Cavalos e Suas Origens: Cavalo Islandês — O Cavalo de Cinco Andamentos do Atlântico Norte
O Cavalo Islandês tem cinco andamentos e mil anos de isolamento total. Uma lei de 982 proíbe importar cavalos, e o que sai da ilha nunca mais volta.
André Ferreira
10 min de leitura
Manada de Cavalos Islandeses num campo nevado, exibindo o pelo espesso de inverno e a variedade de pelagens da raça: à frente, um exemplar malhado de crina clara. Foto: redcharlie / Unsplash.
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Por volta do ano 982, os chefes reunidos no Alþingi, o parlamento a céu aberto que os colonizadores nórdicos haviam montado numa planície de lava, aprovaram uma lei curta e definitiva: nenhum cavalo de fora entraria mais na Islândia. Uma tentativa de cruzar o cavalo local com animais trazidos do continente tinha dado errado, e a decisão foi fechar a porta. Mais de mil anos depois, a porta continua fechada. Nenhum cavalo estrangeiro pisou a ilha desde então, e o cavalo que sai para competir lá fora nunca mais volta.
982Lei proíbe importar cavalos
5Andamentos, contra três do comum
~40Anos de vida, raça longeva
O Cavalo Islandês, em islandês íslenski hesturinn, é a única raça equina da Islândia e uma das mais isoladas do mundo. Descende dos cavalos que os colonizadores nórdicos levaram para a ilha nos séculos IX e X, e seus parentes vivos mais próximos são o Fjord norueguês, o cavalo das Ilhas Faroe e o pônei Shetland.¹
Dois Cavalos Islandeses a campo na paisagem da ilha, com a crina farta e a conformação compacta da raça: à frente, um exemplar alazão de crina clara. Foto: Theodor Vasile / Unsplash.
O livro genealógico oficial é o WorldFengur, mantido em conjunto pela Associação dos Criadores da Islândia (FAIC) e pela federação internacional FEIF. Só entram nele cavalos cuja ascendência se prova inteiramente islandesa, e o banco já passa de 563 mil animais registrados, vivos e mortos, em mais de vinte países.²
Os colonizadores e a lei que fechou a ilha
A Islândia foi povoada a partir de cerca de 870, por colonos vindos sobretudo da Noruega e das ilhas britânicas. Eles cruzaram o Atlântico Norte em barcos pequenos, e o espaço a bordo para animais era escasso. É provável que tenham escolhido os cavalos mais fortes e resistentes que tinham, o que já filtrou a base da raça antes mesmo de ela chegar à ilha.³
Em torno de 982, o Alþingi aprovou a proibição de importar cavalos. A medida veio depois de uma tentativa malsucedida de cruzar o plantel local com cavalos de tipo oriental, e o objetivo era impedir que o cavalo da ilha se degradasse. A lei nunca foi revogada. Por isso a raça atravessou mais de mil anos sem nenhuma adição de sangue de fora, o que faz dela uma das poucas no mundo com pureza genética comprovável desde a origem.⁴
O desfiladeiro do Lögberg, a Rocha da Lei, em Þingvellir: deste ponto o orador-da-lei presidia o Alþingi e proclamava as leis da Islândia. Foi aqui que, por volta de 982, votou-se a proibição de importar cavalos. Foto: Diego Delso / CC BY-SA 4.0 / Wikimedia Commons.
O cavalo não era um luxo na Islândia medieval. Era o único meio de transporte por terra numa ilha sem estradas, atravessada por rios e campos de lava, e aparece o tempo todo nas sagas e na poesia nórdica, às vezes como montaria de heróis, às vezes como animal de combate em brigas rituais de garanhões. A relação entre o islandês e seu cavalo vem desse fundo antigo.³
1783: o ano em que três de cada quatro cavalos morreram
Em 8 de junho de 1783, abriu-se no sul da ilha a fissura vulcânica do Laki, uma linha de cerca de 130 crateras que despejou lava e gases por oito meses. O flúor liberado envenenou o capim e a água. O episódio ficou conhecido como Móðuharðindin, as agruras da névoa.⁵
Uma das crateras da fissura do Laki, no sul da Islândia, hoje coberta de musgo sobre o campo de lava negro que a erupção de 1783 deixou. A fenda tem cerca de 130 crateras em linha. Foto: Areuland / CC BY 4.0 / Wikimedia Commons.
