~70 a 100 na Polônia; grupos menores em Áustria, Tchéquia, França, Hungria, Eslováquia, Espanha, Suíça, Alemanha
Grupo relacionadoAnglo-Kabardin (reconhecido como grupo racial em 1966)
AptidãoSela, carga, tração leve, atrelagem, enduro, trabalho em montanha
O Kabardin realmente sobe montanhas que outras raças não conseguem?

Há relatos documentados de ascensão ao cume do Monte Elbrus, com 5.642 metros de altitude, montado num Kabardin. A adaptação fisiológica à altitude, com resistência em condições de baixa pressão de oxigênio, é citada pela Oklahoma State University com base no levantamento da FAO como uma das características mais distintivas da raça.¹ ⁵

Quantos Kabardins existem hoje?

O levantamento da FAO de 1989 registrou 400 a 450 éguas reprodutoras nos haras de Kabardino-Balkária. Com o colapso soviético, a população caiu para poucas centenas nos anos 1990. O criador Tobias Knoll, entrevistado pela Radio Free Europe em 2018, estima entre 10.000 e 12.000 animais no Cáucaso atualmente. Na Europa, há cerca de 70 a 100 na Polônia e grupos menores em outros países.¹ ²

O que é o taboon?

Sistema de criação em manada ao ar livre sem estabulação permanente, tradicional nas estepes e montanhas da Ásia Central e do Cáucaso. No taboon típico do Kabardin, cerca de 20 éguas vivem com um único garanhão. No verão sobem às pastagens alpinas; no inverno descem aos contrafortes. O Kabardin recebe suplementação mínima durante os meses nas alturas.¹ ⁵

O Kabardin é adequado para iniciantes?

As fontes descrevem a raça como dócil e de temperamento equilibrado. O subtipo oriental é o mais vivo dos três e exige mais experiência do cavaleiro. O tipo básico e o maciço são os mais indicados para cavaleiros menos experientes. Nenhuma fonte consultada trata especificamente do uso por iniciantes absolutos.¹ ⁴

Fontes

  1. Oklahoma State University. Breeds of Livestock: Kabarda Horse. Baseado em Dmitriez, N.G. e Ernst, L.K. (1989). Animal Genetic Resources of the USSR. FAO Animal Production and Health Paper. Disponível em: afs.okstate.edu.
  2. Radio Free Europe / Radio Liberty. Legendary Kabardian Horses Galloping To Comeback (2018) — dados de população europeia, Tobias Knoll, Pawel Krawczyk, colapso soviético. Disponível em: rferl.org.
  3. Wikipedia. Kabarda horse. Disponível em: en.wikipedia.org/wiki/Kabarda_horse.
  4. Mad Barn. Kabarda Horse Breed: History, Characteristics and Management. Disponível em: madbarn.com.
  5. Globetrotting. Horse breed: Kabarda — Monte Elbrus, taboon, dados de comportamento. Disponível em: globetrotting.co.
  6. Royal Horse. Le cheval Kabardin. Disponível em: royal-horse.com.
André Ferreira

André Ferreira

André é o responsável atual pela condução editorial e estratégica do Multicavalos, um portal voltado ao universo equestre. Entusiasta do ramo, André dedica-se ao estudo e à observação do setor, buscando compreender suas práticas, rotinas, desafios e evoluções.