O gado morreu de fome e de envenenamento em massa. Estima-se que morreram cerca de 76% dos cavalos, 79% das ovelhas e metade do gado bovino da ilha entre 1783 e 1785, e a fome que se seguiu matou perto de um quinto da população humana. Houve paróquias que ficaram com um único cavalo vivo, mal capaz de levar os mortos até a igreja.⁵ ⁶
A raça passou por um gargalo severo e se reergueu a partir dos sobreviventes, sem poder buscar reforço fora, por causa da lei de 982. O que parecia condenação acabou preservando o tipo: cada geração que veio depois descende dos mesmos animais que aguentaram o clima mais duro que a ilha já impôs.³
Por que ele anda de cinco jeitos diferentes
Quase todo cavalo do mundo tem três andamentos naturais: passo, trote e galope. O Islandês tem cinco. Os dois extras são o que define a raça.⁷
O primeiro é o tölt, um andamento de quatro tempos em que sempre há ao menos um casco no chão. O resultado é um deslocamento veloz e quase sem solavanco: a montaria desliza, e é comum ver o cavaleiro levar um copo cheio sem derramar. O segundo é o flugskeið, a andadura voadora, um andamento lateral de dois tempos com uma fase em que os quatro cascos deixam o solo ao mesmo tempo. Usado em corridas curtas e retas, pode passar de 45 km/h.⁷
Sævar frá Stangarholti em tölt, montado por Guðmundur Arnarson num campeonato de cinco andamentos em Hella, 2008. No tölt, sempre há um casco no chão, e o cavaleiro mal balança. Foto: Dagur Brynjólfsson / CC BY-SA 2.0 / Wikimedia Commons.
A explicação está num único gene. Em 2012, um grupo liderado por Leif Andersson identificou que uma mutação no gene DMRT3, apelidada de gait keeper, guardião do andamento, é o fator genético central que permite a um cavalo fazer esses andamentos extras. A descoberta saiu na revista Nature.⁸
O cavalo que herda a versão mutada do gene dos dois pais costuma fazer os cinco andamentos; o que herda em dose simples tende a fazer só quatro, sem a andadura voadora. Por isso, no jargão da raça, fala-se em cavalos de cinco andamentos e de quatro andamentos. Estudos posteriores, de 2023, mostraram que outros genes, como o RELN e o STAU2, refinam a qualidade da andadura, sinal de que o sistema é mais complexo do que um interruptor só.⁹
O cavalo que não pode voltar para casa
A lei de 982 continua valendo, mas hoje a razão é outra. Como o plantel viveu mil anos sem contato com cavalos de fora, não desenvolveu defesa imunológica contra doenças equinas comuns no resto do mundo. Um patógeno trazido de fora poderia varrer a população inteira.¹⁰
O risco não é teórico. Em 2010, uma epidemia de doença respiratória atingiu quase todos os 77 mil cavalos da ilha. A causa foi a bactéria Streptococcus equi subsp. zooepidemicus, de uma linhagem específica, que entrou num centro de treinamento e se espalhou pelo país inteiro em poucas semanas, num plantel sem imunidade prévia.¹¹
A consequência prática é dura para os criadores. A Islândia exporta cavalos, mas o que sai nunca mais entra. Um campeão levado para competir na Europa será vendido lá fora, porque a volta é proibida por lei. Quem visita a ilha também não pode levar sela, botas ou qualquer equipamento de montaria usado: tudo tem de ser novo ou desinfetado.¹⁰
Pequeno, peludo e velho de guerra
O Islandês mede em média cerca de 1,40 metro na cernelha e pesa de 350 a 400 kg. Pela altura, seria classificado como pônei, mas os registros e os criadores o chamam de cavalo, em parte pela robustez e em parte por uma razão de idioma: o islandês não tem uma palavra separada para pônei.¹²
Cavalo Islandês no inverno: a altura modesta, em torno de 1,40 metro, vem acompanhada de uma estrutura robusta que carrega adultos sem dificuldade. Foto: Kym Ellis / Unsplash.
É uma das raças mais longevas que existem. Vive comumente até perto dos 40 anos, e há o registro de um exemplar que chegou a 59. Tem pelagem dupla e densa para o inverno subártico, conformação compacta, e ocorre em mais variações de cor do que quase qualquer outra raça. O temperamento é descrito como dócil, seguro e independente, fruto de séculos soltos em rebanho no campo aberto.¹²
O cavalo no Brasil de hoje
O Cavalo Islandês é raríssimo no Brasil e não tem criatório comercial relevante no país. O clima tropical e a barreira sanitária da própria Islândia, somados ao custo de importação, fazem da raça uma presença quase só de conhecimento, não de mercado.¹³
No mundo, é outra história. O plantel registrado passa de 215 mil animais, e há populações grandes fora da ilha: a Alemanha tem cerca de 73 mil, a Dinamarca 46 mil, a Suécia 37 mil. Na própria Islândia, um país de pouco mais de 360 mil habitantes, vivem em torno de 70 a 90 mil cavalos da raça, número que oscila ano a ano.² ¹⁴
Linha do tempo
~870Colonizadores nórdicos levam cavalos para a Islândia.
~982O Alþingi proíbe importar cavalos. A ilha fecha para sangue de fora.
1783A erupção do Laki mata cerca de 76% dos cavalos da ilha.
2001Lançado o WorldFengur, livro genealógico mundial da raça.
2010Epidemia respiratória atinge quase todos os 77 mil cavalos da ilha.
2012Andersson et al. identificam o gene DMRT3 por trás dos andamentos.
Curiosidades
O copo que não derramaA suavidade do tölt virou prova de demonstração: cavaleiros andam em tölt segurando uma caneca cheia para mostrar que o andamento não respinga. Como sempre há um casco no chão, não existe a fase de suspensão que sacode o cavaleiro no trote, e o passageiro fica praticamente imóvel sobre um cavalo em alta velocidade.⁷
Equipamento usado é proibidoA barreira sanitária da Islândia é levada ao pé da letra. Quem vai à ilha andar a cavalo não pode levar sela, rédea ou botas que já tenham tocado outro cavalo: o equipamento tem de ser novo ou passar por desinfecção. A regra protege um plantel que não tem defesa contra doenças de fora.¹⁰
Parente do Fjord e do ShetlandO isolamento não apagou as origens. Análises de parentesco apontam o Fjord norueguês, o cavalo das Ilhas Faroe e o pônei Shetland como os primos vivos mais próximos do Islandês, todos descendentes do mesmo tronco de cavalos nórdicos que circulava pelo Atlântico Norte na época da colonização.¹
Ficha técnica
OrigemIslândia. Descende de cavalos nórdicos levados à ilha nos séculos IX e X.
Livro genealógicoWorldFengur, mantido pela FAIC (criadores da Islândia) e pela FEIF. Mais de 563 mil registros.
AlturaCerca de 1,40 m na cernelha, em média.
Peso350 a 400 kg.
AndamentosCinco: passo, trote, galope, tölt e flugskeið (andadura voadora).
PelagemGrande variedade de cores. Pelo duplo e denso para o inverno subártico.
LongevidadeComumente até cerca de 40 anos; recorde de 59.
TemperamentoDócil, seguro, independente. Criado em rebanho a campo aberto.
Particularidade legalImportação proibida desde ~982. Animal exportado não pode retornar.
PopulaçãoMais de 215 mil registrados no mundo; cerca de 70 a 90 mil na Islândia.
Quais são os cinco andamentos do Cavalo Islandês?
Além de passo, trote e galope, o Islandês faz o tölt, um andamento de quatro tempos muito suave em que sempre há um casco no chão, e o flugskeið, ou andadura voadora, um andamento lateral de dois tempos com fase de suspensão, usado em corridas curtas e capaz de passar de 45 km/h.⁷
Por que cavalos não podem entrar na Islândia?
Desde uma lei do parlamento Alþingi de cerca de 982, a Islândia proíbe importar cavalos. Hoje a regra é barreira sanitária: o plantel viveu mil anos isolado e não tem imunidade a doenças de fora. Por isso até um cavalo islandês que sai para competir nunca mais pode voltar, e é proibido levar à ilha equipamento de montaria usado.¹⁰
O Cavalo Islandês é um pônei?
Pela altura, em torno de 1,40 m, teria medida de pônei, mas os registros e os criadores o chamam de cavalo, pela robustez e por uma razão cultural: o idioma islandês não tem uma palavra separada para pônei. É um cavalo pequeno, não um pônei.¹²
Quanto tempo vive um Cavalo Islandês?
É uma das raças mais longevas. Vive comumente até cerca de 40 anos, com registro de um exemplar que chegou a 59. A longevidade vem da seleção dura do ambiente e da ausência de muitas doenças no plantel isolado.¹²
Existe Cavalo Islandês no Brasil?
É raríssimo no Brasil e não tem criatório comercial relevante. O plantel mundial passa de 215 mil animais registrados, concentrados na Islândia, Alemanha, Dinamarca e Suécia, todos no livro genealógico WorldFengur.² ¹³
Cavalo Islandês de crina farta ao vento em campo verde. Vídeo: FEI — "The Uniqueness of Icelandic Horses | Equestrian World".
Fontes
NORDGEN. Icelandic Horse. Centro nórdico de recursos genéticos; parentesco com Fjord, Faroe e Shetland, origem nos séculos IX e X. nordgen.org.
FEIF. WorldFengur — the studbook of origin for the Icelandic horse. Livro genealógico oficial, FAIC e FEIF; mais de 563 mil registros. feif.org.
HORSES OF ICELAND. The Icelandic Horse. Plataforma oficial de promoção da raça (governo e setor islandês); história da colonização e papel cultural. horsesoficeland.is.
ICELANDMAG. Why are Icelandic horses not called ponies. Detalha a lei do Alþingi de 982 e a tentativa de cruzamento que a motivou. icelandmag.is.
ENCYCLOPÉDIE DE L'ENVIRONNEMENT. The Laki Fissure eruption, 1783-1784. 76% dos cavalos, 79% das ovelhas, 50% do gado mortos; Móðuharðindin. encyclopedie-environnement.org.
JACKSON, E.L. The Laki Eruption of 1783: impacts on population and settlement in Iceland. Geography, vol. 67, 1982. tandfonline.com.
HORSES OF ICELAND. The five gaits of the Icelandic horse. Descrição de tölt e flugskeið e da base genética dos andamentos. horsesoficeland.is.
ANDERSSON, L.S. et al. Mutations in DMRT3 affect locomotion in horses and spinal circuit function in mice. Nature, 2012. Identifica o gene "gait keeper". nature.com.
LICHTENBERG, K. et al. The genetics of gaits in Icelandic horses goes beyond DMRT3, with RELN and STAU2 identified as two new candidate genes. Genetics Selection Evolution, 2023. PMC10712087.
WIKIPEDIA. Icelandic horse. Lei sanitária de não-retorno, proibição de equipamento usado, ausência de imunidade. en.wikipedia.org/wiki/Icelandic_horse.
BJÖRNSDÓTTIR, S. et al. Genomic Dissection of an Icelandic Epidemic of Respiratory Disease in Horses. 2017; epidemia de 2010, Streptococcus zooepidemicus ST209, 77 mil cavalos. PMC5539424.
NORDGEN. Icelandic Horse (ficha de raça): altura média 140 cm, peso 350-400 kg, longevidade. nordgen.org.
GUIDE TO ICELAND. A Complete Guide to the Icelandic Horse. Longevidade até ~40 anos, recorde de 59; regra do não-retorno. guidetoiceland.is.
NORDGEN. Equines in the Nordics — Iceland. População 2024: 92 mil na Islândia, 215 mil registrados no mundo; Alemanha 73 mil, Dinamarca 46 mil, Suécia 37 mil. publication.nordgen.org.
André Ferreira
André é o responsável atual pela condução editorial e estratégica do Multicavalos, um portal voltado ao universo equestre. Entusiasta do ramo, André dedica-se ao estudo e à observação do setor, buscando compreender suas práticas, rotinas, desafios e evoluções.